quarta-feira, 25 de abril de 2012

Dica de leitura: Orlando



Antes de mais nada, preciso dizer que minha relação com os textos de Virginia Woolf não é das mais fáceis. Integrante do Bloomsbury Group (espécie de Clube dos Cinco  inglês), a escritora buscava escrever explorando novas possibilidades narrativas, traçando projetos inovadores e sofisticados, imprimindo originalidade e até um certo estranhamento em suas obras.

Virginia nos obriga a ler com calma, atentos. Seu texto não é para ser lido em uma sentada, num só fôlego. Ler As ondas é tomar uma surra, um verdadeiro teste de resistência, e, não raro, o leitor se rende e abandona a leitura por cansaço. Não quer dizer que o texto de Woolf seja ruim, absolutamente. Mas, decerto, é um tanto difícil, exige dedicação e alguma experiência de leitura.

Amo os livros de Virginia por diferentes razões: pela autenticidade formal, pelo impressionismo narrativo, por sua ironia fina, pela agudeza na percepção do homem e do tempo. No entanto, se eu tiver de indicar uma obra prima da autora, do que li até agora, elejo Orlando - uma biografia. Esse romance - porque é um romance, ou uma biografia ficcional - reúne as qualidades que citei e mais um pouco. Ele narra a vida de Orlando, um nobre inglês nascido no século XVI que vive por três séculos e se transforma em mulher no processo.

Woolf era filha de um biógrafo e admirava o gênero, a ponto de apropriar-se dele através da paródia. O narrador (biógrafo) discute e justifica seu ofício o tempo inteiro, através do humor, da sátira e da ironia, e compõe a narrativa deslizando entre um tom mais solene e outro, mais coloquial e contemporâneo, com direito a repetições típicas de textos modernistas e pouco comuns em textos biográficos. É curioso que os principais dados de uma biografia - o nascimento e a morte - sequer sejam descritos.  E o fato de a vida de Orlando se estender por séculos dá ao narrador a oportunidade de tecer uma revisão histórica. Nada por acaso, é óbvio. Como se pode imaginar, as mulheres eram quase irrelevantes para os estudos históricos, tendo seu papel reduzido a meros figurantes na grande maioria das vezes. E é a metamorfose sexual da protagonista que permitirá transgredir ficcionalmente essa situação.

Diz-se que Orlando foi inspirado em Vita Sackville, a amiga com quem Virginia teve um relacionamento amoroso. A caracterização dos personagens e locações remonta à família Sackville-West e suas propriedades. Vita e Virginia, amigas e amantes, bissexuais, justificam o interesse da autora pela discussão da androginia. Em Um teto todo seu, alguns questionamentos desse tipo reaparecem., o que pode sugerir que Woolf quisesse indicar a condição andrógina como meio de escapar às limitações. O romance enfatiza as inquietações e ansiedades da mulher, e localiza o amadurecimento da personagem em sua persona feminina. Orlando é publicado em 11 de Outubro de 1928, data em que o romance chega ao fim. Coincidentemente, esse é também o ano do sufrágio universal, quando o parlamento inglês concede à mulher direitos políticos iguais aos do homem. Se nesse ponto o cunho da obra não chega a ser feminista (e aí me falta embasamento para afirmar algo do tipo), pelo menos desafia a oposição binária existente entre os sexos.

No tocante a reflexões artísticas, a literatura é tematizada no desejo de Orlando em se tornar escritor, ofício "menor", incompatível com sua nobreza - o que acaba sendo relativizado com a passagem do tempo. Orlando toma contato com mestres da literatura inglesa, percebe o eterno prestígio dos antigos face aos contemporâneos, e tem dificuldades em associar a grandeza das obras com a vulgaridade de seus autores e com a banalização da indústria cultural.

Outro aspecto de destaque no livro é a investigação psicológica, abordada na transformação da personagem ao longo do tempo. Seu amadurecimento e sua relação com as diferentes épocas são contrastados de maneira a demonstrar que a memória tende a corromper o que seria o tempo real em detrimento de uma percepção interna, mais imprecisa, lenta e subjetiva. Isso é notável numa passagem em que o badalar dos sinos perturba gravemente a personagem. A fragmentação brusca do tempo, no romance, parece querer apontar para a fragmentação interna do indivíduo (Ou não, posso ter viajado. A pessoa fuma crack e vai escrever resenha. BRINKS!)

Não sou estudiosa da obra de Virginia, tampouco de literatura inglesa, ao que concluo que muita coisa importante possa ter me escapado na leitura desse livro. Formado por reflexões de gênero, históricas, artísticas e psicológicas, Orlando é um romance completo, um verdadeiro clássico que põe em xeque dogmas de ordem literária e social. A autora soube captar e descrever o panorama de seu tempo, com suas crises e contradições, sem perder de vista a tradição cultural que o teria gerado.

Interessante e relevante ao extremo. Eu leria se fosse vocês!
;)


5 comentários:

  1. Obrigada pela dica. Estava tentando pensar em algo high brow pra ler (porque Deus, eu já li toda a lixeratura do universo esse ano, haha) e taí, VW é uma pedida. :)

    ResponderExcluir
  2. Orlando foi o primeiro livro que eu li da Virginia Woolf. Logo depois eu li "Mrs. Dalloway" e gostei mais. É um dos meus livros favoritos! Tem o filme de "orlando". E embora algumas adaptações deixem a desejar... Esta até ficou boa.
    Beijos

    ResponderExcluir
  3. Excelente sua descrição em relação aos textos da Virginia. Estou lendo Entre os Atos. Leio, paro, começo de novo. Nunca enrolei tanto na vida pra ler um livro.Isso não quer dizer que eu não gostei é porque realmente exige dedicação.

    ResponderExcluir
  4. Tentei ler Orlando uma vez. Não conversamos, parei.

    Mas já li tantos estudos acadêmicos sobre que, infelizmente, sinto como se já tivesse lido.

    Coisa pela qual você deve ter passado no seu curso de Letras, também. Essa era a parte ruim da nossa graduação. O azar de ler antes sobre, do que ler o original.

    Lembro de ter lido que Virgínia escreveu a obra quando estava no auge de seu ciúme pela Vita - que a havia trocado por outro. Assim, fez a obra e matou o personagem para atingi-la de alguma maneira.

    Então, Orlando morre mesmo?

    Beijos, sua linda =*

    ResponderExcluir
  5. Suas resenhas são foda Line, com o perdão do palavrão. Orlando é sem dúvida tudo isso que você falou, uma discussão, muito atual inclusive, sobre os gêneros e o que é ser homem e ser mulher de verdade! É uma questão biológica? Uma questão de papel social? Uma pessoa pode ser homem e ser mulher? Outro dia vi um filme bem legal chamado Elvis e Madonna. Um casal formado por um homem e por uma mulher, só que ele era drag queen e ela era lésbica... e os dois se apaixonam e ficam grávidos juntos. Serve para mostrar o quanto os papéis sociais podem ser ridiculamente inúteis e como estamos presos a estereótipos que mais nos confundem do que nos ajudam a viver. Orlando já falava sobre isso muito antes de eu nascer!!
    Isso sem falar a questão do tempo, como você muito bem colocou, que é incrivelmente tratada no livro. Me lembra muito uma frase do Drummond, quando estava já bem velhinho, dizendo que olhava para trás e parecia que a vida tinha passado em um minuto. Não importa se vamos viver 50, 100 ou 300 anos, um dia a gente vai olhar para trás e ter essa sensação.
    Beijosss, saudades!!!
    Tati

    ResponderExcluir