terça-feira, 27 de maio de 2014

História da Eternidade


Uma das delícias de ler o Borges é apreciar as opiniões inusitadas, muitas vezes esdrúxulas, que ele tinha sobre os assuntos mais obscuros. O autor era um devorador de enciclopédias e tinha um interesse imenso pelos assuntos que deixaram a humanidade perplexa ao longo da história. Em História da Eternidade, publicado originalmente em 1936, Borges reuniu ensaios sobre alguns desse temas.

A coleção de capítulos já fala um pouco sobre a excentricidade dos interesses do autor: "História da eternidade", "As kenningar", "A metáfora", "A doutrina dos ciclos", "O tempo circular", "Os tradutores das Mil e Uma Noites", "A arte de injuriar" e o ensaio ficcional "A Aproximação de Almotassim".

Quando aborda os temas metafísicos — a eternidade, o tempo e o mito do eterno retorno —, Borges revela sua colossal erudição, que passeia de Heráclito a Nietzsche, fazendo paradas em Platão, Boécio, Santo Agostinho, Swedenborg e Schopenhauer, dentre outros. Sua postura é comprometida e honesta, mas a leitura que faz desses autores é algo abstrusa, o que o leva a conclusões incomuns, ou às mais acertadas — só que pelos caminhos mais tortos.

Suas reflexões literárias, além de cortejarem temas um tanto impopulares, como os epítetos das sagas islandesas (as kenningar), incluem as críticas um tanto arbitrárias, abusadas e, por isso mesmo, bastante cômicas do escritor de personalidade forte. Borges não só analisa a suposta ineficiência e absurdidade desses lugares-comuns dos poemas islandeses, como nos presenteia com uma listinha um tanto divertida:

coração - dura bolota do pensamento
dentes - penhasco das palavras
peito - assento das gargalhadas
escudo - lua dos piratas
abutre - galo dos mortos
cerveja - maré do corpo

Esse é só um pequeno recorte das quase seis páginas da compilação.

Esses poemas deviam fazer total sentido para o seu público original, até porque as kenningar eram expressões muito repetidas, mas para nós são praticamente incompreensíveis. Eis um pequeno trecho:

O aniquilador da prole dos gigantes
Quebrou o forte bisão da pradaria da gaivota.
Assim os deuses, enquanto o guardião do sino se lamentava,
Destroçavam o falcão da margem.
De pouco valeu o rei dos gregos
Ao cavalo que corre por recifes.

Só para se ter uma ideia, Thor e Jesus são personagens citados no excerto acima.

Curiosa é também a análise que Borges faz dos tradutores das Mil e Uma Noites. O escritor critica todo tipo de excessos: o de pudor, mas o também o de licenciosidades; o de liberdades adaptativas, mas também a mera tradução canina, sem a influência de um pouco da cultura e do estilo do tradutor; a abundância de notas explicativas, mas também a total ausência delas. No fim, desconfia-se de que ele não queira exatamente defender um tipo específico de tradução em detrimento de outro, mas que esteja interessado, na verdade, como o pesquisador curioso que é, nas soluções adotadas, nos diferentes efeitos atingidos e nos propósitos pretendidos por cada uma delas. Usuário entusiasmado de enciclopédias, o autor argentino construía sua coleção particular de peculiaridades intelectuais.

E porque ele é Borges, o rei da troça literária, vai encerrar o livro com um artigo sobre a arte da difamação e com uma pseudo-resenha sobre um livro imaginário, através da qual reflete sobre a dimensão humana.

A História da Eternidade não é recomendada para quem quer informações concretas ou definitivas sobre os assuntos tratados. Borges não costuma ser levado a sério como teórico, e sua erudição é fruto de diletantismo e liberdade, isenta de partidarismos e filiações a correntes específicas. A coletânea funciona como um divertimento intelectual proporcionado por uma mente tão impressionante quanto singular.

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