terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Para pensar: moda e literatura


"A vontade de possuir um cardigã representava uma tentativa de adequar sua perplexidade a um estilo preexistente, pautando-se a partir de uma imagem fornecida por terceiros. Tratava-se de uma forma de caricatura elegante e dispendiosa; em virtude dessa insegurança, uma infinidade latente de características reduzia-se a alguns retoques fundamentais que poderiam fixá-la a uma forma socialmente aceita.

As tendências da moda atual residiam em uma categoria esquizofrênica e inconstante de verdade ou falsidade que operava na base dualista in e out. A metáfora era importante - a moda era uma casa, um local onde se podia entrar ou ser expulso. Naquele mês especial, mangas ligeiramente fofas, decotes generosos e tecidos leves eram considerados a única opção autêntica. Botões com intrincados desenhos indianos recebiam elogios discretos de determinados grupos sociais, assim como cabelos longos presos por um coque e arrematados por uma travessa larga. As jóias  estavam fora de questão, mulheres ostentando relógios masculino era o último grito, vestidos longos estavam out, vestidos de brim eram in, caxemira era cafonice, a seda a última palavra, blush nem pensar, loções adstringentes eram altamente recomendáveis, a cor lilás estava de volta e laranja era um crime. Os estilistas se empenhavam em assegurar a importância das superposições, a sobrevivência das espécies parecia repousar em camisões soltos ou túnicas usadas corretamente sobre leggings.



As conclusões sobre tais assuntos não convergiam para um só ponto, ao contrário, eram irrigadas por mil vasos capilares de um organismo gigante chamado gosto: um monstro imprevisível e inconstante cujo homúnculo incluía os jovens, os famosos, os ricos, os criativos e os belos, num coquetel permanentemente instável. Instável porque essas conclusões não se baseavam nas qualidades específicas de um objeto, mas no lugar que tal objeto ocupava em uma cadeia mais ampla de mercadorias. "

(O Movimento Romântico. Alain de Botton)

5 comentários:

  1. Adorei o texto
    vou a procura do autor
    ontem li seu post, fiquei emocionada de verdade, e vc tem razão, eu não sei o que dizer nessas horas, sou uma pessima amiga. Mas gostaria de dizer que vc escreve de forma muito tocante. bjs

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  2. AMEI esse post com cada célula do meu corpinho e cada pedacinho da minha alma! rs

    Beijos, minha querida! :)

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  3. Amei o post! Achei interessante, principalmente, a metáfora - coube certinho!

    O que é belo para uns, pode não ser para outros, e depende do local e da época - assim é com a moda, a cultura, a educação, as crenças... Normal.

    O detalhe é aprender a viver com a instabilidade... e a respeitar a quem não se adapta a ela. Respeitar as diferenças, estejam elas in ou out.

    Sei lá, eu acho.

    Beijos, com carinho!

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  4. LaRek, é bem como vc que eu penso.
    Usar o que gostamos, estando na moda ou não.
    Nada de regras arbitrárias pra cima de mim.
    Nunca comprei o peixe da Miranda Priestly, do Diabo veste Prada.

    hihihi

    Beijoca!

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  5. Adorei o texto...
    acho que vou ruminar ele por dias...

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