sábado, 28 de setembro de 2013

Tenda dos Milagres



No dia em que terminei de ler Tenda dos Milagres, de Jorge Amado, uma situação curiosa me aconteceu. Eu havia combinado de almoçar com meu irmão na Rua do Rosário, numa comemoração prévia do meu aniversário (ele não poderia me encontrar na data), e fiquei fazendo hora na feira de livros da Praça Tiradentes enquanto ele não chegava. Avistei o stand do sebo Elizart, cuja sede da Marechal Floriano costumo frequentar, e um livro me chamou a atenção logo na beirada da banca: Religiões africanas  / Negros bantos. Tratava-se de um dos temas abordados nas polêmicas brochuras de Pedro Archanjo, personagem do livro que acabara de ler. 



O nome do autor do volume descoberto na feira, Edison Carneiro, suscitou-me familiaridade e resolvi ler sua biografia na página de introdução. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que Edison era meu parente? Baiano, da família de meu avô, os Souza Carneiro, Edison poderia ter sido um personagem de Jorge Amado. Diz-se que Pedro Archanjo reúne traços de várias personalidades reais, e, já que essas bizarrices propostas pela vida me fascinam, tomei essa coincidência inusitada como um  presente esotérico de aniversário.

Tenda dos milagres narra a história de Pedro Archanjo, bedel da Universidade de Medicina da Bahia, negro, autodidata, Ojuobá, olhos de Xangô, tocador de violão, mulherengo, poeta, literato, estudioso do povo e dos costumes da Bahia. Escrito num período de censura e tensões políticas, a década de sessenta, imagino se terá causado bafafá, já que boa parte do livro aborda não só o preconceito sofrido por negros, mestiços e praticantes de religiões africanas no início do século XX, mas também a mestiçagem generalizada – e não admitida - das classes mais abastadas da sociedade baiana. Archanjo, dotado de personalidade dócil, sempre gentil, educado, sorridente, mas também forte, obstinado e corajoso, vive intensamente junto ao povo, batucando nos terreiros, tomando cachaça com os amigos, ensinando poesia e gramática às crianças, deitando-se com mulheres formosas, espalhando bastardos, proseando com seus confrades. Indignado com a publicação crescente de teorias acadêmicas racistas e com a perseguição sofrida por seus pares, o bedel se vale de sua experiência e de sua habilidade com as palavras para escrever estudos e ensaios sobre as religiões, os costumes, a mestiçagem, a cultura popular.

Narrado anacronicamente, o romance intercala episódios de diferentes épocas e passagens de textos escritas pelos personagens. A trajetótia de Pedro vem à tona devido ao interesse do intelectual norte-americano e prêmio nobel Levenson, cujo prestígio faz com que a mídia, a academia e os governantes subitamente se interessem também. As 374 páginas da minha edição (Livraria Martins Editora), ilustradas por Jenner Augusto, convidam a ler "baianamente", isto é, sem pressa e com gosto. Além disso, a arte e o cuidado tipográfico evocam as edições artesanais do personagem Lídio Corró, riscador de milagres e produtor das brochuras do amigo Arcanjo.

Jorge Amado manipula a língua com maestria e, se faz do romance um objeto de louvor ao folclore, às músicas, às festas, ao linguajar, às tradições populares, também é mordaz quando descreve a intelectualidade retrógrada, arbitrária e preconceituosa que buscava banir e subjugar os afro-descendentes no início do século passado. Alfineta, ainda, os peixes menores – funcionários interesseiros, artistas medíocres, empresários gananciosos, tipos que negociavam à base da trocas de favores e deturpavam os fatos em nome do enriquecimento e do prestígio próprio. Ainda que o texto transpareça algo da ideologia comunista de que Amado era adepto, é a noção de democracia racial proposta por Gilberto Freire que predominará na fala de Archanjo. O romance, no entanto, não se reduz a teor panfletário ou tese, constituindo, na verdade, um eficiente panorama de notável valor não somente estético, mas histórico.

Cada festa, caso ou personagem é descrito com riqueza de detalhes, humor, e a peculiaridade de um linguajar erudito e escorreito mesclado à fala malandra das ruas ou ao dialeto nagô. Os batuques nos terreiros, as festas carnavalescas, as lutas e as perseguições praticamente se materializam à nossa frente, repletas de cor, música e calor: o perfume e a sensualidade de Rosa de Oxalá são quase palpáveis; a indignação apaixonada de Corró e os discursos imponentes de Major Damião ecoam com tanta força que é fácil ouvi-los na imaginação; o mesmo ocorre com a fala mansa e cantada de Archanjo ou com as risadas e interjeições galicistas da irreverente Zabela. 

Em Tenda dos Milagres, a mestiçagem serve de tema e dita a própria forma do texto. Ela é apontada como a nossa característica mais marcante – fonte tanto de nossa riqueza cultural como de nossos vícios mais arraigados. Com um enredo cativante, o romance empolga, embriaga, além de propor valioso comentário social. Deixou-me órfã, saudosa dos alegres e perseverantes personagens do Tabuão, que levei tão próximos durante um mês, e que a descoberta  inusitada do livro de meu antepassado acabou trazendo ainda mais para perto. É difícil não se angustiar com o árido desfecho na história de Pedro Arcanjo, porque o identificamos com o destino de muitos de nós. Pedro que é vários, é cada um:

Pedro Archanjo Ojuobá vem dançando, não é um só, é vário, numeroso, múltiplo, velho, quarentão, moço, rapazola, andarilho, dançador, boa-prosa, bom no trago, rebelde, sedicioso, grevista, arruaceiro, tocador de violão e cavaquinho, namorado, terno amante, pai-dégua, escritor, sábio, um feiticeiro.

Todos pobres, pardos, paisanos.

2 comentários:

  1. Parece muito bom! Estou relendo Pastores da Noite, Jorge Amado era um gênio.

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  2. Muito bom! Já li e reli várias obras amadianas. Não me canso.
    Bjo.

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