terça-feira, 24 de setembro de 2013

Reflexões sobre amizade e admiração

Encontrei o texto abaixo perdido numa pasta do computador do trabalho. Como as máquinas aqui da seção serão trocadas, resolvi fazer um backup e organizar meu mafuá literário em pastinhas específicas. Não sei exatamente porque desisti de publicá-lo, mas suspeito que tenha sido por causa desse post, onde desenvolvo a mesma ideia com um pouco mais de leveza e concisão. Ei-lo, então, preenchendo o vazio do blog, até que eu reapareça com notícias sobre a vida. See ya!
;)

Amizade e admiração são coisas totalmente distintas. Pode-se admirar alguém por suas qualidades e atitudes, ainda que pareça impossível estabelecer uma relação de cumplicidade com essa pessoa. Do mesmo modo, tornamo-nos bons amigos das pessoas mais improváveis, que, muitas vezes, não partilham de nenhuma similitude com as nossas histórias ou personalidades.

Durante essa vida, já me reconheci em situações em que eu e mais alguém tentávamos ser amigos, a admiração era mútua, mas sempre sobressaíam olhares ansiosos e silêncios constrangedores. Não que não haja silêncio entre amigos – há, mas de outra natureza. Um silêncio conivente, de quem fecha com seus pensamentos antes mesmo que a palavra se materialize. Como se diz em inglês, “we just clicked”.

Amizade é um negócio tão místico quanto o amor. Não há racionalidade que dê conta. Ela existe, tão singela e simples como uma árvore. É um fato. Não se pode planejá-la, forçá-la. E não há tempo ou distância que a esmoreça. Se ela existe, resiste (rimando doce e simples).

É preciso serenidade para aceitar a sua falta, sem pensar em culpa ou inabilidade. Não existe isso de não ser bom o suficiente para alguém, ou de merecer o afeto. Até os filhos-da-puta têm bons amigos. 

Então, penso naquela pessoa fascinante, que tanto me inspira, mas cuja tentativa de aproximação mostrou-se estéril, sem que houvesse má vontade de ambas as partes. A gente se trata com carinho e educação, mas não há sparkles, não há química. O papo não flui, o riso não é frouxo, não rola aquela concordância pré-verbal com o olhar. O interesse parece simulado, em nome de algo que deveria existir ali, de acordo com a lógica. Mas não há encaixe.

Há, ainda, os casos em que a amizade é unilateral. O interesse é genuíno de um lado, mas inexistente com o outro - que pode simples, e sinceramente, ausentar-se, ou sentir-se constrangido a simular migalhas de carinho.

No primeiro caso, resta à pessoa “amiga” resignar-se. Acredito que a saída mais justa é aceitar e compreender a inexistência do afeto do outro, sem rancor, como algo que escapa ao nosso arbítrio. Se não existe, ok, move on. Não há fórmula para o afeto.

No entanto, é a segunda hipótese que acredito ser mais constrangedora, pois legar esmolas de afeição por “consideração” é, por melhor das intenções, mais humilhante que ignorar alguém totalmente. Pode parecer estranho o que estou falando, mas acontece. Já passei por isso. Ver-se alvo de amabilidade artificial e interesse simulado é irritante. Perguntas inexpressivas, repetitivas sobre o que fazemos da vida só evidenciam o real desinteresse pelo assunto.  Mil vezes uma indiferença sincera!


Não há o que fazer. Forçar uma relação que não se desenvolve naturalmente é desgastante e é quase certo que vá falir futuramente. A gente pode lamentar lá no fundinho do peito e suspirar, mas acontece. Mantém-se a educação, os bons modos, e a admiração não precisa acabar por causa disso. 


4 comentários:

  1. Lindo Line! Espero que nas suas arrumações apareçam mais textos assim.
    Houve uma época em que eu achei que pudesse "escolher" meus amigos de acordo com o que eu via na aparência deles. Foi aí que eu descobri que por trás de tatuagens e camisas dos Beatles existem muitos idiotas hahahaha Mas mesmo as pessoas legais, não rolava essa química que você falou.
    Hoje eu acho que as melhores amizades nascem dos lugares mais improváveis e das conversas mais bobas.
    Se ela existe (resiste), não importa o tempo sem falar, não importa o que aconteça, é a coisa mais certa!
    Beijo enorme!

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  2. Meus amigos não tem nada a ver com o perfil de alguém que eu fosse escolher por amigo...mas mesmo assim são as melhores pessoas que eu poderia ter em minha vida.
    bjs

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  3. Nossa esse post fala muito bem sobre o que eu ando sentindo a respeito dos amigos... Tanto que o levei para o meu blog...
    (http://ana-clorofila.blogspot.com.br/), abraço fraterno!

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  4. Nossa... que lindo! Vc conseguiu transcrever sentimentos que não conseguimos expressar ou sequer entender, mas existem! Como uma árvore, perfeito!

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