sexta-feira, 4 de abril de 2014

Sendo DDA leve, tento conviver com ele com o mínimo de química. Não sou do tipo que perde os empregos ou sofre limitações graves na vida por causa do distúrbio, então vou levando. No geral, a minha convivência com ele é até bem administrável. Deu para passar no vestibular, ter boas notas, ser aprovada em concurso. 

Chato é ter me viciado em rotinas. Parte crucial no tratamento de quem tem DDA (ou TDAH — Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) é criar rotinas para conseguir fazer o que as demais pessoas fazem sem muitas dificuldades. Não é à toa que tenho tudo anotado em mais de um caderno e que repito rituais matinais e noturnos quase religiosamente. Parece muito chato, e às vezes é, mas reduz demais a minha ansiedade — que não é pouca. 

Qualquer mudança repentina de planos me deixa com um mau humor tremendo, que preciso me esforçar para superar e ver que, hey, essa pode ser uma mudança bem vinda, para melhor.

Oriento-me o máximo que posso para ter alguma autonomia, mas fico sempre muito chateada quando o DDA começa a me definir. Desanimo com frequência quando o vejo o monte de coisas não realizadas em virtude da minha falta de organização, da minha extrema dificuldade em focar, ou do trabalho enorme para desfocar, porque DDAs não só são dispersos como também caem na hiperatenção da qual é sempre difícil (e desagradável) sair. É nos estados de hiperatenção que sou mais criativa, que escrevo mais, que tenho montes de ideias. Dá para entender porque não se quer largar esse momento. Acontece que não é conveniente que ele adentre meu horário de trabalho, atrase minhas obrigações, minhas metas, porque, bem, eu também quero fazer coisas importantes e significativas para mim, coisas das quais vou me lembrar e me orgulhar. E porque também preciso pagar minhas contas como qualquer um. Não dá para ter delírios literários ou ficar horas vendo "inutilidades" na internet durante mais de dez horas. Daí a ansiedade imensa que me domina e o sentimento de culpa que me corrói, porque também não quero a comodidade de atribuir qualquer traço de estroinice e procrastinação ao distúrbio.

Culpa, ansiedade e insegurança são fantasmas sempre a me acompanhar, ainda que nem sempre juntos ou tão frequentemente. Ler, falar e pensar bastante no assunto me ajudam a não cair no automartírio ou na autocomiseração, mas volta e meia eu desabo. Fico um tempo na merda, pouco tempo, e me reergo. Tento dar risada. (É importante não se levar tão a sério). 

Sigo tentando escapar desses círculos, meio ouroboro que morde a própria bunda, se sabota, mas acaba se reinventando. Meio fênix, ressurgindo animada da poeira. Esses ciclos de derrota são meus velhos conhecidos, familiares o suficiente para eu saber que não duram. Outro ritual de sobrevivência adquirido com o tempo: olhar friamente a situação e me lembrar que vai passar.

3 comentários:

  1. Oi, Aline. Seu texto caiu como luva pra mim... eu nao sei se é possível que tenho o mesmo transtorno, mas muito do que vc explicou foi facil de identificar em mim. Me fez sentir um pouco mais calma e pensar em procurar saber mais e tal vez, se fosse o caso, ver como "melhorar".
    beijao

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  2. Olá Aline! Dei uma olhadinha nos seus blogs e gostei muito, temos várias coisas em comum, vi um livro do Galeano por aqui, sou muito fã dele! Abraços
    Flávia.

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  3. ai, ai, ai. Nunca fui diagnosticada, mas me identifiquei com cada palavra. Por enquanto, o controle da ansiedade por aqui é na homeopatia, mas às vezes dá uma vontade que te "desliguem" que olha ....

    Mas aí esses mantras ajudam na hora da tremedeira, "nada é tão sério que não vá passar". A gente passa por coisa muito pior, e fazer o que, tem que passar.

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