domingo, 23 de setembro de 2012

O homem com a câmera


O futuro da arte cinematográfica é a negação do seu presente. (Dziga Vertov)

Para vocês, o cinema é um espetáculo. Para mim é quase um meio de compreender o mundo. (Maiakovski)

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! (Álvaro de Campos)

Se hoje assistimos sem grandes estranhamentos às tomadas aceleradas e vertiginosas dos filmes de ação, o mesmo não pode ser dito sobre o público dos filmes da década de 20. O processo de adaptação do olhar humano às diferentes tecnologias é gradual e um tanto traumático. Quando a fotografia foi inventada, as pessoas mal se reconheciam nos retratos. Algumas não se deixavam fotografar temendo que a câmera lhes capturasse a alma. A apreensão da paisagem à época do surgimento do trem a vapor foi também uma dificuldade a ser superada. Não seria diferente com o cinema. É conhecida a história dos espectadores que correram assustados durante a exibição do filme "A chegada do trem à estação", dos irmãos Lumiére, porque o veículo avançava em direção à tela.

[spoilers a seguir]

Essa pequena introdução serve para que possamos compreender o quão vanguardista foi o cineasta russo Dziga Vertov com o filme O homem com a câmera, de 1929. Na introdução da película,Vertov explica que o que estava para ser exibido se tratava de uma experiência de filmagem que buscava independência dos formatos teatrais e literários, abdicando dos elementos tradicionais e simbólicos do cinema de então: personagens, falas, cenário ou enredo. A ideia era retratar 24 horas do dia de uma cidade russa (embora ele tenha demorado quatro anos filmando, em Moscou, Kiev e Odessa). Acompanhado somente de trilha sonora, o filme retrata cenas corriqueiras da cidade moderna: anônimos dormindo, trabalhando, divertindo-se, exercitando-se, casando, nascendo, morrendo. Multidões. Ônibus, trens, aviões, barcos, máquinas funcionando. Prédios, praias, avenidas. A vida acontecendo. O filme começa com um cinema vazio, o público entrando e ocupando os lugares para assistir a um filme - o filme que estamos assistindo.

Vertov propunha que o cinema era o veículo por excelência da modernidade, que toda contingência, todo movimento e rapidez da vida real poderiam ser mostrados com o máximo de realismo pelo cinematógrafo. Nesse sentido, o filme ganha certo ar político de elogio da industrialização moderna, além de beber  nas fontes dos primeiros movimentos modernistas da arte, como o construtivismo, o futurismo e o poema-fato de Maiakovski. Vertov era integrante do movimento "cinema-verdade", que se interessava pela retratação da vida real, de forma documental e sem simbolismos.

Se por todas as questões citadas, o filme já se coloca bem à frente de seu tempo, que dizer de toda a metalinguagem nele desenvolvida? Porque Vertov mostra o próprio cinegrafista perambulando pela cidade com a câmera, filmando; assim como os editores manuseando os celulóides, selecionando. Revela, deste modo, que a objetiva só mostra aquilo que a pessoa por trás da câmera mira, e que a escolha das cenas e sua ordem é que norteará a percepção do público. Não por acaso, o diretor brinca com "narrativa" traçando paralelismos entre olhos e janelas que se abrem, entre pianos e máquinas de escrever, cria montagens e sobreposições inusitadas, manipula a imagem com congelamentos, acelerações e retrocessos de exibição, tudo de modo a evidenciar seu ofício, sua intervenção no que é mostrado. É a realidade do que é filmado confrontada com a realidade do que é mostrado que compõe a realidade absoluta que o "cinema-verdade pretendia"? Ou Vertov queria nos dizer que a realidade não se deixa apreender e tudo é representação? 

O homem com a câmera dividiu as opiniões à época de seu lançamento e houve quem o detestasse ou não o compreendesse, como o crítico do New York Times, Mordaunt Hall, que afirmou que "O produtor, Dziga Vertov, não leva em consideração que o olho humano se fixa por um determinado espaço de tempo a fim de manter a atenção." Recentemente, a película figurou entre os dez primeiros na lista de melhores filmes da Sight and Sound, e é inegável que ele tenha inaugurado uma série de técnicas cinematográficas, servindo de referência para muitos estilos posteriores.

Trago abaixo o filme na íntegra, com a sensacional trilha de Jason Swinscoe, executada pela Cinematic Orchestra.

2 comentários:

  1. Há quanto tempo não passo por aqui, saudades!
    O blog está lindo como sempre, as fotos e tals.
    Adorei a tattoo, o projeto do vestido viajante...

    Estou voltando aos poucos a visitar com freqüência os blogs amigos! ♥

    Beijos.

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  2. Interessante, não tinha ideia de como um filme de 1929 poderia chocar o público dessa forma..Sim, claro q na época as produções eram bastante originais, mas ser mantida até hoje como destaque não é pra qualquer um.. Vi só o comecinho (pq estou no trabalho), mas pelo jeito que você descreveu, deu vontade de ver tudo..
    Beijão!

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