quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Octaedro




Por causa da Maratona Literária da qual participei com a Denise, descobri um livro na minha estante que não lembrava de ter comprado: Octaedro, do Cortázar. É curioso como a vida às vezes  põe as coisas na nossa frente. Sem intenção ou interesse especial, acabei aumentando minha “coleção” desse autor para cinco livros. Bestiário foi o primeiro, adquirido há quase três anos; As armas secretas veio mais de um ano depois; História de Cronópios e Rayuela em Maio desse ano, na viagem de férias. E Octaedro, em qualquer momento ocultado pela memória. Cortázar não é dos meus autores favoritos, mas eu estou aceitando com boa vontade essa sugestão do destino.



Pode-se dizer que Octaedro segue o tom de As armas secretas, na medida em que põe somente um pé (ou alguns dedos) no fantástico, e se apóia mais fortemente nos absurdos e incoerências da psique humana. Os personagens de “Verão”, “Manuscrito achado num bolso” e “Pescoço de gatinho preto” assombram mais por suas reações inesperadas que por qualquer habilidade inaudita. Esta comparece em “As fases de severo”, talvez o conto de menor fôlego do livro. O narrador não confiável reaparece, despistando e, por vezes, até desorientando o leitor com suas hesitações, incertezas e parcialidade.

Coletânea de estilo sofisticado, Octaedro tem textos um tanto herméticos: desafia o leitor, instiga, joga com ele, dá uma trapaceada, não ata as pontas da narrativa. Atá-las, no entanto, é apenas um caminho que pode ou não ser seguido, uma vez que as incongruências da narração, do brainstorm do narrador, valem já por seu valor estético. Em “Os passos no rastro”, um acadêmico empreende uma investigação de si mesmo, conduzindo-nos ponto a ponto da segurança à epifania, e à tentativa de compreender suas escolhas equivocadas. Em “Aí, mas onde, quando”, o narrador quer nos convencer de que escreve sobre um fato porque o conhece bem, mas a cada descrição, a cada comentário, suspeitamos o contrário e a deriva nos espreita. Ao longo desse difícil conto, perguntamo-nos o que deixamos passar, onde perdemos as pistas. No entanto, surge a questão: é mister que entendamos? Tais jogos não seriam forjados exatamente para nos desorientar? A cada livro, Cortázar parece querer criar uma coleção de idiossincrasias, uma vitrine de narrativas e personagens inusitados que nos enlaçam pelo encanto ou pelo espanto.

Por exemplo: é com graça e lirismo que “Liliana chorando” abre o livro. Nesse conto, o protagonista, internado com uma doença terminal, imagina, com precisão e sentimento, o destino de seus entes queridos após a sua morte. Em “Manuscrito achado num bolso”, o narrador-personagem cria um jogo que termina por dominá-lo de tal forma que ele não mais pode operar fora de suas leis. Seu desafio é conseguir que a outra parte aceite o trato e também as acolha.

Octaedro encerra oito contos, mas oferece também diferentes ângulos sobre situações afins: a doença, a proximidade da morte, a interação entre estranhos no metrô, o flerte. Oito maneiras de ver a mente humana se apresentam. Todas inusitadas. Elas rodeiam os mesmos temas, mas não pretendem concluir nada. Tentam, antes, sugerir as possibilidades mais extravagantes:
a)      a resposta não existe; ou

b)    a resposta sempre muda.

2 comentários:

  1. Parece ser bem interessante! Deu vontade de ler!

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  2. Nossa! Você descreve tão bem que desperta a vontade imediata de achar os livros e ler! Parabéns!

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