quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

De belezas não muito admiráveis

Quasímodo

Alguns valores estéticos e conceitos de beleza largamente compartilhados assumem proporções tão discriminantes que acabam por revelar o que há de mais feio nas pessoas. Lembro que uma vez, nos idos de 1990 e tantos, escrevi uma carta enfurecida a uma revista adolescente por conta de uma matéria de um reducionismo desconcertante. No texto, a valorização da beleza era descrita como uma herança ancestral decorrente da preservação da espécie. Ou seja, pessoas belas dariam proles robustas. Por belas entenda-se um conjuntos de medidas proporcionais - delicadeza e viço para as mulheres, força e resistência para os homens. No entanto, o texto não buscava promover uma reflexão para além desse contexto, como se estivéssemos fadados a repetir esse condicionamento, independente de toda a transformação cultural da humanidade. 

A Bela e a Fera

Aquilo me pareceu de uma irresponsabilidade tremenda. Vejam bem: adolescentes estão sujeitos às mudanças mais variadas - acne, picos de crescimento, desenvolvimento desproporcional de membros - e a revista naturalizava a vantagem das pessoas de aparência perfeita, como se nosso discernimento tivesse estagnado na urgência da perpetuação da espécie.

É esse tipo de revista que nos instrui continuadamente  a respeito de procedimentos plásticos e cosméticos, pondo em nossas mãos a responsabilidade de ocultar o que temos de mais orgânico, de modo a nos tornarmos mais e mais pasteurizados. Parece-me curioso avaliar o próximo por seus atributos genéticos como se eles fossem produto de sua vontade ou mérito, pois não nos é dado escolher ou editar a cara com que viremos ao mundo. Excetuando as mazelas decorrentes da carência financeira ou de um descuido deliberado, nossa aparência original é resultado da história que uniu nossos progenitores e, bonita ou triste, esta história acaba nos definindo também no nível psíquico. Se vamos optar por aceitar essa herança, prolongando-a, ou se a refutaremos, empreendendo as transformações necessárias ao nosso bem estar geral, penso que esse posicionamento não deva ser influenciado por julgamentos externos ou padrões arbitrários, alheios aos nossos anseios mais relevantes.

Não estou condenando quem usa cosméticos (eu uso) ou faz intervenções cirúrgicas como plásticas e implantes. Também não critico quem pinta os cabelos, faz tatuagens, usa percings etc. O dilema é nos sentirmos assediados a recorrer a esses recursos para sermos aceitos por outrem.

"Les demoiselles Davignon" - Picasso

É interessante que, esteticamente, o feio e o exótico sempre me atraíram. Cheguei a ser alvo de piadinhas por conta de meus namorados desprovidos de beleza, e o grotesco artístico sempre me pareceu mais interessante que a harmonia e a perfeição clássicas. Nas artes, o imperfeito recebera há muito sua legitimação enquanto estilo, mas nas relações sociais ele ainda esbarra em muita resistência. Fato é que assim como variam nossos gostos e prioridades, diferem também nossas relações com o estético - da mais afetiva à mais superficial - mas elas podem ocultar inquietações mais profundas.

"O grande dragão vermelho e a mulher vestidos 
em Sun" - Willian Blake

Apesar de ser reconhecido nas áreas do saber como parte inerente da humanidade em inúmeros níveis, no âmbito social a "feiúra" física ainda é tida como traço de mácula moral, sintoma de nosso inaceitável desajuste. Para a sociedade do consumo, o apelo estético agrega valor aos objetos, e essa preocupação se estende aos relacionamentos. A beleza física é um cartão capaz de conferir ou negar acesso e oportunidades, e quem se recusa a melhorar sua aparência mais natural pode acabar descartado como um pária.  Nesse sentido, a intolerância do indivíduo frente à aparência destoante do outro revela sua indisposição em admitir as próprias vulnerabilidades e a recusa do feio assume as tonalidades mais turvas de uma maquiagem que quer esconder o medo de falhar.

24 comentários:

  1. Lindo texto,realmente nossos valores estão meio distorcidos.

    PS. Nunca comentei mas dessa vez não teve como adorei o texto.

    Juliana

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  2. E como se a aparencia preestabelecida fosse condição de Humanidade. Quem não é belo ou jovem ou descolado como manda as "cartilhas" nao merecesse nem viver

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  3. "O dilema é nos sentirmos assediados a recorrer a esses recursos para sermos aceitos por outrem." - está tudo dito! Essa é a sociedade em que, infelizmente, vivemos!!

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  4. Muito bom o seu texto, Aline. A gente termina por absorver os padrões impostos e acaba sendo intolerante com aquilo que é diferente. Eu cheguei a namorar um cara feio, aliás quando eu comecei a namorar o Léo ele não era tão bonito quanto é hoje, mas normal, eu tb não era lá essas coisas. rsrsrs.
    Por causa dessas minhas experiências, eu sempre procuro ver beleza aonde enxergam o contrário e procuro não me deixar levar por comentários maldosos, apesar de muitas vezes isso não ser possível.
    Bjokas

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  5. Isso é conversa de gente feia... nenhuma pessoa bonita fica justicando a sua beleza, pq os feios vivem fazendo isso? Vc vive se piorando com esses oculos ridiculos, esse cabelo sujo... Ruim não é ser feio, é se piorar...

