quarta-feira, 7 de maio de 2014

Ratos e Homens



Tomei conhecimento do autor americano John Steinbeck no ano passado, quando eu e Denise fizemos a maratona literária dos sete livros em sete dias. Dentre os livros que a Denise leu, estava Ratos e Homens, que ela elogiou bastante, assim como meu namorado, quando ficou sabendo que ela tinha lido. Após essas duas recomendações, fiquei com o livro na cabeça e decidi pegá-lo para ler no feriado da Semana Santa.

O romance, apesar de bem curto — tem 143 páginas nessa edição da L&PM —, é maravilhoso. Simples assim. Publicado originalmente em 1937, ele narra a história de George e Lennie, dois amigos que trabalham fazendo bicos em fazendas, durante a Grande Depressão. Os dois são completamente diferentes: George é baixinho, astuto, determinado, enquanto Lennie é grandalhão, extremamente forte, mas muito ingênuo e inocente, como se tivesse um problema de desenvolvimento mental. É George quem conduz a dupla, quem planeja onde eles vão trabalhar, e quem, de certa forma, busca defendê-los das furadas em que eles acabam se metendo por causa da inocência perigosa de Lennie.

Lennie e George chegam a um rancho em Salinas Valley para trabalhar, aparentemente fugidos da fazenda onde trabalhavam antes. Eles pretendem juntar dinheiro para comprar um pedaço de terra e, para isso, planejam economizar e se manter fora de confusão. Como se pode imaginar, as coisas tomarão outro rumo.

Os diálogos de Lennie e George são repletos de esperança, sonho e inventividade. George costuma consolar Lennie narrando a sua vida futura e descrevendo detalhes de sua propriedade imaginária. Steinbeck enfatiza a sensibilidade resistente nesses personagens embrutecidos, inseridos num ambiente árido: o sonho com uma vida melhor, o ressentimento e a dor do estribeiro negro, o amor do zelador Candy por seu cão velho e doente, a solidão generalizada.

Imagina se ocê num pudesse entrá na casa dos pião pra jogá baralho porque ocê era preto.  Ocê ia gostá? Imagina se ocê tivesse que ficá aqui sozinho, só lendo. Claro qu'ocê ia podê jogá ferradura até anoitecê, mas daí ocê ia tê que ficá lendo livro. E num tem nada de bom nos livro. A gente precisa de alguém... pra ouvi a gente. — Choramingou: — Qualqué pessoa fica loca se num tivé ninguém. (p.99)

No texto de apresentação dessa edição, comenta-se que Steinbeck desenvolvera a observação social de cunho realista, abordando a vida dos trabalhadores de classe baixa, em toda a sua obra. Mas é interessante que a apreciação psicológica desses personagens é construída de modo a revelar seus sentimentos enquanto universais. 

A gente num precisa sê inteligente pra sê bom. Às veiz, eu fico achando que é bem o contrário. Se agente pega um sujeito bem isperto, ele quase nunca é um sujeito bom de verdade. (p.59)

Outra peculiaridade de sua literatura é o realismo na apresentação dos diálogos, que emulam o linguajar específico dos grupos de trabalhadores.

Ratos e Homens é um romance de economia precisa. Sua pequena extensão não impede que os principais personagens, e mesmo alguns secundários, sejam construídos de forma ampla. George, por exemplo, combina bondade e irritação, generosidade e culpa, egoísmo e cuidado, inteligência e fraqueza. A despeito da objetividade estilística, as cenas narradas no romance são ora de uma beleza tocante, ora desoladoras. Fiquei arrasada em pelo menos três passagens do texto.

Steinbeck ganhou o Pulitzer com o romance Vinhas da Ira (que já quero ler e que tem adaptação para o cinema por John Ford) ) e também o Nobel. Ratos e Homens foi adaptado duas vezes para o cinema: em 1939, por Lewis Milestone, e em  1992, por Gary Sinise. Eis um romance com elementos cuidadosamente dosados, uma obra imensa em sua modesta materialidade.
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Livro pertencente ao The Rory Gilmore Reading Challenge

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