sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Dica de leitura - O lobo da estepe



Fiquei bastante tempo caçando esse clássico de Hermann Hesse que alguns amigos haviam me indicado. Eu sempre esbarrava em referências sobre ele em biografias interessantes, como as da Clarice, e como os comentários a seu respeito abordavam a complexidade do ser, questionamentos existenciais, fui ficando mais e mais intrigada.

Eis que na minha viagem a Juiz de Fora encontrei-o e o trouxe, já louca para terminar minhas leituras em curso e me dedicar a ele.

O livro narra a história de Harry Haller, um misantropo de cinquenta anos que não consegue se ajustar à vida burguesa e capitalista, e que passa a maior parte do tempo bebendo e consumindo música e literatura erudita. Sua personalidade tem um aspecto intransigente e antissocial, que o impede de se adequar à sociedade, à massa, à média e à vulgarização burguesa da vida e dos valores, que ele descreve como "Lobo da estepe". Esse lobo está em constante embate com sua faceta mais civilizada. Certa noite, ele recebe de um propagandista ambulante um livreto chamado O tratado do Lobo da Estepe  - Só para loucos, onde Harry reconhece a descrição da própria história.  

O início do livro é bastante teórico e traz apontamentos psicológicos. Conforme a introdução de Ivo Barroso, Hesse contava cinquenta anos quando o escreveu e andava envolvido em estudos e tratamentos de psicanálise jungiana, que teriam influenciado sobremaneira a abordagem surrealista do romance. A obra traz ainda influências da filosofia oriental e teor autobiográfico. Crítico do militarismo alemão, do nacional-socialismo e da guerra, Hesse preocupava-se com as grandes questões sociais e políticas de seu tempo.

É na segunda parte que a ação ganha fôlego, pois Harry conhece a cortesã Hermínia e o músico Pablo, espécies de contra-partes que irão conduzi-lo ao esclarecimento e à libertação por que ele tanto anseia, através da experimentação de hábitos que ele julgava abomináveis.

A teoria mais interessante do livro é a da multiplicidade do ser, que em vez de uno ou dual (como Harry acreditava ser) seria multifacetado, com diferentes personalidades simultâneas, algumas mais desenvolvidas que outras. Os demais personagens, inclusive, seriam alegorias de outras facetas que Harry precisava libertar e cujo contato contribuiria para o seu autoconhecimento.

O livro parece querer nos alertar para o perigo de nos atermos a estereótipos engessados que não só turvariam nosso julgamento em relação aos outros, mas, principalmente, tolheriam nossas atitudes, impedindo-nos de experimentar a vida na plenitude de nossas potencialidades.

Abordando o sofrimento, a dúvida, a perda e a desagregação - elevados ao extremo que um ser humano pode suportar - O Lobo da Estepe revela-se um livro difícil de ser lido, não só pela complexidade teórica e pela rabugice do personagem, mas também pelo questionamento que nos convida a fazer sobre nós mesmos. Haller se redescobre, depara-se com novos mundos, novos amigos, outras atmosferas, desvenda dolorosamente o seu interior para, finalmente, ver-se integrado e redimido.

À semelhança do Fausto goethiano, Harry compreende que sua erudição e interesses elevados podem conviver com prazeres mais mundanos, numa postura mais engajada. Nesse sentido, O lobo da estepe não é um livro "só para loucos", mas decerto exige coragem ao propor que pensemos o mundo e a existência fora da nossa zona de conforto.

13 comentários:

  1. Aline

    não li, mas sei que é um clássico, adorei a sinopse, quem sabe ano que vem.

    bjs

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  2. Parece interessante, em especial pela trajetória que o personagem percorre. Amo as suas resenhas, amiga.
    Bjos

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  3. Nunca li "O Lobo da Estepe", Aline, mas li o "Sidarta", do Hesse também. Já leu? É maravilhoso, se você gostou desse, acho que vai gostar do "Sidarta" também. Ele aborda muitas questões semelhantes a essas do "Lobo da Estepe": busca por autoconhecimento, pela plenitude espiritual e existencial, a descoberta de que não somos nem tanto 8 nem 80... Enfim, muito bom, recomendo!
    Beijinho!
    Marcella

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  4. Amo suas resenhas, Aline.
    Dá vontade de ler imediatamente.
    E eu estou mesmo precisando de boas dicas de leitura.
    bJu
    ;)

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  5. Eu tb sempre acabo encontrando referência a esse livro em outras obras, mas nunca li. Adorei ver a resenha aqui, vou procurar!
    E ei, boa sorte na sua defesa de tese! Vai dar tudo certo e vai tirar 10 =D
    Beijos

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  6. Hahaha! Super desejei boa sorte pra sua inexistente banca de TCC, por conta do comentário de outra Alline (com dois Ls tb!) no blog. Ignore hehehehe

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  7. esse livro e perfeito, me fez pensar em quem sou
    já leu Demian, do Hermann Hesse?
    é tao bom quanto o lobo da estepe, particularmente o livro Demian me fez mergulhar em minha essência e me ajudou a criar e até a resolver alguns questionamentos de minha mente
    boa semana (:

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  8. Não li Demian nem Sidarta, mas vcs estão conseguindo me deixar curiosa!
    =)

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  9. Esse é simplesmente o livro da minha vida. Ganhei de um amigo com a alma do lobo da estepe e, infelizmente, me identifiquei também. Li há tempos, estou até com certo medo de o abrir mais uma vez e relembrar de tudo. Mas por aqui despertou a vontade de fazer isso, é perfeito. Obrigada!

    E farei do Demian meu próximo livro. =)

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  10. Li O Lobo da Estepe quando era bem novinha, preciso reler. Mas todos meus professores de psicanálise falam dele como um marcador de vida mesmo.
    Beijossss
    Tati

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  11. Maravilhoso este livro! Li quando tinha uns 18 ou 19 anos e amei.

    Uma leitura inesquecível.

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  12. Estou viciada no seu blog, cada vez me identifico mais com ele! E, virando as páginas do blog, me deparei com este post incrível sobre um livro que eu amo!! Me deu até vontade de reler. Adorei cada página deste livro, em especial a hora em que ele fala sobre o suicídio como uma opção, de modo que, somente pelo fato de existir, torna a vida um pouco mais leve.

    Beijos!!

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