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  6. Juliana, obrigada pela visita e pelo elogio.

    Anônimo, eu teria prazer em responder cada ponto da sua crítica se vc não tivesse sido grosseiro.

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  7. A gente cresce com certos conceitos do que é bonito e o que é feio, e ficamos presos a esse padrão. A gente ve nas revistas para adolescentes aquelas modelos lindas, magras, e sem nenhuma manchinha, espinha.... hoje eu sei que é tratamento de imagem, mas como eu, tantas outras meninas que consumiam essas revistas achavam que aquilo tudo era lindo e natural e que se não fosse daquele jeito era feio e ponto.
    Eu levei muito tempo para acordar para o fato de que não sou como aquelas meninas, não tenho o mesmo biotipo, a mesma pele, tamanho... eu sou uma mistura diferente e porque é que eu tenho que não gostar disso? Comecei a gostar de mim como sou e a usar aquilo que gosto e não me preocupar pra pessoas como esse Anônimo aí...

    Minha Bisa tinha um ditado muito bom...rs Quem ama o feio, bonito lhe parece." E eu via só um lado dessa frase, hoje vejo mais, e agradeço por minha mãe ter citado o suficiente para eu aprender e entender.

    Ótimo texto!

    Bjos

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  8. Aline, leio seu blog "diariamente" há mais de um ano, não costumo comentar pq não tenho gmail, nem blog e não gosto de comentar anonimamente, mas...isso que eu lí aí em cima é de uma total falta de respeito, isso dá até raiva...
    Vc sabe de todas as suas qualidades, e não preciso ficar aki enumerando-as, fora seu gosto peculiar e autêntico.
    Vc é uma bonequinha, inteligente e estilosa.

    Bjs pra vc e um ótimo 2012.

    ;)

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  9. Terceiro anônimo: obrigada pelos elogios!
    =)
    Fica difícil dialogar quando alguém decide nos atacar aberta e gratuitamente. Repare que o texto é uma defesa das nossas preferências e características numa oposição à ditadura da beleza.
    Sinceramente, não entendo porque o "feio estético" (não o moral) deva ser banido ou evitado. Eu gosto muito da minha aparência, a despeito do que os outros achem. Se não gostasse, não mostrava aqui no blog. É tudo questão de respeito, mas a reação da pessoa acima só confirma o que a Val falou:

    "Quem não é belo ou jovem ou descolado como manda as "cartilhas" nao merecesse nem viver"

    Beijinhos!

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  10. Oi Aline curti muito sua explanação sobre "beleza" e pelos comentários prova-se que as pessoas ainda e por muiiito tempo estarão contaminadas por esteriótipos criados pela mídia ou sei lá o que. A verdade para mim é que beleza é difícil de definir, claro que a Bárbie é linda mais pessoas assim não existem, existe uma doença que contamina principalmente as mulheres e fazem delas escravas da escova, tinturas, tratamentos até mesmo roupas num frenesi sem fim...isso é lamentável e deprimente...Bjus

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  11. O que me preocupa nisso tudo é essa tendência a, como vc bem disse - à pasteurização e a intolerância. Cada indivíduo deveria ter, na prática, o direito de ser o que quiser, o que mais lhe agradar. A vida é um presente curto e o mai importante é a coletânea das nossas experiências. o que vamos nos lembrar ou pensar no nosso último suspiro?????
    Por que as pessoas que têm a coragem de ser o que são sofrem tanta discriminação???
    Na minha humilde opinião: porque elas esfregam na cara dos conformados sua falta d coragem e aceitação pr´pria...

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  12. O pior é saber que desde a nossa adolescência, essas revistas não mudaram. Ainda pior é saber que as revistas para mulheres adultas virou uma versão dessas que vendem para adolescentes. O estranho também sempre me atraiu. Na arte e nas pessoas sempre achei o mais diferente interessante, mais intenso de ser visto, com mais detalhes, que demandassem mais nossa atenção. Quando a gente vê algo simetricamente perfeito, o cérebro já absorve na hora, você cansa rápido. Já o diferente é baseado no detalhe, todos os dias você descobre uma coisa nova.
    As pessoas que são muito apegadas aos padrões de beleza, para mim, em sua grande maioria, estão com preguiça de pensar. Resultado: para acalmar as exigências do ego, dizem que aquilo é bonito.
    Assim caminha a humanidade... Eu estou com você e prefiro admirar os pequenos detalhes das "coisas feias".
    Beijos
    Tati
    Ahhhh, ri muito aquiiiii porque meus namorados também sempre foram os mais estranhos hehehehe NUnca achava o menino que a escola toda achava bonito realmente bonito. Sempre me apaixonava pelo nerd de óculos e todo tímido.

