segunda-feira, 18 de abril de 2011

Dica de cinema - Never let me go



Certa vez, um professor do curso de Letras disse numa aula que, uma vez versados em teorias a respeito da arte, perdíamos o direito de gostar ou desgostar de objetos artísticos. Na época, discordei, mas com o tempo fui percebendo o que ele estava querendo dizer.

Ocorre, muitas vezes, de eu tomar apreço por livros,  filmes e músicas com claros problemas de execução. Gosto por razões que fogem à análise racional. Eles me tocam e emocionam de algum  modo, ainda que eu seja capaz de enumerar um  número considerável de problemas.

Este fato, constantemente,  me  amarra na hora  de escrever  resenhas,  porque sei o que devo dizer enquanto  crítica,  ainda que eu nutra uma admiração secreta a  despeito das  falhas. E, para não passar a impressão de que achei o filme/banda/livro ruim ou  mediano, opto por não escrever a bodega.

É o caso de  Never let me go. Vi  um  teaser desse filme num blog gringo, há bastante tempo, e fiquei curiosa, devido à ambientação retrô e à presença da Carey Mulligan, cuja interpretação me impressionou em An Education.

O filme é ao mesmo tempo drama e ficção científica, e tem o roteiro baseado no romance de mesmo título,de Kazuo Ishiguro. Kathy H. (Mulligan) tem 28 anos e está prestes a encerrar sua carreira de cuidadora. Enquanto isso, ela relembra o tempo que passou em Hailsham, um internato inglês que dá grande ênfase às atividades artísticas aos hábitos saudáveis, e discorre sobre sua estreita amizade com Ruth (Keira Knightley) e Tommy (Andrew Garfield). No entanto, esse internato idílico reserva um implacável destino para seus estudantes. 

Apesar da narrativa em off que conduz o filme, um de seus maiores triunfos está em não explicar os absurdos, optando por não justificar a curiosa placidez e resiliência dos personagens diante de descobertas alarmantes. Neste sentido, Mulligan consegue imprimir exatidão surpreendente em sua atuação de uma moça reservada, triste, compreensiva e resignada, que compensa o seu calar com olhares que denunciam o amor de uma vida inteira. O trio de protagonistas comove pela inocência e pela complexa intimidade estabelecida. Sim, há um triângulo ;amoroso clichê, que me emocionou bastante,  confesso.

A fotografia e o figurino, com suas cores apagadas e sóbrias ressaltam bem a tristeza e falta de perspectiva subjacente à vida das personagens. Há uns closes em pássaros,  no mar,  no céu,  na  vastidão, que enfatizam a liberdade desejada e proibida, bem como em objetos inanimados, que, embora rendam belos takes, costumam ser vistos como lugares comuns da sétima arte. 

O longa busca problematizar a condição humana, embora não aprofunde a questão. E a tentativa de arrematá-lo com uma conclusão de Kathy em off é dispensável. No entanto, é um filme que toca por seus belos quadros, pela interpretação intensa, pelo jogo com  o trágico, com o inexorável. Ele comunica por suas imagens e, talvez por isso, deveria ter explorado mais o silêncio como causador de tensão. 

Apesar dessas falhas, o filme me emocionou e aumentou minha admiração pela Carey. É um filme que eu assistiria novamente, com certeza.








Esse filme realmente ressoou de um jeito misterioso na minha cabeça, e me lembrou essa música do Young Veins, que ouvi durante todo o dia seguinte.

10 comentários:

  1. Tenho muita vontade de ver esse filme pois li o livro há uns bons 3 ou 4 anos. Foi a minha irmã que o comprou, assim à toa, e quando ela acabou de ler disse-me que a história era bem estranha, mas que eu ia gostar. Sim, a história é estranha, fora do comum, mas a leitura é apaixonante. De todos os livros que li, nunca pensei que fosse virar filme. Estou super curiosa, principalmente depois de ler a tua resenha. Ah, by the way, adoro e invejo a maneira como escreves e como descreves livros, filmes e músicas :)

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  2. Também não gostei muito do filme. Não li o livro... Talvez seja melhor. Assisti também pelo ambiente retrô e porque gosto muito da Keira Knightley. Mas achei parado e sem fundamento.

    Beijos

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  3. Ah! Você gosta de livros com estórias filosóficas? Eu terminei semana passada "A Elegância do ouriço". Depois vou fazer uma resenha, mas o livro me tocou demais.

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  4. Fiquei absurdamente interessada.
    Vou anotar o nome na minha agenda o nome do filme e procurá-lo mais tarde! :)

    Bisous, querida!

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  5. Me deu vontade de ver!!!

    Uma ótima semana pra vc.
    Beijos.
    P.S: Estou adorando seguir seu blog.

    Hoje no blog - De olho na tendência: saias plissadas

    www.blogtokabrasil.blogspot.com
    Se quiser me seguir no Twitter: @tokabrasil

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  6. Acabo de assistir ao filme por conta da resenha que você fez no blog.
    Confesso que lí metade da resenha e para não estragar a trama, li somente agora o restante.

    Concordo quando diz que o silêncio deveria ser mais prezado no filme, o perde um pouco. Mas amei!

    Espero poder ter mais motivações através do seu blog =)
    Abs.
    Luiza magalhães

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  7. Oi Aline!
    Você me deixou com vontade de ver este filme. Ao ler sua crítica, vários filmes me vieram a cabeça: Um estranho no ninho, Canções de amor, Juno... cada um por um motivo especial.

    Acho que um filme é uma obra que foge dos padrões artísticos. Diferente das demais, o cinema, de certa forma, possui algumas regras, e quando a fuga delas não resulta em um grande resultado, muitas vezes ele é criticado. Conclusão: não só quem faz um filme precisa entender muito do mundo cinematográfico (leia-se artístico no geral); quem vai julgá-lo também.

    Beijos querida!

    PS: Sua playlist superou!!

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. So... Depois de muito tempo, consegui finalmente assisti-lo no cinema hoje. Eu gostei demais do filme e principalmente por não saber explicar exatamente o porquê desse gostar. Talvez não exista realmente um porquê (mas eu o procuro sempre). Fiquei comovida em vários momentos e acho que ainda passarei dias digerindo algumas coisas...

    A música que vc escolheu coube direitinho tb.

    Beijo pra vc, querida.

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  10. Não conferi ainda o filme mas li o livro e gostei. Na verdade, a estória é esquisita (com seu lado sci-fi) mas ao mesmmo tempo envolvente.

    No livro a gente acaba se apagando aos personagens em maior ou menor grau, e torcendo pra que tudo dê certo apesar de toda a "estranheza" da estória.

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