segunda-feira, 17 de março de 2014

Julie & Julia


Quando vi de relance o livrinho dando mole numa prateleira central do sebo, dei aquela entortada de pescoço, típica de quem é pego distraído, e decidi, com pouca hesitação, que ele iria comigo para casa. Eu voltava do Hortifruti com um carregamento de legumes e verduras, já empenhada no meu projeto de reeducação alimentar.

O livro foi uma espécie de respiro, após a leitura de alguns títulos sobre cinema, que venho lendo como estudos pessoais. Eu já havia assistido ao filme - e gostado bastante - e fiquei interessada em ler o livro de uma blogueira. Por motivos óbvios, livros de blogueiros me interessam; não indiscriminadamente, mas digamos que chamam a minha atenção. Blogs, assim como crônicas, costumam ter seus textos mais ou menos vinculados a ocasiões e episódios específicos da vida de quem escreve. Então, é sempre interessante quando alguém consegue atingir certo grau de universalidade, fazendo com que seus textos se tornem relevantes para além das circunstâncias que os inspiraram.

Acontece que Julie & Julia não é uma coletânea de posts, mas sim o relato de Julie sobre o projeto "Julie / Julia", no qual cozinharia, em 365 dias, as 524 receitas do livro Mastering the Art of French Cooking, de Julia Child, e escreveria sobre essa experiência num blog.

Julie Powell era uma texana de vinte e nove anos que residia em Long Island com o marido Eric e trabalhava como secretária. Frustrada com a vida profissional, ela decide aceitar a sugestão do marido de escrever um blog. Essa experiência vai transformar sua vida em inúmeros sentidos: ela vai superar medos e restrições alimentares, vai fortalecer relacionamentos, adquirir leitores interessados, chamará a atenção da mídia. E, o principal, sairá fortalecida e renovada desse desafio autoimposto. 

Ao longo do livro, Julie tenta estabelecer um paralelo entre sua vida e a de Julia Child, já que a autora de livros de receitas decidira se matricular no Le Cordon Bleu, após se casar e se mudar para Paris, como uma maneira de também fazer algo significativo. Ela tinha 32 anos, não trabalhava e não sabia cozinhar, mas adorava comer. Ela não só acabou fazendo a alegria do esposo, gourmand notável, como também acabou ficando conhecida por seu bom humor no programa de tv "Bon Appétit", onde buscava desvendar os mistérios da cozinha francesa para os "meros mortais".

Nessa leitura orgiástica de sabores, sobressai o humor bastante ácido e, inúmeras vezes, azedo de Julie Powell. Ela tenta contar sua experiência sem cair na pieguice, com piadinhas, ironia e uma pitada de auto-depreciação, mas acaba oferecendo um relato deveras inspirador. Algo que afasta o texto do tom "mala conselheira" que ele poderia assumir é que ela xinga muito, resmunga demais, e às vezes é tão, mas tão chata, que sentimos vontade de lhe mandar calar a droga da matraca. Acontece que é esse seu jeito imperfeito que a aproxima de nós. Julie é ansiosa, mimada, histérica e muito desorganizada. Tem de administrar o projeto morando numa espelunca decadente, tendo de pegar o metrô, cozinhando até tarde e cuidando de seus três gatos e de sua cobra píton. É possível se identificar com ela porque, enquanto tenta fazer algo importante com um mínimo de seriedade e comprometimento, ela enfrenta inúmeras dificuldades: a imundície do apartamento, a falta ocasional de luz e de água, a bizarrice de certas receitas. É claro que ela surta, inúmeras vezes, ao longo do processo, mas o apoio dos amigos, parentes e leitores ajuda-a a seguir em frente e levar o projeto até o fim. 

Funcionária do governo, com três gatos, entusiasta de roupas vintage e compras pela internet, usuária do metrô, blogueira, fã de Buffy, a caça vampiros e ansiosa: será que me identifico? rsrs A ironia do meu caso foi acompanhar Julie ganhando pneus de manteiga com seus pratos franceses enquanto eu cozinhava arroz integral e legumes no vapor exatamente para perder alguns quilos.

Concluída a meta, Julie alcançou notoriedade, reconhecimento e o contrato para publicar o livro. Mais que isso, ela ganhou força e recobrou a autoestima. Seu relato não é exatamente leve, tem momentos divertidos e dramáticos, e até mesmo algumas reflexões inteligentes. Por isso, aproveitando-me novamente do jargão culinário, posso dizer que o livro se apresenta em camadas, como um bolo com diferentes recheios. Desafia o nosso paladar, mas com algo ainda de familiar e aconchegante.

3 comentários:

  1. Lindinha, estou louca pra ler !!!
    Amei o filme e o livro deve ser ainda melhor !!!
    Com certeza tbm irei me identificar com a Julie.
    Bjks

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    1. Gostei muito do filme, mas o livro é bem melhor, amiga!
      :)

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  2. Eu não sei em que mundo que eu vivia quando esse série passava na TV, como também não sei em que mundo que eu vivia até 2014 quando ainda não conhecia os canais literários do youtube, mas... antes tarde do que nunca. Eu vendo a série na net e pretendo adquirir os dvds com o tempo. Parabéns pelo ótimo trabalho!!

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