segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Feminina ou Esteta?

Sempre tive implicância com rótulos e determinações arbitrárias. Nunca me pareceu realista uma perspectiva que reduzisse o comportamento das pessoas a categorias estanques, fosse ela erigida por reacionários ou pelos mais radicais opositores do status quo.

Nunca comprei o peixe de que menina tem de ser rosa e menino azul, tampouco a balela consagrada de que homem é racional, forte, objetivo, enquanto mulheres são frágeis, emocionais e confusas. BULLSHIT!!! E não, eu não li "O segundo sexo", embora tenha muita vontade e já tenha inclusive procurado. Não sou iniciada em estudos feministas, embora as ideias e artigos que li por aí me pareçam simpáticos.

No entanto, acho que não precisamos de Beauvoir pra sacar que o fato de eu não gostar de usar salto e de não ter usado o mínimo de maquiagem até uns dois anos atrás não me torna menos mulher ou menos hétero. Uma coisa não tem absolutamente nada a ver com outra: gênero, sexualidade e estilo são campos independentes.

Daí que semana passada fui assistir a uma palestra que pregou uma peça nos ouvintes, porque tinha como título algo como "Presença feminina no rock", mas acabou sendo um elogio ao feminismo, com quase nenhuma discussão sobre rock.

Papo vem, papo vai, a palestrante começa a discursar sobre o ato de nos travestirmos, cita o cartunista Laerte, que atualmente se veste com roupas de mulher, e sugere que cosméticos, cirurgia plástica e salão de beleza seriam artifícios a favor do patriarcado, já que tinham por objetivo embelezar a mulher para seus machos.

PERAÍ!!! Na hora me baixou o caboclo Travis: "Tá falando comigo?" 



Vesti a carapuça, mermão! Quer dizer que pra eu ser uma mulher autônoma, que prescinde da aprovação de seu macho, eu tenho que andar embarangada? É isso? Não posso me arrumar porque me amo? Porque sou esteta? Porque adoro cores? Porque adoro ver meu cabelo brilhando e minhas bochechas coradas de blush, em vez da palidez típica de quem passa oito horas em escritório?

Acho que não é por aí, sabe? Eu sempre gostei de usar coisas diferentes, desde pequena exigia escolher minhas roupas e sapatos. Já fui hippie, punk, rajneesh só pelo prazer de experimentar diferentes estilos e aprender com as diferentes culturas a eles relacionadas. Adoro mudar e conhecer novas cores! Amo um penduricalho! E querem saber? Odeio ser importunada por cantadas na rua! Acho de uma grosseria sem par! Estou pouco me lixando para a aprovação de quem quer que seja - homem ou mulher. E, felizmente, meu marido respeita meu estilo. Ele adoraria  que eu só usasse jeans e camiseta, mas sabe que adoro vestidos! Ele adora quando eu não uso nenhuma maquiagem, mas não fala nada porque sabe que EU gosto. E ele me respeita! Não me visto em função dele ou de qualquer homem, e não me arrumo por temor de ser considerada pouco "feminina".

Sempre defenderei o empoderamento das mulheres, a igualdade de direitos e oportunidades entre os gêneros, a pluralidade de estilos, a liberdade de expressão. Mas por que diabos não posso fazer tudo isso de batom?

Sem querer encerrar o assunto, porque acredito sinceramente em diálogo e posso mudar tranquilamente de posição se vocês bem argumentarem, convido-os (leitores e leitoras) a opinarem e me ajudarem a compreender essa questão.

Larguem o verbo!

25 comentários:

  1. Alinée, falou tudo.
    Se mulher fosse se vestir só para homem, e digo para a maioria dos homens, só usaria roupas sensuais. Meu marido sempre gostou do meu estilo e isso ajuda a torná-lo o cara certo para mim, apesar de que também prefere um jeans com camiseta.
    Nunca me vesti para os outros, isso desde muito nova. Sempre encaro com um gosto especial os olhares tortos no trabalho para a minha meia-calça branca ou para a camiseta de metal. Confesso que me dá prazer ver a cara de espanto de algumas pessoas.
    Quem disse que preciso me vestir igual todo mundo, né?!
    bjks!!!

