terça-feira, 20 de maio de 2014

#readMoreShakespeare: Rei Lear



Decidi iniciar meu projeto de #LerMaisShakespeare pela tragédia Rei Lear porque essa era uma das peças que eu nunca havia lido. Por acaso, acabei escolhendo uma das últimas e mais complexas tragédias do autor. Rei Lear é tão complicada que durante anos foi considerada impossível de ser montada de acordo com o texto original, e suas execuções nos palcos ingleses, durante 150 anos, foram mutilações que suprimiam personagens, alteravam a motivação das ações e modificavam o seu desfecho. Ao longo de todo esse tempo, o público simplesmente não teve acesso ao real texto de Shakespeare, que só foi reutilizado integralmente numa montagem já no século XIX (!!).

Após ficar mais conhecida do público e da crítica, a peça original passou a ser considerada tão importante e rica que ganhou os apelidos de "Capela Sistina" e "Nona Sinfonia" do teatro. Essa magnitude se deve não só ao brilhantismo  da trama ou à grandiosidade do protagonista, mas também ao andamento devastador da peça. 

O texto é tão cheio de detalhes que a tarefa de resumi-lo sem prejudicar seu significado se mostra consideravelmente difícil. Também não quero entregar a história toda, para não desestimular quem ainda não leu mas pretende. Tentarei apresentar os fatos essenciais, guardando os momentos mais críticos para a sua posterior leitura. Em seguida, tentarei comentar as questões que me parecerem dignas de destaque, esforçando-me por não esmiuçar demais o texto. A ideia é mostrar porque a peça é interessante e merecedora de atenção.

:)

King Lear and The Fool in the Storm - William Dyce

A PEÇA

Lear, rei da Bretanha e idoso de mais de oitenta anos, deseja despojar-se de maiores responsabilidades e preocupações nessa última fase da vida e decide dividir seu reino igualmente entre as três filhas, Goneril, Regane e Cordélia.* Antes de fazê-lo, pede que elas expliquem por que o amam, numa espécie de campeonato de declaração de amor, a fim de conceder um prêmio extra àquela que se sair melhor. Secretamente, Lear torce pela filha favorita, a caçula Cordélia, mas as coisas não saem como o esperado. Goneril e Regane oferecem discursos tão empolados e aduladores quanto falsos, enquanto Cordélia se recusa a participar dessa encenação ridícula, afirmando que o ama, sim, mas por dever e gratidão, e não por nenhum motivo extraordinário.

Irado e com o orgulho ferido, Lear deserda Cordélia, amaldiçoando-a e dividindo seu reino apenas entre as outras duas. Cordélia se casa com o rei da França, mesmo sem dote, e vai embora. É o início do infortúnio de Lear. Destituído de efetivo poder, Lear passa a ser desprezado pelas filhas mais velhas, que querem-lhe reduzir completamente a influência. Paralelamente à história principal, há a história do conde de Gloucester, que é convencido por seu filho bastardo, Edmundo, através de testemunhos e bilhetes falsos, que está sendo traído por seu filho legítimo, Edgar. Assim como Lear, Gloucester cortará laços com o filho de forma imprudente e injustificada.

Desprezado e abandonado em meio a uma tormenta, Lear acabará enlouquecendo em virtude do sofrimento. Ele vaga pela tempestade, seguido do Conde de Kent, a quem renegou. Fiel a Lear e ciente do perigo e da injustiça que se impõem, Kent decide se disfarçar, para servir, acompanhar e proteger seu rei. Juntam-se a eles, ainda, o Bobo, remanescente do séquito real, e Edgar, banido e disfarçado de louco. Mais tarde, chega também o Conde de Gloucester, que pretende alertar o rei, e que mais tarde será vítima da crueldade de Goneril. 

Um dos clichês relativos às tragédias é que todos morrem no final. Quem morre, quando, como ou por quê, deixarei para que vocês descubram quando forem ler. 

Rel Lear lamenta a morte de Cordélia - James Barry


OS BONS, OS JUSTOS E AS VÍTIMAS

Cordélia, Kent e Edgar são os incorruptíveis. Fiéis, justos e leais, representam a natureza civilizada do homem na peça. Northrope Frye e Barbara Heliodora comentam que a palavra "natureza", em Rei Lear, é muito explorada de modo a estabelecer a diferença entre a natureza humana, "gentil" (kind) e a natureza selvagem (unkind). Cordélia, Kent e Edgar, com sua civilidade, lealdade e respeito a autoridade, representam a natureza humana e gentil, normalmente garantida através do respeito às leis, aos laços familiares, à religião e à cultura.

