segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Obrigada, vó!



Se hoje sou essa moça versada em música e literatura, e que não sai de casa sem passar blush, devo muito a minha avozinha.
Uma senhorinha pequenina, mas durona, geniosa, muito dona de si.
Com ela, que cozinhava incrivelmente bem, aprendi a apreciar um prato bem feito e ingredientes frescos.
Com ela, aprendi a exigir e incluir vegetais em todas as refeições.
Lendo suas poesias, inspirei-me a escrever as minhas, que ela lia e corrigia, cheia de orgulho.
Com ela, aprendi a sentir as músicas de olhos fechados, ouvindo Clara Nunes e o seu primo, Dorival Caymmi.
Moça instruída, nunca perdeu a fluência em inglês e sempre me testava. Tentou ensinar piano aos netos, mas só a prima Lu se mostrou apta a tal talento.
Quando quero dar ares retrôs a minha casa, é na casinha dela que estou pensando.
Quando eu era pequena, ela me levava pra tomar sol e me exibia para todos os conhecidos: sua primeira netinha, gorducha e bronzeada. Continuou me exibindo enquanto pôde, até aos médicos no hospital. 
Dela, herdei qualidades e defeitos. E sei que ela se foi cheia de orgulho, porque eu me parecia mais com ela do que eu gostaria. Porque era moça de bem, estudada, bem formada, como ela sempre se gabava.
Só não lhe dei a alegria de um bisneto, que ela sempre pedia. Desculpa, vó!

Protetora, me ligava sempre que sabia de um acidente pra saber se eu estava bem. Perguntava quanto tempo ainda ia durar a faculdade, e a pós, e o mestrado, porque ficava angustiada a cada minuto que eu permanecia longe. E rezava, todo santo dia, pra Deus proteger e guardar as filhas e os netos, que iam ganhando a vida por aí, até à noite. E chorava de preocupação.

Minha avó Dina é uma parte imensa de mim, e mesmo tendo ido viver o descanso eterno, viverá em todos com quem teve contato. Era única, singular e amada demais pra ser esquecida. Legou-nos força, atitude, e o espírito exigente. Deixou-nos também alguns bordões engraçados, que repetiremos com alegria e saudades.

Ela se despede desse mundo, aos 88 anos, tendo vivido intensamente, feito absolutamente tudo o que queria e sem jamais aceitar o subjugo de quem quer que fosse. Amou-nos como só uma grande matriarca sabe e teve de volta todo o amor que éramos capazes de lhe dar.

Vó, por tudo que me ensinou e que me amou, eu te agradeço!
Descansa em paz!