sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Frances Ha



No seu mais aclamado livro, Em busca de sentido, o psicanalista Viktor Frankl comenta como a identificação do sentido da vida pode nos livrar do vazio existencial e modular a nossa postura diante dos fatos. Frances Ha, último filme de Noah Baumbach, serve como ilustração dessa teoria.

À primeira vista, a película de 86 minutos parece um episódio de Girls estendido para a longa metragem: tal qual a aspirante a escritora, Hannah, a jovem dançarina, Frances, mora em Nova Iorque e não consegue sobressair na companhia onde trabalha.  Vivendo com a promessa nunca concretizada de ser promovida a bailarina titular, ela acaba tendo de lidar com a renda escassa, empregos incompatíveis com a sua formação, baixa autoestima, solidão. O filme conta, ainda, com a participação de Adam Driver, o peguete de Hannah no seriado, e com uma trilha sonora caprichada: Bach, Bowie, Paul McCartney, The Rolling Stones, George Delerue (que fez várias trilhas de filmes da nouvelle vague).

Há, no entanto, diferenças importantes em relação ao seriado: não há sexo, nudez ou grandes entraves amorosos no filme. Aqui, as urgências são de ordem espiritual. Enquanto vai perdendo a casa, o emprego, a melhor amiga, Frances se esforça em manter o bom humor, em continuar procurando a graça das coisas, em prosseguir do jeito que dá. Greta Gerwig, atriz que dá vida à protagonista, confere outra dimensão a esse ofício, tamanha a competência de sua interpretação. Frances convence como qualquer moça que pudéssemos conhecer: sem grandes destaques, meio estabanada, com as olheiras normais de quem trabalha, espontânea, natural na medida. Maiores artifícios descaracterizariam a proposta do filme. A vida pulsante na "grande maçã", as músicas e os dilemas de uma jovem sensível e desengonçada evocam o charme dos filmes de Woody Allen.

Filmado em preto e branco, o longa consegue escapar ao melodrama, mostrando-se ao mesmo tempo lírico e contemporâneo. A opção pela falta de cor parece mesmo desmentir qualquer ambição extraordinária da trama, sugerindo que o drama de Frances é corriqueiro, igual ao de muitos de nós. Inserida num universo de jovens conectados, ansiosos pelo reconhecimento profissional, e que simulam ou exageram o próprio sucesso, Frances tenta não cair em desespero e se agarra ao otimismo. Sua postura lúdica diante vida imprime uma beleza cativante ao filme.

Sentindo-se como a única de seu círculo a afundar num oceano de derrotas, a dançarina vai percebendo que, antes de afirmar-se publicamente, é a fidelidade a si mesma que será capaz de apaziguá-la. É porque se descobre ciente daquilo que gosta e de seus objetivos que Frances é capaz de lidar firme e positivamente com o sofrimento e com suas limitações.

Com alguns momentos divertidos e situações familiares, Frances Ha oferece uma falsa leveza. A reflexão que o filme propõe diz respeito a uma realidade tangente, muito próxima a maioria de nós: mesmo num mundo obcecado com vencedores, há lugar para os "meros mortais", os falhos, os imperfeitos. Mais do que sofrer uma imposição do destino, render-se ao desalento é  fazer uma escolha.

5 comentários:

  1. Vi um filme com essa atriz, se chama "Lola versus". Gostei do filme, não é nada de maravilhoso, mas sei lá, acho que identifiquei hehe

    E nele, a personagem também procura sentido pra sua vida ^_^ De uma forma diferente sim, mas tem lá suas similitudes com esse filme do teu post.

    Fiquei com muita vontade de assisti-lo!!

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  2. Aline, adorei este filme...justamente por ser sem pretensões, sem efeitos, sem sexo e sem fogos de artifício! O filme está fazendo muito sucesso no circuito alternativo aqui em Amsterdam (há mais de 4 meses em cartaz, o que raramente acontece). E acredite que tenha muito a ver com o fato de que a protagonista não seja nenhuma heroína e sim uma jovem comum, como tantas outras que andam pelas ruas da cidade. Uma jovem com seus sonhos e expectativas, que vai vivendo como pode, dentro das suas possibilidades.

    E sim, o filme parece simples mas é bem mais profundo...ele é um filme existencial (do tipo que eu gosto), mas isso nem todo expectator irá ver. Não basta ter olhos...

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    1. Beth, o filme calou fundo na minha alma. Veio numa hora em que eu estava precisando, viu?
      Beijão!

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  3. Tava fuçando em blogs ao mesmo tempo que procurava desesperadamente um link pra esse filme, quando caio aqui e você falando dele. Ele entrou pra lista dos melhores de 2013 do Tarantino, além de eu ter descoberto recentemente que é uma produção brasileira. Não vejo a hora de assisti-lo.

    beijos (:

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