quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Viagens paralelas



Ser uma suburbana escondida na roça e que mora bem longe do trabalho tem lá suas vantagens. Somando-se ainda a minha patente inabilidade na direção, que me relega ao uso de transportes públicos, deparo-me com boas horas de ócio nas quais posso treinar mente e espírito.

Em viagens que oscilam de uma a três horas de duração, conforme o "temperamento" do trânsito, entrego-me à felicidade nada clandestina de devorar livro após livro. Deixo o charme clariceano de flertar com as leituras pelo adiamento de lado e me rendo à fome pollyanesca de aproveitar o que seriam torturantes horas de tráfego num exercício de turbinação das ideias.

Veja bem: que faria eu se morasse em local mais dignamente próximo ao trabalho? Acordaria mais tarde? Dormir é pra fracos! Passearia com o cachorro? Sou uma pessoa dos gatos! Assistiria à tv? (...) Iria à praia dar um mergulho? Só dá coliformes na água... A resposta menos jocosa e mais provável seria navegar na internet, o que já faço em tempo considerável morando na puta que pariu. Eu seria uma pessoa com muito menos leitura, ouso dizer, porque uma vez transpassada a soleira da porta de casa, surgem roupas a lavar, caixas de areia a limpar, pelos de gatos a varrer, louças, panelas e, principalmente, um irresistível e quentinho sofá com controle e notebook ao alcance da mão.

Fico pensando que os  mais sortudos que eu leem porque são muito disciplinados (e por isso mesmo foram capazes de arrumar um emprego perto de casa), ou são uns pobres torturados, desprovidos de trânsito, divididos entre aproveitar as inúmeras possibilidades do tempo livre e a consciência de que ler é preciso.

Digressões ilógicas à parte, o fato é que nessas viagens intermináveis de ônibus, com os mais peculiares coadjuvantes, vou construindo uma história interna, rica, feita de retalhos de leitura, inferências e reflexões. Uma história só minha, oculta sob a mesmidade dos dias de uma garota que acorda cedo, pega o ônibus de sempre, abre um livro e inicia uma viagem paralela que os demais passageiros e as pessoas lá fora não podem ler. Um Bildungsroman sem muitos altos e baixos, mas que me enternece, me suaviza, livrando-me de ser a vilã na história real dos outros.

Quem dera todo o mundo pudesse encarar uns bons quarenta minutos diários de tráfego com um livro nas mãos...

16 comentários:

  1. Quem me dera conseguir ler um livro dentro do ônibus sem sentir dor de cabeça! Eu até conseguia quando era mais nova mas agora me dá um enjoo absurdo.

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  2. Alinée, tenho até vergonha de dizer, mas de uns tempos para cá eu não posso ler por prazer! Sim, porque tenho tanto livro para ler por obrigação, que se abrir um que não seja de Direito fico com peso na consciência, o mesmo peso de quando estou na internet. Mas um dia desses isso acaba e eu vou estudar francês e voltar a ler muito.
    bjks!

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  3. Alineee
    Essa não sou eu pq eu não posso ler em ônibus.
    Perco, isso mesmo, PERCO o tempo interminável que passo dentro dos ônibus indo e vindo diariamente...
    Sinto náuseas e quase morro quanto tento :/
    Hoje mesmo, o trânsito estava inspirado e fiquei em torno de 3h30min sentadinha, esperando...
    Amei o testo!
    bJu
    ;)

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  4. Mas mtos tem tempo de transito mas preferem ouvir funk ou fofocar a viagem inteira pra me atrapalhar a leitura ou o sono. E! Eu enfrento tanto transito que dá pra fazer os dois...

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  5. Quando estava a estudar em Portugal, aproveitava cada passeio de autocarro para ler. Adorava o facto da minha casa ser longe da faculdade e demorar mais de 30 minutos a chegar lá, porque isso me permitia ler bastante, o que muitas vezes não conseguia fazer de noite, pelo cansaço de um dia inteiro de aulas. Era só abrir o livro que as pessoas e tudo à minha volta desaparecia. Esse momento é mágico! Só tinha que ter cuidado em não passar a minha paragem, hahaha!