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  2. Olha, eu também não sou iniciada em estudos feministas, mas sempre tive a ideia de que o objetivo do feminismo é o de dar liberdade para a mulher ser quem ela deseja ser, independente da aprovação de outras pessoas. Dito isso,e de acordo com seu relato, me parece que essa palestrante estava tentando, no final das contas, insinuar um comportamento como o "aceitável". Ou seja, na minha opinião, exatamente o contrário do que o feminismo prega (gente, repito, o que EU entendo de feminismo). É complicado porque acho que, independente do que se acredita, há ainda muita intolerância e muita gente acredita que há o certo ou o errado. Enfim, achei interessante seu post. Queria ter ido nessa palestra (foi no CCBB, né?), mas já que quase não discutiram rock fico menos arrependida de não ter ido.

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  3. Foi essa mesma. Tentarei ir na próxima pra ver se tiro a má impressão.

    Beijinhos, Lala!

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  4. Hum, sei bem o que é isso... Vivo refletindo sobre... Acho que a gente sempre busca, nessa sociedade, ao menos, enquadrar as pessoas, rotular mesmo... Então, quem nao é daqui, tem que ser 'dali'... Eu, particularmente, sou supermulherzinha em uns quesitos, já noutrossss, até mais absissais, sou bem 'macho'...rsrs.. Hormônios, formação? Sei lá.. mas, sou definitivamente inqualificável...rs.. Mas, mulher, sim! rs
    Bjs!

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  5. Ainda tem gente com esse tipo de mentalidade dando palestras,hein?Pensei que eram tipos de "dinossauros intelectuais"exterminados nos anos 80...mas!

    bjs,Aline AImée!òtima semanaaaa!

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  6. Ah, vc não citou De Falla no seu texto, é? Citou! Menina, eu te amo! Você é Renata com 10 anos a menos!
    Hippie-punk-rajneesh embalou várias horas de estudos durante o cinetífico (pq na época nao tinha esse troço de ensino médio).
    Adorei o texto. E a palestra foi mesmo chata. O que salvou foi aquela beeeba falando de Chico Buarque. kkkkkkkkkkkk O cara tem que repensar a tese de mestrado dele!
    Ah, e se Tiburi é contra silicone, que se foda. Eu adoro meu peitão siliconado. kkkkkkkkkkkkkkkk
    Agora, só pq trabalhamos muito e somos inteligentes não podemos botar silicone que já somos chamadas de fúteis? Ah, não f***! rs

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  7. Não posso discordar, porque penso como você.
    Excelente texto!
    Beijo!
    http://tengavolantes.blogspot.com

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  8. Adorei o texto Aline, vc arrasa nesse blog.
    Tô fazendo um sorteio, vai lá no blog participar!!!
    Bjos
    Ana Paula
    http://www.romanticaacessorios.com/

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  9. Concordo com cada frase dita nesse texto.
    Me fez lembrar de uma professora que tive na faculdade. Ela pregava que desleixo e capacidade intelectual são inversamente proporcionais. Embora se destacasse profissionalmente e demonstrasse uma inteligência acima da média, era contraditória ao defender esse tipo de coisa.
    A gente faz tanta coisa durante um dia, vive numa correria danada, seria injusto não dedicar alguns minutos a nós mesmas. NÓS MESMAS eu disse! rs
    bJu

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  10. Amor próprio é vida!
    Adorei seu texto, Aline! E como a Mel disse, tb adoro quando me olham com cara de "quem é essa ET do século passado?".
    A moda me irrita... E isso tem piorado bastante! Nunca vi tanta gente se vestindo e se comportando da mesma forma... Uma demanda doentia de aceitação. Lamentável...
    Beijocas,
    Claudia

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  11. Assino embaixo !!
    Claro que todo excesso é perigoso, e viver em função do "desembarangamento" também não dá!
    Defendo sim nossos batons, vestidos, blushes, porque tudo isso é uma expressão do que a gente é, a maneira como combinamos tudo isso, como driblamos a obrigação de ser linda-sensual-igualzinha à todas as outras outras, é o que nos define. Outro dia um amigo meu disse que maquiagem serve só pra disfarçar, e eu mandei um "Peraí meu nêgo!", maquiagem pode até disfarçar algumas coisas, mas é a minha maneira de brincar com as cores e formas que não existem naturalmente e que posso inventar do jeito que eu quiser.

