terça-feira, 28 de abril de 2009

Uma véspera...

Quatro da tarde. Fazia meia hora que Eduardo saíra para trabalhar. Despedira-se, beijando-me na testa e, ao chegar à porta, acenou-me com um olhar meio penoso, meio vazio.Havia um clima esquisito entre nós após uma conversa no banco. Faltavam dois dias para o ano novo, e ele comentara que desejava comprar uma roupa preta para a virada.

- Preta? - espantei-me. - E o clima de paz, confraternização? Não significa nada para você?

Ele chamou-me boba, argumentando que paz somos nós que fazemos. Por que, então, nunca estávamos em paz? Ele não se esforçava muito para agradar-me, ou, ao menos, poupar-me de comentários cortantes. Ultimamente, quase tudo vinha sendo razão de críticas: as minhas roupas roxas e laranjas, as músicas da Marisa, meus brincos indianos, as minhas unhas quadradas, que ele preferia redondas, as colegas do trabalho...

Eu vivia me perguntando por que ele permanecia comigo, já que tantas coisas o irritavam, e por que tanta insatisfação junta, após quatro anos de relacionamento. Ademais, já que não tínhamos filhos e não éramos casados, bastava-lhe fazer as malas e partir. Era bem simples, não? Mas e eu? Por que permanecia com ele após tanto questionamento e insatisfação?

Como eu estava transformada! Aquele homem conseguira me dominar por completo. Atendia a todos os seus pedidos, vestia-me "melhor", mantinha a cor natural dos cabelos, só ouvia Marisa quando ele estava fora, trabalhando ou pescando, aturava a mãe dele com educação e paciência, apesar das constantes indiretas. Onde eu havia me perdido, que agora só enxergava humilhação em redor? Eu havia chegado a um ponto em que, se ele dissesse que a salvação para nós era a "abertura" do relacionamento, eu estaria aceitando de bom grado.

Por que eu, uma mulher bem sucedida, inteligente, querida, sentia-me tão dependente daquele homem? Eu sabia que precisava fazer algo aquele dia. Tomei um longo banho, programando o dia seguinte, a minha vida...

Peguei uma mala e comecei a separar as roupas, romances, perfumes, calmamente, pensando na história deles, das ocasiões em que os comprei ou ganhei. Pus uma música do Ivan Lins, cantada pela Simone, "Começar de novo", e cantava, fechando os olhos vez ou outra. "Começar de novo e contar comigo/ vai valer a pena ter amanhecido ..."

Uma lagrimazinha caíra furtivamente... Eu me habituara a somente me libertar na intimidade do meu quarto vazio, dos meus livros, das minhas músicas, sonhando ao som daquelas vozes doces. Ali eu podia ser quem quisesse: atriz, cantora, política, filósofa, desinibida... Ali é que eu fazia o meu mundo, a minha realização. Por que neguei a mim mesma o direito de viver? De ser livre? Não consigo entender.

Pus uma música mais animada, para embalar a arrumação da mala. Às sete ela estava pronta. Decidi sonhar um pouco mais, assistindo àquele filme tão querido a que o Eduardo jamais conseguira assistir inteiro, porque sempre dormia.

Comecei a ficar sonolenta. Eduardo chegaria à uma hora. Era melhor guardar a mala no armário e dormir na cama. Precisava estar descansada para o dia seguinte. Além disso, não queria que o Edu me encontrasse dormindo no sofá.

Aquela havia sido uma noite mágica, cheia de sonhos lindos, de aventuras. Eu, livre e independente, mundo a fora.

- Dorminhoca! - era Eduardo me chamando às oito.

- Já arrumou a mala?

- Já - respondi.

Era dia 31, e o Ano Novo seria comemorado na casa da mãe dele.



conto escrito em 2002, depois de ler muita Clarice Lispector.
***
mala comprada aqui para guardar meus cachecóis e lenços que estavam dando sopa para os meus gatinhos.

11 comentários:

  1. dando sopa pros gatinhos eh tenso.. conheço más historias =P

    honey tem um selinho pra vc tirar foto da sua bolsa e oq tem dentro la no blog pra ti viu?

    ;*

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  2. Sem comentários para esse texto.
    Sem comentários mesmo, senão vou falar demais.

    Muito bom, amiga.

    B-jo grande.

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  3. Assustei no começo...rs

    beijosss

    Texto muito bom!

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  4. that's a very cute luggage. are u going on vacation?

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  5. mudança de planos, não vou conseguir encontrar vcs...
    =/

    fica pra próxima!

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  6. Aline, vi seu comentário do blog da K. perguntando de onde ela é! Nós estudamos francês juntas por vários anos e ela estudava na mesma universidade que eu estudo!! Legal né? Vou combinar com ela umas fotos, ahiahiohiaoia!

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  7. rs no auto da história cheguei a achar q vc ia embora
    mas sou casada tbém...rs e entendi
    amei o texto
    vc é muitíssimo criativa
    bjux
    linda
    :)

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  8. Aline, gostei muito do seu conto, especialmente do ritmo da narrativa, você tem talento, menina!
    Adoraria ler outras coisas suas, viu?

    Beijos.

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  9. Nossa, ótimo!! Senti um desanimo no final, achava que ela ia embora. ='/ que triste!


    "Por que neguei a mim mesma o direito de viver? De ser livre? Não consigo entender."

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