quarta-feira, 24 de abril de 2013

"1984": um romance sofisticado e atual.



Faz pouco tempo que decidi tomar contato com romances distópicos e de ficção científica. Li  A Revolução dos Bichos há alguns anos, muito aleatoriamente, porque ele caiu nas minhas mãos num momento em que eu estava desocupada. Não é o tipo de texto que mais chama a minha atenção, mas acho importante ter leituras de estilos variados e de textos mais representativos, ainda que eles figurem fora do meu quadradinho de preferências.

Conheço pouca coisa desses gêneros por ora, mas, quando li o Wells e o Bradbury, achei a coisa muito aparentada com os roteiros de cinema, o estilo por demais enxuto, os personagens pouco desenvolvidos, apesar das grandes ideias que constituíam a base do enredo. Felizmente, o romance 1984, do inglês George Orwell, não segue essa tônica.

Talvez a aproximação que eu faça entre os romances distópicos e os de ficção científica seja maior do que deveria, mas a questão é que Orwell consegue, nesse romance, desenvolver com êxito não somente a história, mas o estilo narrativo: o protagonista Winston Smith é um personagem consistente, seus sentimentos e pensamentos são abordados com uma certa dose de lirismo, os ambientes são descritos de forma convincente, a atmosfera de tensão construída é crível, há metáforas e comparações inusitadas, os comentários do narrador ultrapassam a mera enumeração dos fatos.



Há uma sofisticação estilística de difícil execução, que logra em associar a economia com a elegância. O texto é bem escrito, sem exceder nos floreios linguísticos ou comprometer a coerência interna. Isso é muito louvável num texto que tem clara intenção de dialogar com a realidade. Caso alguém desconheça a sinopse do romance, ele trata do movimento de consciência, rebelião e captura de Winston Smith, numa Inglaterra regida por um socialismo totalitarista que manipulava as informações e que buscava controlar o pensamento das pessoas, interferindo mesmo nas relações mais íntimas.

Um fato que me assombra é como Orwell conseguiu manter a qualidade do texto estando gravemente enfermo na época em que o produziu. O autor viria a falecer logo em seguida.

No início da leitura, os neologismos cafonas da "novilíngua" - o precário idioma oficial do partido, que pretendia simplificar o raciocínio - me incomodaram um pouco. Depois, acabei percebendo o quanto eles estavam ajustados ao tipo de tacanhez que constitui o intelecto de quem defende semelhante regime. A "novilíngua" é, provavelmente, a melhor sacada do romance, na medida em que demonstra como o uso e o conhecimento linguísticos interferem no pensamento crítico dos indivíduos. Orwell strikes again!

A escritura do romance teria sido motivada pela temerosidade do escritor  ante os rumos que o comunismo e o fascismo estavam tomando. Ele, que se declarava um socialista-democrático, pretendia demonstrar o quão perversas as práticas desses regimes vinham se tornando. Apesar de ter sido publicado em 1949, o  texto detém considerável atualidade, uma vez que descreve como a tecnologia permite que o governo controle as atividades privadas, além de abordar a manipulação histórica e a instauração de guerras preventivas e de controle do poder.



Em determinada passagem, o narrador afirma que "Os melhores livros [...] são aqueles que lhe dizem o que você já sabe". A máxima talvez não se comprove fora do romance, mas pode-se-lhe aplicar - não somente por sua pertinência no alerta quanto aos perigos de qualquer totalitarismo, mas também pelo modo elegante e criativo como o faz.

2 comentários:

  1. Olá Aline! Muito bom o seu texto sobre 1984, de Orwell. Terminei de ler recentemente este livro (inclusive, pela foto do post, vejo que lemos a mesma edição lançada em 1984! =D) e escrevi uma resenha sobre ele. Realmente trata-se de uma obra riquíssima em conceitos, em qualidade literária e super atual no conteúdo. A história nos leva a refletir sobre nossa própria realidade, alertando-nos sobre a proximidade desta distopia com a condição social em que nos encontramos. Uma excelente leitura!

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