quarta-feira, 10 de abril de 2013

Só um trabalho

Acho que dentre as manifestações artísticas, a música é a minha favorita. Bate até mesmo a literatura, ouso dizer. Durante algum tempo, considerei trabalhar com isso: tive bandas, participei de corais, apresentei um programa furreco numa rádio local, estudei violão. Meu malogro nessa empreitada rendeu algumas conversas com a psicóloga com quem me consultava na época, por dois motivos: o primeiro, mais simples e definitivo, é que não tenho talento. O outro consiste na dificuldade que tenho em trabalhar com as coisas que amo.

No curto período em que me apresentei com as bandas, experimentei momentos de considerável estresse e desconforto. Achava terrível que algo que me soasse quase sagrado (a música em geral, não a música que eu fazia) estivesse sendo maculado por procedimentos profanos como prazos, reuniões, pagamentos ou o ajuste às exigências do freguês. Isso também se demonstrou verdadeiro em relação à literatura, no período em que lecionei. Eu achava um saco ter de categorizar textos brilhantes de modo tão redutor e estanque,  ter de ler continuamente obras pelas quais não nutria nenhum amor ou admiração particulares só porque elas faziam parte de um currículo a ser ministrado, ou então ir aos textos não por prazer, mas para elaborar avaliações com eles. Era sacal! 

Compreendo perfeitamente que haja pessoas que precisam amar suas ocupações profissionais. Apenas percebo que não sou uma delas. Gosto de identificar com clareza quando o trabalho acaba e o lazer começa. Contento-me com um emprego que banque o meu diletantismo, que me permita comprar meus livros, ir a concertos, assistir a algumas dezenas de filmes por ano. Não quero trabalhar com nenhuma dessas coisas.

O primo de uma amiga minha desistiu da profissão de tatuador porque estava farto dos desenhos horrendos que os clientes escolhiam. Um professor que tive na Uerj, certa feita, nos disse que professores e teóricos de literatura não possuem o direito de gostar dos textos. Radical, mas faz algum sentido. O gosto pessoal desses profissionais não pode ser a tônica de um ensaio ou de uma aula. Até pode influenciar a escolha do texto analisado, mas todo o resto terá de ser fundamentado e embasado com argumentos sólidos e bibliografia específica. Mesmo amando os poemas de Cruz e Souza e tendo lhe dedicado a maior parte da minha dissertação, sou obrigada a admitir que ele se restringiu bastante aos mesmos temas e recursos, que não se afastou muito de umas poucas questões.

Continuo adorando o autor porque gosto é algo que dialoga com a nossa história. A gente pode amar obras não necessariamente geniais porque se identifica com elas em algum grau. Talvez seja um problema para os críticos. Eu me sentiria meio patife em indicar, recebendo para isso, um filme ou livro com base em razões meramente subjetivas. Lembro do Rubens Ewald Filho reclamando da escalação da Kristen Stewart para determinado filme porque ela era, além de inexpressiva, "queixuda". Vê-se que nem todos compartilham dos meus pudores.

Até gosto de estudar literatura, de escrever ensaios e resenhas. Faço-o com entusiasmo surpreendente, especialmente quando não tenho prazo para tal. Ok. Sejamos realistas: quem entrega qualquer coisa sem ter prazo?

A questão é que encaro com serenidade as oito horas de burocracia diária que pagam as minhas contas e o meu lazer. Posso até voltar para a minha área, trabalhar com pesquisa ou algo similar. Só que isso não é uma urgência na minha vida. Enquanto isso, posso me ocupar com comentários e resenhas parciais e duvidosos aqui no blog. É de graça, ninguém está pedindo a minha opinião, e é por isso que é divertido.

9 comentários:

  1. Mais que 'coincidência': você postando sobre não conseguir trabalhar com o que gosta e uma amiga minha escreveu no facebook justamente sobre não conseguir trabalhar com o que não ama.

    Eu ainda não sei o que amo de paixão, mas vou levando...

    Beijinhos e ótimos passeios pra ti!

