sexta-feira, 22 de outubro de 2010

“Eu não quero a faca e o queijo, eu quero a fome”

Estou lendo Schopenhauer e não me consigo deixar de pensar que eu era uma pessoa bem mais simples, há alguns anos. Simples desencanada, sabe? Tranquila, sem certos grilos angustiantes de hoje.

O filósofo alemão supracitado afirmava que a felicidade era mais facilmente alcançada quanto menos desejássemos. Para ele, somos movidos por uma vontade que nos é intrínseca, e que nos move, sempre alternando os objetos – ou seja, não importa se alcançaremos nossos objetivos, porque surgirão novas vontades ao logo da vida. Ele indicava como solução para conter essa vontade desenfreada que se evitasse ao máximo o contato social, que se cultivasse a misantropia.

Não posso dizer que simpatizo com esse conselho, mas acredito que ele possa ter certa coerência. É que venho pensando que, de fato, quanto mais pessoas interessantes e instigantes conheci, mais me contaminei com suas virtudes e obtive novas vontades. Essas vão desde conhecimento e habilidades até bens materiais. E o que mudou na minha vida não é que fiquei mais popular ou me tornei mais sociável. É que descobri a Internet. Descobri com bons olhos, porque sempre fui receosa em relação a essa ferramenta e demorei para admitir e aceitar que a rede pudesse ser uma fonte de lazer e conhecimento.

Posso dizer, de maneira simplificada, que hoje tenho uma vida virtual, subordinada à real, como um segmento secundário. E, nessa second life, conheci pessoas fascinantes, com histórias cativantes, que me impelem a querer mais: estudar mais, viajar mais, ganhar mais, viver melhor, comer melhor, ser melhor etc. O consumismo, como se pode imaginar, está incluído nesse pacote. Creio que muitos de vocês hão de se identificar com o que digo e que concordarão que esse excesso de desejos é angustiante.

Acredito, genuinamente, que o convívio (virtual ou real) com pessoas interessantes e cativantes, como citei anteriormente, é capaz de promover aprendizado, crescimento, de permitir o amadurecimento mesmo. Agora, como conciliar esse benefício, como obter crescimento com esse convívio, sem se tornar um angustiado-ansioso ambulante? Como atingir esse equilíbrio, se é que isso é possível? Por que, não seriam, também, os desejos, os anseios, as dúvidas que movem as descobertas importantes, os avanços in the big picture, ou seja, no âmbito social?

Desconfio que a resposta para esse dilema remonte ao templo de Delfos, no séc V a.C.: “conhece-te a ti mesmo”. Tenho a impressão de que a maneira mais eficiente para não nos deixarmos levar por toda e qualquer opção que se nos afigure é, de fato, lembrarmos sempre de quem somos, refletir a esse respeito, sempre e com cuidado. Mas, aí, esbarro numa outra questão que me incomoda: somos tão inflexíveis a ponto de sabermos quem somos com extrema segurança? Ou melhor, a multiplicidade e a complexidade não fazem parte da estrutura do indivíduo? A mudança não faria parte de processo de “ser”?

Se você chegou até aqui nessa minha filosofia de boteco, se importaria em refletir comigo e dividir sua opinião? Jowzinha e Carol, sei que vocês são filósofas de verdade! So, won’t you please, help me?

;)

*Título retirado de um poema de Adélia Prado

PS: Desconsiderem a aproximação simplória que fiz entre os conceitos de "desejo" e "vontade", porque suspeito que eles não sejam a mesma coisa. Deixo essa questão para outra conversa.

15 comentários:

  1. Schopenhauer e o pessimismo..uahsas não li mas li alguns autores que leram e refletem seu pensamento nas histórias.. bjs e boa sexta feira

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  2. Minha linda, que bela reflexão! Concordo plenamente com as questões que abordou! Por mais que atinjamos todos os nossos objetivos, pelo longo da vida outros surgirão! Meu contato com a internet e com pessoas super queridas, com certeza aumentou o meu desejo de consumo! O que o Schopenhauer disse é real, mas é difícil vivermos isolados, não é? Mais fácil viver desejando e tendo contato com pessoas maravilhosas do que cultivar a misantropia.