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  13. O seu texto ,Aline,é ótimo e suas reflexões nem se fala!
    Bjs!



    Eu estou melhorando!Sim!

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  14. Quem faz um comentário como o do anônimo 2 é porque possui uma "feiura" pior que a física. Sim, não ter educação, não saber dialogar, não conseguir interpretar um texto - muito bem escrito por sinal - é DEPLORÁVEL...

    Querida, adoro seus textos, seus looks e seu jeitinho educado.
    (ahhh...e suas bijus....são tudo de bom...)

    bj.

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  15. Oi Aline!
    Já acompanho seu blog há um tempo mas nunca havia comentado.

    Adoro seus textos de reflexão. O assunto deste post me lembra um professor de filosofia que tive e que trabalha com o tema da feiúra. Se vc quiser pesquisar sobre o trabalho dele, o nome é Charles Feitosa.

    Um beijo,
    Camila

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  16. Olá
    teu texto, realmente nos faz refletir
    e adorei teu blog viu

    bjao

    --

    Ramona Tequila

    mundoramona.blogspot.com
    e
    dirtyramona.blogspot.com

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  17. Alinée, adorei seu texto. Pois bem, depois do comentário do tal anônimo ele ficou ainda mais importante.
    Que merda adianta ser bonito e ser podre por dentro?
    Amigo anônimo, posso citar Tia Rita: "Tudo vira bosta!".
    E quanto às artes, sempre gostei do bizarro.
    E quanto às pessoas, sempre gostei das interessantes (feias ou bonitas), ser interessante não depende disso.
    bjks!

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  18. "Da mesma maneira que existiu uma certa preocupação na arte de expor o belo e esconder o feio, existe também na vida cotidiana um certo preconceito com relação as pessoas que não se adequam ao padrão vigente atual do que é considerado belo. Posso dizer que na tradição a beleza sempre foi associada com poder, saúde, juventude, e a feiura sempre esteve associada com algo que é ruim, perigoso e as vezes até mal."
    Charles Feitosa. Estética do avesso: a questão da feiúra.

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  19. Aline amei seu texto, e adoro a Mel por isso ela é linda mas qdo precisa ela é tbm um PIT BULL, bem trasparente, e tem tdas qualidades de uma linda mulher...mas sabe apreciar o que há de belo nos seres humanos.
    Pobre coitado do anonimo, hoje você pode até estar em evidência se achando muito, só que o dia de amanhã ninguem conhece e qdo menos se espera nao que eu deseje isso para você, mas muitas coisas podem acontecer, tem uma frase que eu gosto muito que diz; TUDO O QUE VOCÊ PLANTA ACABA COLHENDO.

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  20. Aline,
    eu ia comentar do texto e o quanto você é sensível e doce.

    Mas ai teve esse anônimo ai que me deixou louca da vida. Como assim? Vem de graça atingir você, sem nem ter a coragem de dizer, sou fulana(o).

    Perdi toda a minha reflexão e quis socar a dita. Isso sim é feiúra. Crítica todo mundo aceita, mas ataque grosseiro e gratuito? Isso sim é deformidade.

    Amiga, desculpa, um texto tão lindo e eu fiquei puta. Mas vc não merece isso. E sou talifã da Aline sim!

    Bjs

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  21. Aline,
    comentei ontem mas rolou algum bug no envio e na hora fiquei com preguiça de escrever de novo, mas aí vai...
    Tinha dito que concordo e compartilho da ideia de que beleza é um conceito bastante relativo. Eu mesma sou um pouco avessa àquela beleza "quadrada", para usar um termo hipster, beleza mainstream... rsrs
    Gosto mesmo de traços diferentes e únicos, me rotulem de chata ou clichê, aceito de bom grado. Afinal, o que não é clichê nessa vida? Quanto ao lance da revista adolescente (porque nós comprávamos essas revistas? Graças a Deus tenho vinte e muitos anos, isso passou), o que me irrita é a publicação de uma ideia ERRADA. O que é passado para as gerações posteriores às nossas são caracteres de adaptabilidade, e não de beleza, o que são coisas bem diferentes! Esse vômito todo de mídia diária que recebemos, ainda com informações ERRADAS (enfatizo para deixar bem claro), é que faz a cabeça miúda das pessoas, como pudemos ver claro exemplo aqui nos comentários. Lamentável. Beijos

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  22. Aline

    o que eu acho pode ser clichê mas é que a beleza depende dos olhos de quem vê. E fodam-se as convenções e os esteriótipos. Quem é o "papa" para dizer o que é belo e o que não é?

    bjs

    perdoe o palavrão! =D

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  23. Nossa que texto lindo e profundo! Isso mesmo ;ABAIXO a ditadura da beleza! Vou divulgar todas precisam ler isso! bj

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