sexta-feira, 1 de abril de 2011

Dica de cinema - Howl!



Na esteira dessa minha iniciação beat, baixei o filme Howl!, sobre o processo envolvendo o poema homônimo de Allen Ginsberg, um dos principais expoentes dessa geração. "Howl" (Uivo) é um longo poema que descreve os jovens da época, bem como as experiências e reflexões de Ginsberg,  envolvendo amores, amigos, uso de drogas etc.

O filme retrata o julgamento do editor Lawrence Ferlinghetti, o qual estaria vendendo o material obsceno constante no poema. O processo se dá de modo a decidir se o poema constitui ou não um atentado à sociedade.
A estrutura do longa é composta por quatro linhas narrativas interpostas: a biografia do poeta (em preto em branco), uma entrevista com ele, o julgamento e a declamação do poema por Ginsberg numa espécie de bar/reunião associada com ilustrações.
Na entrevista, Ginsberg (James Franco) descreve sua formação literária, a amizade com Jack Kerouac e Dean Cassady, o romance com Peter Orlovsky e a produção de "Howl". A parte biográfica recria a década de cinquenta, com o bares, o bop, as ruas de Denver, São Francisco e Nova York, com um belo tratamento de imagem e fotografia e deliciosa trilha. A declamação do poema revela a ótima atuação de Franco e é uma das partes mais interessantes do filme, por ilustrar o poema com desenhos surrealistas, numa ótima alusão ao uso dos psicotrópicos, tão inerente à geração descrita e à biografia do escritor.

No entanto, o trunfo do filme, na minha opinião, reside no julgamento, com a argumentação a respeito da relevância literária do poema, com o questionamento acerca do uso de palavras chulas e com o interrogatório de professores de literatura no intuito de defender ou condenar a obra. Meu lado acadêmico "siricuticou" diante da bela argumentação, embora eu nem ache o poema tão maravilhoso. A despeito de sua qualidade estética, o texto é, de fato, um marco para a contracultura, e tem, por isso, o seu valor.  É interessante perceber a riqueza e a pertinência na argumentação de defesa, uma vez que a poesia é um tipo de texto muito abrangente, que não pode ser reduzido a definições simplórias e estanques. Como canta Gilberto Gil, "na lata do poeta tudo-nada cabe".

acima, John Hamm (Mad Men), como o advogado de defesa do editor 
O filme não é algo de extremo primor, mas tem sua força. Como disse, o poema não é dos meus favoritos e algumas das ilustrações carecem de charme e originalidade e sofrem de neutralidade excessiva, destoante da atmosfera do filme e da história relatada, e das próprias ilustrações que Ginsberg costumava fazer chapado. Ainda assim, é uma empreitada ousada na descrição de uma época culturalmente rica, alternativa e muito interessante - a ante-sala de inúmeros movimentos, como o hippie e punk.


Uivo

para Carl Solomon

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro
de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial
com o dínamo estrelado da maquinaria da noite, 
(…)
que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais,
na grama de jardins públicos e cemitérios,
espalhando livremente seu sêmen para quem quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar
mas acabaram choramingando atrás de um tabique de banho turco
onde o anjo loiro e nu veio atravessá-los com sua espada,
(…) ”.

Ginsberg e McCartney:



Gil e a lata da "Metáfora":

4 comentários:

  1. Adoro filmes assim! Aliás... Adoro suas indicações!
    Já baixei "A vida em preto e branco". Não vi ainda! Mas pretendo.

    Beijos

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  2. Preciso ver este filme aline, adoro James Franco!

    Como vai vc minha amiga, saudades!

    Todos os meus beijos e amor,

    Kira

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  3. Ele era casado ou pai ou alguma coisa da Natalia Ginsburg?

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