sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Marcoré - um retrato demasiadamente humano



A imagem de meu filho pequenino, seu choro, que tanta angústia me causa, a vozinha musical,o riso claro que estala nas sombras do pomar estão presentes em todos os meus pensamentos. Sinto Marcoré como se fora não obra minha, mas meu criador. Nada mais consigo realizar que não envolva o seu nome. Transfiro para ele todo o bem que me chega; se fraquejo, receio que os males o atinjam.

Quando a Arqueiro me mandou a lista de livros de Setembro (ou Outubro, não lembro), escolhi Marcoré porque o release dizia ser esse um romance premiado pela Academia Brasileira de Letras. Meu lado acadêmico não se conteve e decidi solicitá-lo. Escrito por Antonio Olavo Pereira, irmão do fundador da editora José Olympio, o romance foi reeditado pela Arqueiro em comemoração do centenário de nascimento do autor e conta com ilustrações do gravurista pernambucano Newton Cavalcanti.

"Marcoré" diz respeito ao apelido de Marco Aurélio, o filho temporão do oficial-mor do cartório de uma cidade interiorana de São Paulo. Narrado em primeira pessoa num estilo elegante e econômico, Marcoré descortina a intimidade de uma família, cujas relações se mantêm numa dinâmica dolorida de ressentimento e culpa. O narrador, um homem seco, revela seu egoísmo e sua fraqueza, ao mesmo tempo em que tenta mostrar como esse filho tardio, não mais desejado, e até temido, conseguiu injetar energia e esperança na morosidade acre desse lar.

Vivendo com a doce e frágil esposa, Sílvia, e com os sogros, o narrador discorre sobre como foi vendo sua vida esvaziando à medida em que envelhecia, o desejo pela esposa esmorecendo, a paciência com a sogra irascível e com a mãe rancorosa sempre diminuindo, o desinteresse e a negligência com o compadre e empregado criando um abismo entre eles. A chegada do pequeno Marco Aurélio, no entanto, ao mesmo tempo em que transforma e revigora seus familiares (diminuindo o cinismo do pai, afastando o velho avô do vício e amolecendo o temperamento da avó...), cria também uma competitividade entre eles pelo convívio com a criança, que enfraquece ainda mais suas delicadas ligações.

Marcoré aborda quase cientificamente — graças à sinceridade desconcertante e ao olhar atento do narrador — a condição humana num pequeno grupo social, pondo em evidência os desejos, fraquezas, falhas e incoerências dos indivíduos, tão patentes num ambiente que, interiorano, deixa a todos um tanto expostos e sem defesas. O romance impressiona pela honestidade e pela visão desencantada dessa humanidade frágil, que sempre reconhecemos em nós mesmos ou em alguém próximo.

O narrador nos leva tão para perto de si que tomamos sua angústia como nossa. Marcoré é preciso, minucioso, extremamente realista e brutalmente sincero.  Enreda-nos, reflete-nos, captura-nos para situações assustadoramente possíveis porque demasiadamente humanas.


Marcoré - Antonio Olavo Pereira
Editora Arqueiro
222 páginas

4 comentários:

  1. fiquei com vontade de ler...
    a capa dele é igual a do "A mulher desiludida", da Simone de Beavoir, publicado pela Nova Fronteira.
    um beijo!

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  2. Fiquei com muita vontade de ler esse livro. Pela sua resenha e pelo texto que você selecionou, com certeza, é daqueles livros nos tocam e fazem chorar e rir ao mesmo tempo.

    Já me identifiquei com o livro ;)
    Continue lendo e continue nos indicando boas leituras!

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  3. Fiquei com vontade de ler, mas estou em recesso de compra por enquanto.
    Em alguns momentos a simplicidade na escrita toca e mostra mais, torna mais real e mais brutal também.

    ;)

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