quarta-feira, 9 de novembro de 2011

As folhas, ou Do impulso para recomeçar


As folhas estavam lá, como ela desejava e suspeitava. Pousadas na plenitude de um descanso sereno. Folhas imunes à violência e às tragédias pessoais. Folhas cúmplices no contrato da harmonia silente. No interior de cada uma delas, o eco sussurrado do mistério da espera. Elas a esperavam. Estavam preparadas para acolher o peso corporal dessa mulher quente, úmida e aturdida. Ela as procurou, rezando para que estivessem lá, compondo solícitas o pálio de seu renascimento. Ela encontrou as folhas. Chegou arfante, numa correria desequilibrada e quase que se joga. Com o consentimento do destino, que só isso a ela permitira, caminhou cuidadosa por sobre as folhas, iniciando com os pés a melodia ritual da entrega. Sentou-se, deitou. Entregou os ouvidos aos cuidados das folhas, e os olhos molhados ao convite dos galhos acima  que, sábios, ofereciam-lhe as alternativas do tempo nos contornos de sua estrutura. Ali, ela poderia crescer, florescer.

Não aceitava cair ou se resignar, como suas companheiras - as folhas.

8 comentários:

  1. Isso mesmo, nada de resignar-se. Por mais que machuque ainda prefiro sentir a dor de sentir!
    Texto lindo, amiga.
    Bjokas

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  2. Estamos conectadas Line. Também fiz umas viagens clariceanas de terceiro grau hoje à tarde. As folhas e seu aspecto dúbio. Em psicologia existe um teste de personalidade que consiste justamente em desenhar uma árvore. Quando eu fiz as minhas folhas estavam caídas no chão...
    Beijosss
    Tati
    Ahhh e que fique claro, a sua oncinha é super punk e eu amo!! Adoro animal print usada dessa forma, aliás de qualquer forma que fuja do convencional. Amei seu comentário ;)

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  3. Lembrei do "If a leaf falls" poema do EE Cumings que minha mãe sempre me mostrava.
    Adoro suas viagens clariceanas !
    bjo

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