    Bom, pelo menos penso assim! Pessoas nos fazem tão bem! rsrsrs

    Beijos
    http://estiloemcapitulos.blogspot.com

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  3. Oi Aline...
    viver não é tarefa fácil quando se tem consciencia de si e das coisinhas que nos rodeiam ...nesse caso a ignorância seria uma boa aliada..alienada !Bom, a vaidade é o meu pecado e vem com pacote completo. Quando acho que estou exagerando, tenho que me dar um tempo, um tempo mesmo ,parar de comprar ! Faço yôga, faço terapia, corro no parque...tenho que suar bastante pra manadar "coisas" embora e retornar mais leve pra roda viva ...
    ...não conheço o filósofo citado.
    Bjks da Déia

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  4. A frieza de raciocínio de Schopenhauer.... rs é.. nos faz pensar. Concordo com você quando diz que de fato, se tivéssemos menos desejos, mais fácil seria de se alcançar a tão falada felicidade.
    Mas se pensarmos por esse ponto, nunca vamos descobrir do que realmente nossos espírito e corpo são capazes! Quais são nossos limites emocionais, físicos, psíquicos.
    Isso sim, eu acho muito louco! Num sentido bom!
    Mas admiro quem alcança a felicidade plena numa vida simples.
    Só acho que, como dizia o poeta, se eu parar de desejar, enterrem-me! Já não terei mais razões de viver! :)

    Viajei muito???

    Beijinho, querida!

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  5. encontrar o equilibrio... eis o desafio, pois ao vivermos em comunidade, agora real e virtual, criamos expectativas e fazemos com que se criem a nosso respeito, e ai mesmo se querer decepcionamos e somos decepcionados, tenho tentado ser uma pessoa melhor, ja disse isso. è uma questão de realização pessoal, mas feliz, mas firme, mas corajosa, mas sociavel. Precisava ler seu post.
    bjs

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  6. Adorei a reflexão, principlamente porque vivemos em um tempo onde desejamos sempre demais aquilo que não temos e porventura outros o têm! E isso realmente causa um grande mal-estar na humanidade que está cada vez mais angustiada, procurando encontrar a tal felicidade na próxima aquisição...e na próxima...e na proxima. Mas como viver isolado?! Eu necessito de contato, de comunicação com o mundo, e até as pessoas introspectivas necessitam e isso fica demostrado na criação de blogs, estamos sempre buscando nos comunicar, e eis a grande questão como manter o equilibrio, como não deixar nos contaminar pela grande máquina do consumismo?!
    Isso em minha opinião é uma questão de filtro, isso filtrar aquilo que realmente é legal e que caiba em nossa vida, seja no bolso, seja no sonho que pode ser alcançado, porque se nos instiga a sermos seres melhores, até aí ótimo, só não se pode deixar-se angustiar!
    Um grande beijo ALine!

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  7. Sobre sua reflexão me lembrei desse poema de Vicente de Carvalho:
    Felicidade

    "Só a leve esperança, em toda a vida,
    Disfarça a pena de viver, mais nada:
    Nem é mais a existência, resumida,
    Que uma grande esperança malograda.

    O eterno sonho da alma desterrada,
    Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
    É uma hora feliz, sempre adiada
    E que não chega nunca em toda a vida.

    Essa felicidade que supomos,
    Árvore milagrosa, que sonhamos
    Toda arreada de dourados pomos,

    Existe, sim : mas nós não a alcançamos
    Porque está sempre apenas onde a pomos
    E nunca a pomos onde nós estamos."

    O que nos move são os objetivos, alcançando um outro será desejado inevitavelmente e com certeza a velocidade do querer tem a ver com toda essa tecnologia que nos rodeia! Bju

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  8. Uau.
    Excelentes comentários. E que excelente post. Falou e disse tudo.
    Estou exatamente vivendo com essa questão a me importunar. Fiz um blog e já estou no segundo, e nesse novo andei postando 'consumismos'. Tenho me questionado se estou saindo de mim, se estou deixando de ser humilde, se não estou querendo demais, deixando de ser o que era...enfim, acho que não tem jeito. Fantasmas sempre existirão para nos fazer pensar e serão com eles que aprenderemos mais e cresceremos.
    Concordo com a Sra Dona Paula Patrícia. O negócio é filtrar e sempre pensar. Pensar no que fizemos, no que não fizemos e no que iremos fazer.
    Lindo blog. Parabéns.
    Beijo grande pra todos.

