quinta-feira, 24 de abril de 2014

Alta Fidelidade


Me parece que, se a gente coloca a música (e os livros, provavelmente assim como filmes e peças e qualquer coisa que provoque sentimentos) no centro da existência, não consegue ter uma vida amorosa resolvida, pensar nela como um produto acabado. Tem que ficar cutucando pra mantê-la viva e agitada, cutucando e desenredando até que ela desmorone e a gente seja compelido a começar tudo de novo. Talvez vivamos, todos nós que passamos os dias absorvendo material emocional, num estado de alta intensidade, e consequentemente jamais consigamos estar simplesmente contentes: precisamos estar infelizes, ou absurda e apaixonadamente felizes, e esses são estados difíceis de se obter numa relação sólida e estável. Talvez o Al Green seja responsável por mais do que eu algum dia me dei conta. (p. 166)

Como vocês já devem ter percebido, acompanho os hits literários da contemporaneidade com considerável atraso. Não é o caso de dizer que tenho preconceito com literatura contemporânea (porque há muita coisa boa por aí), mas digamos que minha avidez em ler livros antigos, consagrados, clássicos, é maior que a minha vontade de acompanhar o que há de novo. E como leio devagar, estarei eternamente atrasada. Convivo em paz com esse atraso, no entanto. Isso explica, por exemplo, o fato de que com muita frequência, acabo tomando conhecimento de certos autores pela leitura de resenhas sobre eles em lugar da leitura de seus livros. Não é o (meu) ideal, mas acaba acontecendo. E foi assim que soube da existência do Nick Hornby.

Li inúmeras resenhas que elogiavam muito o Alta Fidelidade, mas acho que fiquei com a impressão errada sobre ele. Em geral, os resenhistas destacavam o fato de o protagonista ser apaixonado por música e ter mania de fazer listas dos cinco melhores acerca de tudo. Só por isso, já fiquei muito interessada. Também eram comuns elogios ao humor do personagem, então fiquei com essa ideia de que o romance era divertido e escolhi lê-lo pensando que teria uma experiência desopilante. Não foi o que aconteceu.

Rob Fleming está na casa dos trinta e poucos, tem uma loja de discos quase falida e acaba de ser deixado pela namorada, Laura. Ele começa a enumerar os cinco piores rompimentos de sua vida, inicia uma autoanálise, e começamos a ter noção de com quem estamos lidando. Ele finge que vai demonstrar que o abandono de Laura não foi nada de tão grave, mas vai ficando claro, ao longo do romance, que isso não é verdade. Rob é uma pessoa frustrada, egoísta, mal-humorada. Mais do que isso, ele é imaturo e um verdadeiro cretino. É infiel com as namoradas, impaciente com os amigos, preconceituoso, usa as pessoas. Sua capacidade de fazer as escolhas mais equivocadas era tão grande que tive ímpetos de jogar o livro na parede, na impossibilidade de encher o personagem de tabefes.

Então, vocês indagarão: é ruim assim, Aline? Não, gente. O livro é ótimo! Um romance que consegue despertar sentimentos tão fortes no leitor em relação ao personagem só pode ser muito bom. Minha raiva não era com uma escrita ruim, problema de estilo ou de construção do personagem. Pelo contrário. Se me roí de raiva, é porque o personagem era convincente demais. Essa talvez seja a maior qualidade do romance: a capacidade de Hornby de criar personagens e situações críveis.

Percebam: terminei o livro muito mal, emputecida de verdade com o Rob, que me pareceu um dos personagens mais obtusos de que tive conhecimento. Revoltava-me o fato de que ele chegasse tão perto das melhores conclusões, das percepções mais cristalinas, e em seguida agisse como um completo babaca egocêntrico. Longe de ser desopilante, a leitura foi uma experiência deprimente. Precisei de tempo, de certo distanciamento para reconhecer a eficiência do texto de Hornby. Rob é um personagem humano demais, a ponto de causar vergonha alheia. Porque tudo por que ele passa é possível, tudo soa real demais e é narrado com uma sinceridade desconcertante.

É curioso que num livro sobre uma crise existencial, a capa seja tão descontraída e com cores tão fortes. Ela sugere uma ideia um tanto equivocada do romance, porque destaca apenas um dos seus aspectos. O drama de Rob e a indignação que o personagem me causou não estão retratados ali.

Para me reconciliar com o personagem, listarei as cinco melhores características do romance (originalidade, cadê você?):

1. Estilo narrativo. Nick Hornby escreve muito bem!
2. Os amigos, Barry e Dick, viciados em música, desajustados e incapazes de terem uma conversa séria. As passagens com eles são as mais engraçadas.
3. As listas que Rob, Barry e Dick fazem. São muito divertidas e interessantes para quem gosta de música e cultura pop.
4. Humor. Rob é irônico, autocrítico, ácido. Sua sinceridade extrema nos convida à identificação, que comigo não rolou, de fato (porque sou chata).
5. Ótima caracterização dos personagens, lugares e situações, que torna a história muito crível.


O Rob é fã dos Beatles e ouve os álbuns da banda sempre que precisa melhorar os ânimos. Isso, ao menos, temos em comum. Então, se eu tivesse que escolher uma música que o definisse, seria essa ótima canção sobre perdedores.

Although I laugh and I act like a clown,
Beneath this mask I am wearing a frown,
My tears are falling like rain from the sky,
Is it for her or myself that I cry?

Enquanto a alta fidelidade de Rob é destinada somente a si mesmo e à música, o romance, por sua vez, funciona como um espelho, buscando ser fidedigno ao refletir um aspecto que não queremos reconhecer em nós mesmos. E se a gente ainda reage mal a esse reflexo, é porque estamos no caminho certo. Alta Fidelidade é tocante, cool, envolvente e sacana, como um bom e bem afinado blues.

***
UPDATE: Esse romance faz parte do The Rory Gilmore Reading Challenge!

2 comentários:

  1. Oi, Aline! Bacana vc ter resenhado este livro, pois me peguei refletindo sobre ele esses dias.
    Tenho uma verdadeira relação de amor e ódio com essa obra. Assisti ao filme, e por ter gostado, em seguida fui ler o livro e me apaixonei. A escrita é envolvente, as referências musicais são ótimas e os personagens, bem, aí que mora meu sentimento de ódio. Apesar de considerar a obra como muito bem acabada, acredito que ela exalta demais a misoginia. O Rob é um perfeito babaca, que trata todo mundo igual lixo, principalmente as mulheres da vida dele, e o livro/filme ainda fica insistindo pra que sentimos empatia por ele. Enfim, odeio a parte de mim que gosta dessa história, mas ela existe, infelizmente.

    beijos, Aline!

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    1. Oi, Chris!
      Acho que discordo de você quando diz que o livro exalta a misoginia. O livro permite, de fato, que o protagonista seja visto como misógino, mas esse é basicamente um livro sobre um personagem babaca. Tanto que detestei o Rob. Acho difícil alguém ler esse livro e se sentir estimulado a pensar e agir como o protagonista. Algo parecido ocorre com Lolita. Os dois protagonistas são de um sincericídio tremendo e nos causam repugnância, mas nos dois a ideia de exaltação ou glamourização do que eles fazem não está presente, de modo algum.
      Acho bom que personagens assim existam porque eles existem também na vida real, e a literatura também nos ajuda a ampliar a nossa visão de mundo.

      Beijão!

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