terça-feira, 25 de março de 2014

Um adeus ao sebo São José

Meu amor pelo Centro do Rio teve início quando arrumei meu primeiro emprego formal, um contrato temporário no IBGE, em 2001. Saía de casa ainda no escuro, mas adorava perambular por esse mundo peculiar, que era novo para mim, e que agora é já parte consolidada na minha vida. 

Na época, a sede da pesquisa que eu fazia ficava na Avenida Presidente Wilson, a famosa rua da Academia Brasileira de Letras. Perambulei muito ali por aqueles arredores! Lanchava e assistia filmes na Cinelândia, comprava cds nas Lojas Americanas do Passeio, comprava bugigangas hippies nos camelôs da Graça Aranha, almoçava comida vegetariana na Santa Luzia, andava até a Carioca atrás de mais camelôs e já que tinha andado aquilo tudo, aproveitada para checar os sebos da Avenida Passos. 

Quem conhece o Rio sabe das maravilhas desses trajetos. Ok, tem pivete pra caralho, especialmente hoje, principalmente na Presidente Vargas e arredores da Central do Brasil. Mas é preciso ser muito insensível para passar indiferente pelas pedrinhas portuguesas do calçamento, ou diante da simplicidade do Paço Imperial, da beleza do Teatro Municipal, da imponência da Biblioteca Nacional, das ruelinhas transversais da Avenida Rio Branco (Ouvidor, Buenos Aires, Rosário), das igrejas e luzes da Primeiro de Março. Uma das minhas ruas favoritas da vida é a Primeiro de Março, com suas igrejas antigas, o Paço, a Assembleia Legislativa, o CCBB, a Praça Quinze, com sua feirinha de artesanato e o delicioso perfume de milho cozido. Ali também ficam a loja antiguinha da Granado, um dos melhores restaurantes vegans da cidade — o Tempeh — num sobrado muito charmoso, e a escola de cinema Darcy Ribeiro.

Uma felicidade é andar por ali à noite, saboreando um churro de barraca, vendo as paredes de pedra das igrejas refletirem a luz dos ônibus que passam num horário de pico. Quando chove, então, é um espetáculo à parte. Fico hipnotizada com o jogo de luz naquele lugar. Por ali fica também o prédio do Convento do Carmo, hoje uma universidade, dando a lateral para o larguinho da Sete de Setembro, com seu stand de flores bem no centro.

Bem próximo ali da escola de cinema, fica o sebo São José, onde já comprei tantos livros antigos. Às vezes entrava só para bisbilhotar e talvez descobrir coisas novas, achados, coisas raras e desconhecidas. Passo demais ali em frente, a caminho de livrarias, cafés, restaurantes e conferências da ABL (hoje mesmo vou em uma \o/) , e foi com curiosidade que notei, na semana passada, montes de estantes vazias e amarrados de livros ofertados pela metade do preço. Conversando com meu namorado, descobri que o sebo, uma instituição de mais de 78 anos, vai fechar porque o aluguel do prédio está muito caro!!! (mais aqui).

Não é novidade para ninguém que o valor dos imóveis na cidade está absurdo, negar a bolha que se forma aqui é ingenuidade, no mínimo. E nisso, vários lugares tradicionais, e muito charmosos, da cidade têm se visto obrigados a fechar as portas. Não são só os sebos, mas as padarias, os botecos, os pequenos e tradicionais cafés e restaurantes (mais aqui). Que seria do Centro do Rio sem seus montes de botecos, cafés e sebos? Os refúgios dos amigos, dos turistas, do trabalhador na hora do almoço ou no fim do expediente, do andarilho, de Augusto Epifânio? A graça do Centro do Rio é exatamente essa mistura do imponente com o modesto, do rico com o popular, o encontro do Saara com o Real Gabinete Português de Leitura. Enquanto essa bolha vai levando de roldão nossos espaços de mais identidade, os mais vivos, vamos ficando com o quê? Mais lojas? Mais farmácias? Mais agências bancárias?

É com tristeza que me despeço do Sebo São José e, com muito carinho, agradeço ao Sr. José Germano da Silva pela dedicação e persistência. Sejam muito felizes, seu Zé e companhia! Vocês farão falta.
:(

Um comentário:

  1. Eu consegui passear por essas ruas com o seu texto...É difícil acompanhar as mudanças dos lugares que nós gostamos, não lembro agora de nenhum estabelecimento que eu tinha algum carinho que fechou, mas a minha cidade em si está mudando muito, meu pai tem uma oficina eletrônica há mais de 40 anos, e temos fotos de quando a rua principal era de saibro. Hoje a cada quadra tem um prédio sendo construído, como diz o Pearl Jam, "it's evolution baby" =/

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