O Rei Lear e o Conde de Gloucester não são exatamente ruins, mas agem com imprudência, são imprevidentes, vaidosos e egocêntricos, e suas ações desencadeiam uma série de infortúnios. Shakespeare chama a atenção para a responsabilidade do indivíduo, para o fato de que toda ação tem consequências — não necessariamente as pretendidas.


OS ALGOZES

Goneril, Regane (e seu marido, Duque da Cornualha), Edmundo e o assistente Oswaldo representam a natureza selvagem de quem não respeita leis, laços, autoridade ou cultura. Eles operam sob a lógica da sobrevivência do mais forte.

O BOBO

Duas palavras muito exploradas no texto são "bobo" e "tolo". Elas são usadas tanto para indicar a ingenuidade das vítimas, quanto para se referir ao Bobo do rei. Em diversos momentos, Lear, Kent e Gloucester querem crer na justiça divina, querem acreditar que os maus serão punidos e os bons recompensados. O fim da peça irá mostrar que essa não é a lógica universal, que o fim implacável atinge tanto justos quanto injustos, que não há sentido no mundo. Shakespeare aponta para a necessidade de uma visão mais ampla do mundo e da vida, menos fatalista e supersticiosa. Northrope Frye acredita que Rei Lear é a tragédia shakespeareana que mais faz sentido em nossa época, exatamente porque aborda esse dilema tão contemporâneo: o absurdo da existência.

Por outro lado, o Bobo, ao declamar versos tão sinceros e realistas, ainda que revestidos de comicidade,  atua como a consciência de Lear. Proferindo anedotas sarcásticas, que apontam os erros e infortúnios de seu rei da forma mais acachapante, o Bobo intensifica os sofrimento de Lear, ajudando-o a alcançar o entendimento.

 O APRENDIZADO DE REI LEAR

O Rei Lear tinha uma visão de mundo muito limitada e egoísta, até cair em desgraça. É quando está sofrendo, decepcionado, traído e despojado de tudo, que ele começa a aprender sobre o sofrimento humano. A partir de então, ele será capaz de se identificar com o restante das pessoas que sofrem, humanizando-se mais, amadurecendo.

Pobres dos nus, estejam onde for,
Que recebem os golpes da tormenta.
Como, sem ter abrigo ou alimento,
Hão-de poder defendê-los seus trapos,
Em tempo como este? Eu dei bem pouca
Atenção a tudo isso. Ouve, Pompa;
Expõe-te ao que suporta o desgraçado,
Para atirar a ele o teu supérfluo
E o céu ver-te mais justo.

A experiência do engano, gerada no concurso de declarações de amor, mostra-lhe que ele precisa pensar por si, que precisa se esforçar para ver além das aparências. Além disso, fora a sua decisão de deserdar Cordélia e de dar mais poder a Goneril e Regane que desencadeou a ganância, as futuras traições que sofreu, e as disputas entre as irmãs. Shakespeare queria demonstrar ao público a necessidade e a importância de que cada indivíduo assumisse a responsabilidade de seus atos.

CONCLUSÃO

Barbara Heliodora afirma que Shakespeare nutria uma paixão sem limites pela humanidade, um fascínio pelos diversos aspectos do potencial humano. Ela diz que, embora o autor buscasse evitar moralismos, toda a investigação dos processos humanos tinha por objetivo o bem da comunidade.

Rei Lear é produção de uma fase já madura do escritor, e as diversas questões nela embutidas propiciam discussões que extrapolam muito o espaço e os propósitos desse blog. No entanto, apesar de quase aleatória e sem muito critério, a escolha dessa peça para o início do projeto de leitura do autor serviu-me como verdadeiro estímulo, dada a riqueza do texto. Voltarei ao autor com mais avidez e interesse, certa de que ele há de me impressionar e surpreender algumas vezes mais.

_____________
*Optei por utilizar os nomes dos personagens empregados na tradução de Carlos Alberto Nunes.  

_____________
Algumas pessoas haviam se interessado em participar do projeto. Sintam-se à vontade para opinar, comentar ou discordar nos comentários. :) As meninas do Fórum Entre Pontos e Vírgulas ofereceram o espaço para discutirmos lá também. Então, no dia 23/05, abrirei um tópico para o Rei Lear na seção "Leituras Compartilhadas". Participem!

_____________
Outros textos consultados:

Por que ler Shakespeare. Barbara Heliodora. Editora Globo.
Falando de Shakespeare.  Barbara Heliodora. Editora Perspectiva.
Sobre Shakespeare. Northrope Frye. EdUSP.
"O teatro elisabetano". Marlene Soares dos Santos.

Um comentário: