segunda-feira, 24 de março de 2014

Paz, Amor e Sgt. Pepper

Uma garota com olhos de caleidoscópio, céu de geleia, flores de celofane — aqueles não eram adjetivos muito comuns, mesmo para John e Paul. Mas eram bem Salvador Dali: arrojados, criativos e surrealistas. Gente trotando nos cavalos e comendo tortas de marshmallow — isso era John ao estilo Jabberwocky. Dali, Thomas e Lewis Carroll — isso era John.

Em 2007 publiquei um texto todo apaixonado sobre o Sgt. Pepper's, aproveitando a comemoração dos seus quarenta anos. Quase sete anos depois, na semana passada, meu cunhado me mostrou esse livro — Paz, Amor e Sgt. Pepper - os bastidores do disco mais importante dos Beatles — perguntando-me se o conhecia. Respondi que não e já fui perguntando onde ele o tinha encontrado, já que o livro fora escrito por ninguém menos que George Martin, o célebre produtor dos fabfour. Como o cunhado é gente fina, emprestou-me o achado.

Martin descortina os bastidores das gravações, com base em seus diários pessoais. Muito da parte histórica eu já conhecia, devido a leitura de algumas biografias. Mas o mais fascinante nesse livro é o processo de produção daquelas viagens sonoras. Lançado em 1966, "Sgt. Pepper's Lonely Heatrs Club Band" é considerado um divisor de águas por inovar em inúmeros aspectos: letras psicodélicas, lirismo, crônica e análise social, ironia, além dos recursos sonoros mais insuspeitados no universo pop, como a mistura de estilos antigos e contemporâneos, atonalidade, associação de cordas e instrumentos indianos, do rock com a música clássica, o resgate do vaudeville ou o uso de órgãos a vapor e músicas de carrossel. O álbum é peculiar ao ponto de a banda nunca ter executado nenhuma de suas músicas ao vivo, pelo menos não da maneira como elas foram gravadas.

 Os Beatles e Martin, no estúdio Abbey Road, durante a gravação de "Sgt. Pepper"

É impressionante tudo o que a banda, auxiliada pelo experiente e empolgado Martin, foi capaz de fazer com os parcos recursos da época. É impossível, para um fã, ler esse livro sem escutar cada faixa um par de vezes, verificando os efeitos e se admirando no processo. O livro também aborda a criação da psicodélica capa, a ansiedade da banda quanto à reação do público e a recepção do disco pelos fãs e pela crítica.

O carinho que George nutre pelos integrantes da banda é comovente, e ele é muito sincero ao revelar tanto a sua admiração quanto os seus furos e decepções para com os rapazes. O relato de George ajuda a compreender a natureza das genialidades de Lennon e de McCartney, muito distintas e particulares, e ele também reconhece a competência de Ringo e a maturidade de Harrison, a despeito de seu pouco espaço na banda.

Paul McCartney mostra um senso de estrutura em composições que pouquíssimos compositores populares tiveram. Ele instintivamente exalava muito mais musicalidade do que qualquer um dos outros: Paul tinha os requisitos básicos de um grande compositor. (p. 126)

Paz, amor e Sgt. Pepper não é prolífico de fofocas da época, mas desfaz alguns mitos bem como explica certos pontos obscuros relativos às letras. Sir George Martin é um gentleman e busca se deter nas questões técnicas e artísticas. Quando faz observações de ordem afetiva ou histórica, procura fazê-lo com respeito — o que não o impede de usar um pouquinho da ironia fina britânica, que acaba dando graça ao relato.

Paz, Amor e Sgt Pepper é um livro valioso: tem importância documental, ao oferecer um olhar privilegiado sobre um dos álbuns mais importantes da história da música; e é uma leitura agradabilíssima, oferecendo a narrativa inteligente e carismática desse produtor talentoso e generoso que é George Martin, o verdadeiro quinto beatle.


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