    Adorei o texto !
    Beijissímos
    Anna

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  12. Ai Line, me sinto tão bem vindo aqui e lendo seus textos!! Acho que se eu fosse comentar tudo ia escrever um texto igual ao seu, mas concordo quando você fala na questão dos rótulos, como se a premissa de você pertencer a algum grupo é o seu encaixe em determinados parâmetros. Assim como você já fui punk, gótica e hippie e hoje sou uma mistura disso tudo com um pouco de feminilidade. Acho muito triste essa coisa de porque você está em um determinado meio, você não pode apreciar outro (sim, porque na minha adolescência eu tinha que esconder da galera do rock que eu amava Cartola e Noel Rosa, porque isso era inaceitável). Não digo que sempre gostei do diferente, porque pode parecer pedante, mas nunca me privei de experimentar coisas novas e me dar ao direito de gostar ou não.
    O meio intelectual é particularmente cruel com isso. Parece que você tem que escolher entre ser uma baranga, com os cabelos bagunçados e sem maquiagem nenhuma (uma verruga tb se puder, ajuda) inteligente ou ser uma fútil bonitinha, arrumadinha, mas bobinha. É muito triste ver pessoas tão lidas e tão "cultas" se reduzirem a estigmas tão pequenos.
    To com a Mel: tb adoro sair na rua e todo mundo olhar para mim com aquela cara de descrença, porque é sinal que eu to arrasando hehehe
    Agora, também acho que da mesma forma que é uma opção andar arrumada, é uma opção andar sem estar arrumada. Talvez o que essa filósofa colocou em palavras erradas é que não devemos nos render a escravidão da beleza (como a gente sabe que acontece com muitas - a maioria - por aí), quando essa escravidão não tem sentido ou quando é só para aparentar uma imagem que não existe. Defendo até a morte meu direito de andar de salto alto e me maquiar, assim como defendo o meu direito de andar de havaiana e com o cabelo sem pentear se assim eu quiser. São os rótulos que geram preconceitos e as coisas mais cruéis que aconteceram na humanidade, começaram assim...
    Beijosssssssssss, tava até com sono e acordei depois do seu texto. Como é bom saber que existem Alines por aí espalhadas no mundo, não me sinto só =)
    Tati

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  13. Anna e Tati disseram tudo!
    Queremos o direito de andar arrumadas ou não, unicamente por que estamos a fim!

    Obrigada por participarem, dolls!

    Beijo em todas!

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  14. Acho uma besteira sem tamanho achar que se mostrar mais bonita, mais agradável de ser é coisa frívola, de quem não tem nada na cabeça. Os filósofos antigos (que o povo "cult" adooooora recitar) pregavam o culto à cabeça em paralelo ao corpo e meu bisavô que viveu no século XIX, dizia: "quem não se enfeita por si, se enjeita". Por que será que as mentes do passado, simples inclusive conseguiam entender que se arrumar é um ato saudável, para se sentir bem e não um ato doentio de quem busca desesperadamente aprovação. Aliás pessoas desiquilibradas emocionalmente tendem muitas vezes a vestir qualquer coisa, não se maquiar e até mesmo não tomar banho...
    E gente frívola é quem estabelece como verdade absoluta apenas um angulo da realidade

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  15. Aff! To escrevendo mal pra caramba!
    Queria dizer "mais agradável de se ver" e o certo é "desequilibrado", eu sou arrumadinha mas tenho massa cinzenta. Meio podrinha mas ainda tenho

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  16. Ahhhh disse tudo Aline!!!
    Essa palestra passou aqui por SP tb, e eu realmente me interessei muito em ir, mulheres e rock combinam como rosa e marrom pra mim (ou seja totalmente)... mas acabei não indo e vendo agora do que me livrei!

    Beijocas!

