domingo, 18 de setembro de 2011

Desafio de livros - Livro de não ficção favorito

Fora do âmbito literário, gosto muito de ler textos filosóficos, sociológicos e, às vezes, psicanalíticos. Um autor que me agrada muito, não somente pelas ideias, pela coragem e pela ruptura, mas também pela beleza do texto é o Nietzsche.

O primeiro que li dele e que casava demais com as minhas reflexões na época foi O Anticristo. Não se arrepiem, por favor, porque o livro não faz apologia ao mal, a Lúcifer ou whatever, tampouco critica Cristo. Ele questiona sim o que foi feito do cristianismo e como este se apoiaria no enfraquecimento das potencialidades humanas. O filósofo chega a afirmar que o cristianismo nega Cristo. Não é uma leitura pra adotar como "manual da vida", nem dá para concordar com tudo, mas é interessante na medida em que descortina muitos dogmas e nos obriga a pensar.

Mas não é esse que vou indicar aqui. Um livro um pouco mais leve, menos polêmico, talvez, mas de um esclarecimento e beleza tamanhos é Sobre a verdade e a mentira em sentido extramoral. Nesse ensaio, Nietzsche analisa os limites da verdade, ao ser traduzida por uma linguagem que se pretende neutra e isenta de qualquer recurso retórico. Para o filósofo, a ciência, que postula a revelação da verdade, deixa-se enganar, ao supor um racionalismo ou a descrição como uma revelação. "Pois fosse esse o caso, teria de tornar patente, em algum lugar, a aparência ou o irreal". Por trás dos conceitos, conclui o autor, há sempre um edifício de metáforas que atinge diretamente nossos sentidos, e é um perigo ignorá-las. "A humanidade possui, no conhecimento, um belo meio para o declínio", conclui.


Apesar de identificar no sistema de códigos um instrumento de abreviação da realidade, Nietzsche não deprecia a linguagem em si, mas sim a paralisia que a noção de verdade sobre ela provoca diante da pluralidade do mundo. Não há desvalorização, já que para o filósofo, as ficções são imprescindíveis para a conservação e manutenção da espécie. Além disso, segundo ele, quando a necessidade de comunicação e linguagem se fez presente entre os homens, surgiu dela “um excedente dessa arte e dessa força, uma espécie de tesouro que o tempo empilhou e que espera um herdeiro que o desperdice (...)”; para ele, o artista é esse herdeiro. Desta forma, a critica nietzschiana volta-se contra o esquecimento do processo de invenção das palavras, isto é, contra o abandono do caráter ficcional da linguagem em nome de uma crença em seu poder de representação da realidade, conseqüentemente, em seu poder de produzir discursos verdadeiros sobre a mesma.

O interessante é que Nietzsche faz uso das mesmas metáforas a que se refere para construir sua reflexão, criando uma espécie de ensaio poético que demonstra sua própria tese.

Um lindo e pertinente texto, escrito aos 29 anos, que antecipava a sua verdadeira obra de gênio.

Um comentário:

  1. Minha nossa!
    Absolutamente encantada com o blog! Ainda mais lendo a respeito de Nietzsche!!!

    Parabéns pela pertinência do seu blog. Virei fã e voltarei sempre aqui!
    Um beijo,
    Déia

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