    Mariana
    :)

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  9. Nossa!! É isso mesmo....um ato involuntário que leva a outro e, qdo damos conta estamos totalmente envolvido com o outro, com a novidade e a sede de querer mais de saber mais e de ser melhor só faz aumentar.
    Perfeito!
    É por isso que existe tantas terapias que desenvolvem o conhecimento interior e qto mais nos cercamos de nós mesmos mais conseguimos ser mais completos e felizes!
    Mas a convivência com o outro é importante tb p/ este equilíbrio, acredito eu. Pq viver sozinho e isolado (não defendo a misantropia em hipótese alguma) é bem mais fácil de lhe dar com seus demônios....a luta e a busca pela evolução é conviver com o diferente/semelhante.

    Gostei tanto desde post q vou postar no meu twitter, tudo bem?
    Bjs

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  10. Oi Aline,
    Uma das coisas boas da internet é que sempre me esbarro nos meus pensamentos em forma de palavras, colocadas por outra pessoa.
    Foi assim agora. Seria fácil vir aqui comentar e concordar com tudo que escrevestes pelo simples fato de adorar como escreves, mas não, concordo porque tenho os mesmos pensamentos, coisas que passam na minha mente, pipocam, sei que elas estão ali, mas não saem, não deixam apenas de ser pensamentos. Então me assusto quando alguém torna esses pensamentos em palavras, ai vejo que outros pensam igual. Podia ser sintonia entre nós se isso não fosse apenas realidade do ser humano, o ser humano realmente é isso, realmente é assim. E acho que isso é que nos motiva todos os dias, a busca pela tal felicidade... e nesse caminho encontramos inúmeras coisas, pessoas, desejos, obastáculos,sempre estaremos prontos para novos desafios, estaremos em constante mudança, iremos querer mais... o que é bom hoje será pouco amanhã... Bom, é assim e acho que se muitas vezes isso nos faz triste, por nos causar ansiedade, tristeza, dor, isso também é o que deixa nossos dias mais felizes, é o que nos faz ter vontade, ânimo de crescer, buscar coisas novas, conhecer pessoas e lugares, enfim, os que nos motiva a viver.

    Beijos, belo testo, bela filosofia e bom final de semana!

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  11. ai... fico matutando sobre isso toda semana. hehehehehe e o mais interessante é que todos esses questionamentos são insistentes. é como se o ser humano fosse feito disso: equilíbrio desequilibrado.

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  12. Adorei o texto!
    Que vontade de divagar assim por muito tempo e fazer análises de vida continuamente!
    Beijo, amiga!

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  13. Bendita ignorância. Ignorância inocente, sem ser pejorativa. Ignorância de não ver, só enxergar. Não ouvir, só escutar. Por que precisamos ser tão detalhistas? Por que não podemos viver na ignorância?

    Meu avô tem um funcionário que ficava todo feliz quando ele o pedia para lavar o carro, porque assim, ele ganharia R$ 10 e poderia curtir o fim de semana.

    Não é tão melhor? Não é tão mais simples?

    Não gostaria de saber tanta coisa e não gostaria de querer saber mais. Por que a simplicidade não é assim, "tão simples" para nós?

    ai, por que foi falar no schopenhauer? a angústia desse cara, que já mora num passado longíquo da minha vida, veio à tona.

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  14. Nossa Li, ia deixar um comentário superficial ai comecei a ler os de cima e fiquei com vergonha de mim rs!

    acho q de certa forma ele tem razão.... eu sou um pouco anti-social e percebo q o contato com as pessoas me deixa mais afoita pra crescer.
    porém, qd me isolo, minha vida flui melhor, mas sem grandes histórias, vontades.... SEM GRAÇA

    então, acho q o segredo é balancear... conviver, ambicionar e ser feliz... td na medida!

    adoro vc amiga... agradeço a internet por ter t conehcido

    bjs

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  15. Muito obrigada a todas que me deram retorno nessa questão existencial.

    Foi muito importante!

    Vocês são ótimas! Lindas, amigas e inteligentes!

    Beijão!

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