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  17. Cresci numa família de 4 irmãos homens e só eu de menina... até os 16 anos soltava pipa e com 20 conheci a elegância do salto alto desculpa, mas cito aqui Chico Buarque "As pessoas tem medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem"... faço das dele minhas palavras...
    Nunca passei um batom pra agradar ninguém nem muito menos deixei de fazer coisas ditas de "meninos", por medo de não parecer feminina... nesse mundo de pluralismo ñ tem como ser isso ou aquilo a gente tem q ser simplesmente o q quer sem medo dos rótulos...

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  18. Como admiro a filósofa em questão, espero que ela tenha empregado mal as palavras.
    A questão é de grande profundidade e tem que ser analisada friamente. Quando, como e porquê surgiu o culto pelo belo? O comportamento de homens e mulheres pode ser explicado pela bagagem contida em nosso inconsciente individual e coletivo? De onde vem a histeria pela beleza de muitas mulheres? Onde o homem entra nessa histeria?
    Tem muito pano pra manga aí...rs
    Confesso que minha tolerância para determinados comportamentos femininos é baixa porque não paro para refletir que o buraco está muito mais embaixo...
    Bjs, Aline.
    Alê (R)

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  19. Oi, Ale!

    Então, a palestra foi muito desorganizada e se a palestrante tivesse, pelo menos, mencionado da forma mais en passant a questão do inconsciente coletivo, eu teria relevado a inconclusão da falação, porque saberia que ela estaria se referindo a uma questão específica.
    Mas ela foi um pouco leviana e descuidada e jogou um monte de coisa no mesmo caldeirão, sem desenvolver minimamente nada.
    Ela meio que queimou o filme das feministas sérias, achei.

    Beijinhos!!!

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  20. Acho interessante ressaltar que a vaidade é benéfica quando não se torna obsessiva. Quando não se sobrepõe a outras questões sociais e culturais.
    As revistas femininas, as novelas, as propagandas são grandes propagadoras dessa concepção de corpo photoshopado, perfeito, imaculado para ser cultuado.
    Obviamente, não é isso que estou defendendo. Por isso tento mostrar blogueiras com medidas reais no "look das gringas", e sou super a favor da revisão do padrão de medidas para algo mais próximo à realidade.

    Tô gostando das questões levantadas. Vamos pensar juntas!

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  21. O que me incomoda nestas discussões são os rótulos, detesto a ideia de que as feministas precisam ser feias e queimar soutians... Enquanto que toda mulher que se cuida, curte comprar e escolher roupas, adora maquiagem, é fútil e mulherzinha... Acho lamentável quem sustenta este tipo de opinião. É por isso que não fico repetindo pelos quatro cantos meu feminismo, porque num mundo de oito ou oitenta, vão querer censurar meu batom ou justificar meu look desordenado do dia... Eu nunca me arrumei para um homem nem para qualquer outra pessoa, e neste ponto não estou falando de feminismo apenas... Estou falando de egoísmo mesmo. Eu me visto pra mim. Pra me sentir confortável, bonita, feliz, aquecida, leve, protegida... Nunca para os outros, nunca!!!!!

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  22. Um adendo, básico, já vivi uma fase mais desleixada e era mais respeitada pelos homens do trabalho... Achavam que eu era inteligente porque não usava batom e não falava de moda.... Hoje, intelectualmente madura, sou julgada por causa do blog e afins...

    Li Simone e posso garantir que na época dela e na nossa não é só uma questão de gênero apenas, tem gentinha obtusa demais nesse mundão de meudeus...


    Esqueça as feministas e leia a Simone. Leia pela literatura maravilhosa que ela é!!!!!

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  23. Essa discussão é o meu pão nosso de cada dia! Trabalho com questões de género, sou formadora nessa área e feliz ou infelizmente formo basicamente homens, professores do ensino profissional. Estás a imaginar o tipo? Já ouvi tanta bosta, tanta ideia errada, tanto preconceito que agora já estou profissional nas respostas! Um dia te conto o que eu oiço nas formaçoes! Aqui a questão de género, igualdade e empoderamento da mulher ainda é, infelizmente, uma grande luta, mas temos excelentes organizações feministas que trabalham nesse sentido!

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