terça-feira, 1 de junho de 2010

Sobre escritores e sinceridade


Recentemente, li dois livros cujos enredos traziam circunstâncias bem semelhantes: eram narrados em primeira pessoa por personagens escritores, com uma sinceridade desconcertante. Trata-se de Pergunte ao pó, de John Fante, e de Diário de um fescenino, de Rubem Fonseca.
No primeiro, reencontrei, de certa forma, a sensação que tive ao ler Os subterrâneos, de Jack Kerouac. Nos dois romances, os narradores se apresentam sem pudores ou ressalvas, revelando toda a sua natureza contraditória, as suas frustrações, com um lirismo verborrágico e inusitado. É certo que em Kerouac temos um ritmo e uma linguagem conduzidos pela embriaguez e pela agitação interna do personagem, o que em Fante é substituído por uma secura e uma sobriedade surpreendentes.
Arturo Bandini, protagonista de Pergunte ao pó, descreve sua vida de escritor em início de carreira, jovem, imaturo e pobre, na cidade de Los Angeles. Narra também sua relação conturbada com a mestiça Camila, sua crueza sexual e seus delírios em relação à carreira, com tal franqueza que sugere a rememoração de sua juventude na maturidade. O livro é regado de passagens irônicas, dentre as quais o fato de que a coisa que ele menos faz é escrever. A confissão de seus fracassos e fraquezas, somado aos seus rompantes de escrotidão profunda, apontam a sua humanidade e nos faz, ainda que de maneira inusitada, criar uma empatia com ele – pobre diabo, como todos nós.
Tal postura não se revela, por sua vez, em Diário de um fescenino.O romance encena o diário de um escritor, que também se oferece com extrema sinceridade. No entanto, o narrador é dotado de um sentimento de superioridade intelectual irritante, que o impede de levar quem quer que seja a sério. Por causa de sua incapacidade em manter-se fiel e de disparar mentiras e verdades desagradáveis a quem lhe cruzar o caminho, conforme lhe convenha e sem a menor cerimônia, acaba sempre ficando sozinho – fato que também não parece lhe incomodar. O personagem age constantemente em busca de satisfazer seus apetites sexuais, o que acaba por deixá-lo em maus lençóis e em situações embaraçantes, que ele enfrenta com uma cara-de pau digna de um psicopata.
O traço mais divertido do livro são as coincidências da personagem com o próprio Rubem Fonseca, como o primeiro livro de sucesso, as adaptações do mesmo para o cinema e para a tv e a postura anti-social. Há, ainda, a intermitente intertextualidade sugerida, na medida em que tudo que o personagem diz às pessoas já fora dito em seus livros, bem como o fato de que várias conclusões a que chega são arrematadas por aforismos e citações de grandes escritores. Parte do diário comenta o ofício de escritor e os recursos empregados pelo personagem na composição do livro que está escrevendo simultaneamente ao diário, bem como a concepção que ele tem do gênero confessional. Nesse sentido, é um deleite para os amantes e estudiosos de literatura.

Um comentário:

  1. Ótima resenha e valeu as dicas de leituras!! tem sorteio no blog

    bjs das gurias

    www.gauchasnamoda.blogspot.com

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