segunda-feira, 28 de abril de 2014

Um teto todo seu


Por que os homens bebem vinho e as mulheres, água? Por que um sexo é tão próspero e o outro, tão pobre? Que efeito tem a pobreza sobre a ficção? Quais as condições necessárias para a criação de obras de arte? (p.41)

Tenho certa reserva com o discurso feminista atual. Vejo certas ativistas e algumas correntes apoiando-se em conclusões falaciosas e promovendo paranoia desnecessária que em vez de enriquecer o debate e a causa, terminam por desacreditá-los. Minhas origens humildes — pobre, suburbana — só acentuaram a minha condição marginalizada, e não tenho como negar a predominância do machismo, a diferença de tratamento e de oportunidades. No entanto, certas falas que tenho visto por aí não me parecem inteiramente embasadas na honestidade intelectual.

É plano meu encarar O Segundo Sexo, de Simone Beauvoir, para que eu possa dispor dessa honestidade que cito. Não costumo tomar partido de certos assuntos publicamente porque creio que qualquer discussão séria presume o conhecimento prévio do debate histórico acerca do tema. Então, por ora, ouço, reflito e delibero em silêncio.

Algumas leituras, no entanto, foram por mim empreendidas na busca desse esclarecimento, e Virginia Woolf tem se destacado como uma voz a se escutar. O primeiro livro do tema que li, da autora, foi  Profissões para mulheres e outros artigos feministas, uma reunião de ensaios muito instrutiva com que a escritora questionava a visão tradicional e submissa da mulher, bem como refletia sobre as dificuldades que as mulheres tinham para articular a vida doméstica e o desenvolvimento intelectual e profissional. No último feriado, tive a oportunidade de ler Um teto todo seu, na linda edição da editora Tordesilhas.

Convidada para palestrar sobre o tema "Mulheres e Ficção" nas universidades Newnham College e Girton College — exclusivas para mulheres —, Woolf irá desenvolver um ensaio ficcional de rara beleza. Com muita sutileza e imaginação, a autora vai criando hipóteses, situações ficcionais, que buscam compreender as dificuldades encaradas pelas mulheres até então na empreitada de desenvolverem-se plenamente. Suas pesquisas e hipóteses perpassam os textos escritos sobre as mulheres, as biografias de escritoras  (como Jane Austen e as irmãs Brontë), a representação das mulheres na literatura, a reflexão sobre suas limitações históricas.

As mulheres de classe média começaram a escrever. Se 'Orgulho e Preconceito' é importante, e também 'Middlemarch', 'Villette' e 'O Morro dos Ventos Uivantes', então é muito mais importante que eu possa provar em um discurso de uma hora que as mulheres em geral, e não apenas as aristocratas solitárias encerradas em suas casas de campo, entre seus folhetins e seus admiradores, se dedicavam a escrever. (p.96)

O texto, desenvolvido com elegância e calma, é interrompido várias vezes por inúmeras digressões. A própria estrutura do texto parece querer nos alertar para a dificuldade que a mulher tem em desenvolver um raciocínio ininterruptamente, já que ela estaria sempre às voltas com as demandas do lar. Escritora ousada que era, Virginia leva para essa reflexão algumas inovações narrativas peculiares a sua obra literária, enriquecendo-a, ainda, com ironia fina e referências metalingüísticas.

Woolf buscará demonstrar o quão importante é a posse de uma renda e de um espaço próprio de trabalho para que a mulher possa alcançar a liberdade intelectual e, consequentemente, a excelência artística. Tal liberdade, segundo a autora, propicia o desenvolvimento de um discurso livre de ressentimento e gera uma mente andrógina — estágio elevado, que a própria autora parece ter tentado alcançar com a produção de Orlando.

Se a pessoa é um homem, ainda assim a porção mulher de seu cérebro deve produzir resultados; e a mulher também deve se comunicar com o homem que há dentro de si. Talvez seja isso que Coleridge quis dizer quando afirmou que as grandes mentes são andróginas. É quando ocorre essa fusão que a mente é fertilizada por completo e usa todas as suas faculdades. Talvez uma mente que seja puramente masculina não consiga criar, e o mesmo ocorre com a mente puramente feminina, pensei. (p. 139)

Toda essa peleja do sexo contra sexo, de qualidade contra qualidade; todo esse clamor por superioridade e essa imputação de inferioridade pertencem ao estágio colegial da existência humana, no qual há "lados" e é necessário que um lado derrote o outro, e é de extrema importância subir em uma plataforma para receber das mãos do próprio diretor um troféu ornamentadíssimo. Conforme amadurecem, as pessoas deixam de acreditar em lados ou em diretores ou em troféus ornamentadíssimos. (p. 149)

Virginia refletia sobre a relação entre as mulheres e a literatura, mas seu conselho quanto à segurança material pode (e deve) ser estendido aos demais aspectos da vida. Essa segurança pode não assegurar talento, mas decerto contribui para o desenvolvimento pleno não só do intelecto ou do fazer artístico, mas também da existência como um todo.

Um teto todo seu propõe uma reflexão necessária através de um texto delicioso, que na edição da Tordesilhas ainda conta com fragmentos dos diários da escritora e um posfácio da crítica literária Noemi Jaffe.

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Esse livro faz parte do The Rory Gilmore Reading Challenge.

2 comentários:

  1. Pois eu li O Segundo Sexo há quase 30 anos (!), no primeiro ano da faculdade! Sou velha mesmo, hehehe. Também li A Convidada, da Simone de Beauvoir e me lembro de ter gostado muito...infelizmente, não lembro de detalhes desses livros...já se foram muitos e muitos anos!

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  2. Li "A mulher desiludida", da Simone, que reúne três contos cuja premissa é a da necessidade do empoderamento feminino. Neles, a autora busca demonstrar o quão nociva é a total dedicação e submissão ao interesse masculino, seja do marido ou dos filhos, e também demonstra como a mulher não estava preparada psicologicamente para lidar com a solidão ou "se virar" sozinha.

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