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  6. Que delícia de texto, inspirador e instiga a aproveitar melhor aqueles momentos que temos de vazio entre sair e chegar...rs
    Eu estava fazendo isso, mas certas vezes a cabeça não ajuda muito, nem o fato de ir em pé...rs
    Comecei com o vício dos podcasts salvos no player e devoro tantos assuntos que depois me obrigam por curiosidade pesquisar os temas, rende uma boa leitura também, exemplo disso foi o interesse por ler O guia do mochileiro das galáxias...rs

    Eu costumava escrever...mas já faz tanto tempo que nem conta...rs

    bjos

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  7. Oi Liii!

    Inveja branca de vc! Enfrento horas no trânsito tb, todo santo dia. E na maioria das vezes vou de carona pq é o Paulo quem dirige. Mas não consigo ler no carro, fico com tontura e muita dor de cabeça.
    Já tentei por diversas vezes e nada! Ai qdo chego na loja começa a correria e os meus bandos de livros vão ficando pra trás. Triste!

    bjinhusssss

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  8. seu texto é muito bom. Eu moro longe do meu trabalho, 80km, este na roça seropedicense. Mas vou de carro e não consigo ler em movimento, fico vesga e tonta. =D Mas gostei do seu texto. =)

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  9. Também adoro ler, e como você tb uso transporte público pela falta de habilidade de dirigir! Mas esse meu tempo não é gasto lendo (fico muito enjoada lendo em movimento), e me acostumei a trocar horas de sono por leitura. Acho que todo mundo deveria ler - quem sabe o mundo não seria melhor?!
    Beijo

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  10. Line, eu parei de andar de ônibus porque não estava conseguindo mais ler. Não porque fico tonta, esse nunca foi o problema, mas aqui as pessoas andam desafiando as leis da física e tem sempre mais que um corpo ocupando o mesmo lugar no espaço. Mas sério, mesmo já com carro eu preferia andar de ônibus. Não tem coisa mais libertadora do que ser livre dos sinais e da tensão do trânsito. Meu sonho é morar em um lugar com o transporte público perfeito e que eu more bem longe do meu local de trabalho, para eu me sentir assim que nem você!!
    Beijos
    Tati

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  11. Eu não tenho essa sorte. Ou vou de carro ou vou a pé, pois como vc pode ver, trabalho perto de casa. =/

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  12. Meninas, eu enjoava também. Anos de treinamento me preparam para isso, rsrs. Sério, tentava ler, lia só um pouquinho, até acostumar.

    Beijoca em todas!

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  13. Oi Aline, amei seu post.
    Morava longe do trabalho e andava de trem, sempre mantinha minhas leituras em dia, é bem melhor ler no trem do que no ônibus, antigamente também lia no ônibus, mas hoje também enjôo, mas ler no trem é super tranquilo. Hoje, tenho a felicidade de morar perto do trabalho, aqui tem uma biblioteca, que me tornei sócia, não tem os últimos lançamentos, porém aproveito para ler os clássicos. Outro dia me deparei com o "O Livreiro de Cabul", esquecido em uma estante, estou adorando, um assunto vai despertando para outro e novos nomes de livros surgem,como o desafio dos livros que você paticipou, fiquei com vontade de ler diversos. Amo ler! Um abraço!

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  14. Oi!!!
    Nunca comentei no seu blog, mas desse assunto eu entendo perfeitamente!!! Moro no Rio em Madureira, mas trabalho em Nova Iguaçu, mas não no centro de N.I. São no mínimo umas 4hs por dia, então numa semana leio no mínimo 3 livros. Detesto trabalhar longe de casa, mas como adoro ler (trabalho em biblioteca - sou bibliotecária), acho que invisto muito bem o meu tempo que "perco dentro dos ônibus"!!! Eu vivo recomendando livros para as pessoas... Quem sabe um dia darão valor para a leitura!!!

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  15. Como eu não tinha lido esse seu texto antes, como havia me escapado ?
    Vivo reclamando das minhas 3 horinhas de ônibus (somando ida e volta, manhã e tarde), mas também compartilho das tuas viagens paralelas - e já perdi vários pontos de parada por conta de um ou outro capítulo mais eletrizante! Também compartilho da inabilidade de direção, até tenho carta, mas não tenho grana pra carro.
    Obrigada por me lembrar que nem só de mau humor são feitas minhas idas e vindas, mas também de muita leitura, música e personagens impagáveis.

    Bjão!

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