terça-feira, 16 de agosto de 2011

Dica de leitura - "Amor líquido"



Hoje, é indiscutível a importância e a onipresença dos meios virtuais em nosso cotidiano. Com grande parte dos sistemas e serviços digitalizados e disponíveis online, compras e operações podem ser feitas no conforto do lar, relacionamentos são travados em a partir de blogs e redes sociais. Com as transformações que remodelam o cotidiano pós-moderno, surgem também novas atitudes e reações individuais.

É sobre isso que o sociólogo polonês Zigmunt Bauman trata, no livro Amor líquido - sobre a fragilidade dos laços humanos. Se, para o mercado financeiro, a maior liquidez garante segurança na hora de honrar dívidas e acordos, nas relações humanas, ela se caracteriza pela fragilidade.  Num mundo de consumidores inveterados, onde produtos defeituosos e ultrapassados podem ser rapidamente substituídos por outros mais atuais e avançados, os indivíduos têm preferido se "amarrar" cada vez menos a seus pares. Nesse cenário, alteridades e discordâncias são um preço muito alto a se pagar quando se arrisca um compromisso sólido.

Segundo Bauman, o medo de assumir esses compromissos leva os indivíduos a optar por relacionamentos facilmente solúveis, e a rotatividade torna-se palavra de ordem. As ligações abertas e virtuais prometem maior "segurança" emocional, uma vez que não expõem as partes aos riscos da intimidade e do envolvimento. Num relacionamento aberto, não há satisfações a prestar quando se quer "dar o fora". Para dispensar um amigo virtual, basta não mais responder seus emails.

A fragilidade também toma seu lugar nas relações familiares, com cada membro isolado em seu quarto, cada qual conectado em um computador diferente. Se o celular nos permite estar acessíveis a toda hora e em qualquer lugar, a contiguidade geográfica não assegura um relacionamento mais consistente. Estamos fisicamente juntos, espiritualmente separados.

Com um texto claro e compreensível para quem não é da área, o sociólogo busca demonstrar como  a líquida racionalidade moderna valoriza laços cada vez mais frouxos, num contexto onde a satisfação individual é tão soberana que não tolera qualquer tipo de dificuldade ou prejuízo; onde a glamourização do sexo e a coisificação do homem aumentam o leque de consumo e satisfação, promovendo gradativamente a negação da dignidade do próximo.

Embora o objetivo do autor não seja apontar soluções para os fenômenos diagnosticados, pode-se encarar o ensaio com um alerta: não apenas as relações amorosas e os vínculos familiares são afetados, mas também a nossa capacidade de tratar um estranho com humanidade é prejudicada. Como exemplo, o autor examina a crise na atual política imigratória de diversos países da União Européia e a forma como a sociedade tende a creditar seus medos, sempre crescentes, a estrangeiros e refugiados. Demonstrando uma percepção fina e apurada, e dividindo os capítulos em pequenas seções não exasperantes, Bauman busca esclarecer, registrar e apreender, sem esgotar o tema ou encerrar a discussão, de que forma o homem sem vínculos — figura central dos tempos modernos — se conecta.

5 comentários:

  1. Hmmm, parece bastante interessante, apesar de não ser meu tipo de leitura favorito, hehe!
    :)

    Ah Aline, eu só uso cabelo curto por causa da progressiva, se meu cabelo fosse como é realmente, não ia dar certo. Hehehehe!

    Beijos!
    ;*

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  2. Oi Aline,

    Tudo bem?
    Vim até aqui agradecer sua visita, e acabei me encantando! Adorei seu blog, menina!
    Também cheguei pra ficar, viu ;)

    Engraçado... eu li o Bauman no mestrado e odiei! Mas o seu texto fez ele ficar tão digerível [e até interessante!], que acho até que vou dar outra chance... =)

    Um beijo procê!

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  3. Line, acabei de ler uma entrevista do Bauman sobre o que está acontecendo no Reino Unido. Ele coloca as reações violentas que estão tendo por lá, como uma reação da classe média contra o consumismo exacerbado da classe mais rica. É um ponto de vista interessante e faz um contraponto com outros países da Europa, como a França por exemplo, onde esse tipo de agressão acontece num contexto mais político e educacional. Depois eu coloco o link aqui.
    Eu já li o Modernidade Líquida e achei uma leitura muito legal, apesar de ser um pouco superficial em alguns momentos (prefiro alguns textos da psicanálise sobre o mal estar do sujeito na contemporaneidade). Vou tentar ler esse sobre o Amor, vai ser muito importante na pesquisa que vou fazer esse ano. Eu penso na Internet como uma arma nuclear... Dependendo da mente que esteja atrás do teclados, tanto pode ser feito um benefício universal como uma catástrofe sem explicação lógica.
    Beijos
    Tati

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  4. Já li alguns livros dele e gosto especialmente de "Globalização e as consequencias humanas". Mas, ó, aqui tem uma entrevista "fresquinha" dele em vídeo http://vimeo.com/27702137

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