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  2. difícil mesmo é sabe o que ama mesmo numa infinidade de opções... =D

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  3. Aline, vc não sabe como me identifiquei com esse texto! Sou professora, mas vivo em conflito com a minha profissão. Não sou feliz com ela, em função de tudo o que sabemos a respeito da não valorização da educação no Brasil. E não tenho o perfil para lidar com os adolescentes apáticos, debochados e desreipeitosos de hoje. Quero pedir prá sair!rs. Então devo fazer um concurso público em breve, infelizmente trabalhar com algo que não tem a ver com o que estudei, também um serviço burocrático. Mas ao menos vou ser efetiva (o que não sou atualmente, apenas contratada) e penso que terei mais paz! Sou muito tranquila, adoro silêncio e a escola tem sido um local insalubre prá mim...rs. Enfim, há sim a questão de sentir falta do trabalho intelectual, aquele para o qual estudei (no caso, letras). Mas, assim como vc, não preciso abandoná-lo, posso exercê-lo elaborando e publicando textos por puro prazer ou trabalhando com educação a distância, algo que tenho em vista já a algum tempo. Aí dá prá conciliar com o serviço público numa boa (se eu passar no concurso, vou trabalhar só 30 horas!)

    Que bom que colocou aqui um pouco da sua história e os processos pelos quais passou. Eu tinha curiosidade em saber se o seu trabalho teria a ver com a sua formação acadêmica e intelectual:) Agora entendi e acho que vc está certíssima em ter feito essa opção, tirando proveito do seu trabalho, ganhando seu dinheiro, o que lhe proporciona viver com prazer!

    Aline, seu post me deu forças mesmo para fazer essa escolha, nada fácil, de mudar meu rumo, de abandonar meu conformismo. Caiu como uma luva prá mim...rs. Obrigada!

    Bjs
    Patrícia

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  4. Puxa, Patrìcia! Que bom que o texto te inspirou. Vou te dizer que era professora de colégio público e saí de lá ensandecida também. Sou uma pessoa introvertida, quieta, meio misantropa e é muito difícil pra mim lidar com salas de cinquenta alunos que não estão nem aí pro que você está dizendo e que muito provavelmente faziam mandinga pra eu ter disenteria às sextas-feiras, rsrs. E olha que a maioria dos meus alunos era de adultos. Simplesmente não consigo fingir que dou aula enquanto eles fingem que aprendem - o que muitos profissionais conseguem numa boa. Passei um tempo chateada por não usar a minha formação numa atividade mais intelectual, mas lembrei da loucura do mestrado e fiquei feliz em constatar que posso continuar a estudar sem a correria, disputa e endogamia acadêmicas. Porque,né, rola toda uma panelinha nesses meios também.
    Boa sorte no seu concurso!
    ;)

    Beijão!

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  5. Uau! Estou no caminho inverso, terminei a faculdade (História) e fui trabalhar com burocracia e agora estou a um passo da sala de aula. Não sei no que vai dar, mas sabe quando chega aquela hora de mudar as coisas?

    Boa Sorte para todas nós!

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  6. Ai, pois é, nem sempre o que a gente ama é capaz de nos sustentar e permitir um grau médio de lazer... quando eu era 'jovem ainda' (rs) eu dava aulas de informática e o dinheiro na época era ótimo, pagava a faculdade, pagava o cineminha e o lanche, pagava uma ou duas peças de roupa bacaninhas no mês...mas daí aumentaram as expectativas, as necessidades, e o dar aula não era suficiente...o estágio da minha área pagava pouco, estagiei em outra área, agora o emprego fixo da 'minha área' paga bem, mas eu me especializei em outra coisa, enfim, às vezes gosto do que faço, na maior parte do tempo eu detesto, e a vida vai seguindo, os filhos crescendo...

    beijo

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  7. Oi sumida como vc está?

    saudades de vc lá no meu blog

    desculpa o sumiço

    bjs

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  8. Hummmmmmm. O seu texto e a sua colocação pessoal são ótimas, dentro de um assunto tão complexo e recheado de possibilidades de pequenas e grandes angústias, frustrações e insatisfações.

    Estou na via contrário - e não posso dizer que é fácil, que são mil maravilhas, que é legal e gostoso todo dia. Aprendi a lidar e achei que este seria o melhor caminho no meu caso.

    Muito pouca gente tem coragem de se colocar como você colocou, porque talvez o discurso "da moda" seja justamente o contrário - vai lá, faz o que você gosta! Ninguém te explica que vai ser dolorido, que você vai odiar as pessoas lindas que você tanto queria trabalhar junto.

    Dá pano pra manga essa cunversa!

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  9. Ai Aline, que texto sábio! Adoro seu blog... O melhor de não trabalhar com o que se ama fazer é que a gente não se obriga a ter um falso sentimento de felicidade todos os dias e o tempo todo..

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