quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Cavalo, a canção do exílio de Rodrigo Amarante



À primeira audição de Cavalo - último álbum do ex Hermano e atual Little Joy, Rodrigo Amarante - minha reação foi de estranhamento. Acostumada que sou aos momentos mais angustiados e pesados, ou às baladinhas dançantes que ele criava para as suas bandas anteriores, acabei estranhando a lentidão de seu disco solo.

Cavalo tem seus momentos alegres, mas é em sua maior parte um álbum introspectivo, soturno. Conforme fui escutando mais vezes, fui me apaixonando por sua poesia, por sua delicadeza e melancolia. Com faixas em português, inglês e francês (e algumas frases soltas em japonês, na faixa que dá nome ao disco), o álbum é um monumento hipster, sem que isso seja necessariamente ruim: é idiossincrático, eclético, inusitado sonoramente, ousado na medida em que não se preocupa em ser óbvio ou fácil. É uma espécie de relato íntimo de um sujeito sensível e exilado, que diante das distâncias, lembranças e saudades que lhe restam, olha pra si mesmo, examina os ecos deixados por esses elementos e os trabalha artísticamente. Nesse sentido, as canções de Cavalo compõem um todo muito coerente, mas é necessário que o álbum seja encarado como essa viagem subjetiva e lírica.

"Nada em vão" é delicada e romântica, quase sussurrada, e seu refrão retrô soa como um flerte à moda antiga:


"Quando vejo você
Me olhando assim
Vendo em mim
O que vejo em ti"

O interesse poético de Amarante também se revela na brincadeira com as consoantes:

"Eis então
Que o pedaço de mim que é só teu
É intento sem tanta intenção"

"Hourglass" é a que mais soa como seus trabalhos anteriores: mais agitada e dançante, ainda que inove ao utilizar bateria programada e efeitos de sintetizadores.




"Mon nom", cantada em francês, é uma das minhas favoritas. Seu arranjo é singelo e tem uma teatralidade tranquila que ajuda a ambientar a letra doce, nostálgica e adornada de belas metáforas.


"Je suis l'étranger
Comme l'eau de ton fleuve
Et comme la cadence
Que t'a fille dance
Il m'apellent le brun
À cause de mains
Qui sont toujours noires
Je trouve que c'est beau"

"Irene", que associa romantismo e poesia, ecoa o melhor de nossa mpb e homenageia Caetano. Essa faixa, juntamente com a animada "Maná", compõem os momentos mais claros de reverência à música brasileira, influência que parece ter sido uma das descobertas íntimas de Amarante enquanto apartado de sua terra.


Na carta de apresentação do disco, presente no encarte, Amarante conta que "(o exílio) me deu a divina oportunidade de re-conhecer a minha natureza, recobrar a minha ascendência e as minhas saudades, que, de longe, entravam em foco umas quando se esmaíam outras". Ele diz também que "Tudo o que estava do lado de dentro protegido pela máscara veio para fora, ficou exposto, limpo de direções, cores, está claro e sem vergonha, aberto". 

No samba-rock-psicodélico "Maná", podemos adivinhar influências várias: Jorge Ben, Novos Baianos, Gilberto Gil. É interessante que a canção traga batidas que evoquem não só o samba, mas também o maracatu - ritmos nascidos no seio dos rituais afro-brasileiros - e que o disco se intitule "Cavalo".



Esse é também o nome que se dá às pessoas que servem de veículo às entidades nas religiões africanas, e acaba servindo para nomear o álbum através do qual Amarante veicula suas influências e redescobertas. A retomada criativa das heranças culturais é algo recorrente em nossos artistas, dos Antropofágicos da década de 1920 à Nação Zumbi.


A partir da faixa seis, o mergulho interior de Amarante se aprofunda. O disco parece ter uma estrutura semelhante à do decorrer do dia. Acorda-se calmamente com "Nada em vão", agita-se um pouco mais com "Hourglass", "Mon Nom" e "Maná", canções mais solares, para depois ir-se embrenhando numa noite longa e funda de confabulações existenciais. Em toda segunda metade do disco irão predominar as melodias sentimentais de clima mais soturno, lunar, melancólico.  "Fall Asleep", "The Ribbon", "I'm ready", "Tardei" e a citada "Cavalo" são as responsáveis pela estranhada lentidão do disco, mas compõem um conjunto de poemas confessionais, reflexivos, conduzidos predominantemente por violão e piano e preocupados em promover uma espécie de auto-conhecimento do indivíduo. A atmosfera não chega a ser depressiva, já que há reconciliação, esperança e apaziguamento nesse encontro consigo. Os objetos da saudade abundante do artista legam-lhe uma coleção de riquezas: as lembranças, as surpresas do fundo da alma, as reinvenções contínuas da própria história.

"I'm ready for the end
You know why
I'm ready
Well it never goes away
It turns out"

"Quem na rua se perde
Encontra o que pede
Acerta o que mede
E conta até errar
Que o erro é onde a sorte está
Não queira ver"

Olhando para trás, podemos suspeitar que o germe desse grupo de canções se enconrasse já em "Evaporar". E não é para menos que o disco não empolgue ou contagie logo de cara. Entretenimento fácil e imediato é tudo que ele não oferece. É preciso aceitar a viagem que o tal "cavalo" nos propõe, aceitando o risco de que ela pode não ser exatamente excitante. É, na verdade, uma jornada peculiar e poética, mas muito, muito bonita. Transformar algo tão pessoal e íntimo em arte é dom de poucos. Rodrigo Amarante, certamente, o tem.

Um comentário: