segunda-feira, 26 de maio de 2014

#ReadMoreShakespeare:Tito Andrônico



Uma palavra resume bem a tragédia Tito Andrônico, de William Shakespeare: massacre. A quantidade de assassinatos cometidos e o requinte de crueldade que os caracteriza são tão excessivos que fiquei pensando que um novo gênero dramático poderia ter sido inventado para melhor classificá-lo. Um subgênero, talvez, a "tragédia-carniça". A violência da peça tem a atualidade dos filmes do Tarantino. Texto duro, cenas terríveis, sangue jorrando na plateia. 

Piadinhas e comparações descuidadas à parte, Tito Andrônico é tão impressionante que fiquei imaginando como suas montagens devem ter sido assustadoras. Dois personagens tem as mãos mutiladas, um deles é violentado sexualmente e tem a língua cortada.  Depois disso tudo, ainda fica andando de um lado para o outro, gesticulando, chorando, carregando bacias... Imaginem a cena dantesca. Outros dois personagens, irmãos, são decapitados e suas cabeças são entregues a seu pai em plena cena; e, porque o bardo devia estar achando a peça monótona, temos ainda um banquete de vingança com torta sabor "humanos". Isso porque Tito, o general romano que dá nome à peça, já entra em cena dizendo que perdeu 22 filhos na guerra.


Resumidamente, a história trata da série de traições e vinganças desencadeadas quando Tito dá apoio a um mau governante. Esse é o primeiro trabalho de Shakespeare na forma trágica, onde ele ainda não consegue (ou não quer) desenvolver um grande personagem, complexo ou capaz de evoluir através de seus erros (como o Rei Lear, só para citar um exemplo). A maioria dos personagens age movida apenas por vingança e, no caso do protagonista, as ações posteriores a sua desdita nada têm a ver com compreensão e amadurecimento. Ele, que é o desencadeador dos primeiros infortúnios, é também uma grande vítima e vê seus filhos sendo destroçados ao menor capricho. Acontece que ele mesmo mata um de seus filhos por motivo fútil. A violência é banalizada ao máximo aqui.

Uma curiosidade é que Aarão, um personagem declaradamente vil, que ajuda a planejar boa parte dos massacres e não se arrepende quando condenado, é exatamente quem tem um momento de ternura na defesa de seu filho recém nascido.



A peça termina com a conclusão sobre a necessidade do bom e justo governo, mas fiquei sem compreender o lugar desse banho de sangue na condução desse raciocínio. A violência por si só não é um problema, e talvez, Shakespeare pretendesse demonstrar o potencial destrutivo do homem. Entretanto, os assassinatos nunca se dão por disputas políticas, mas sim por mera vingança pessoal. A conexão entre a vendeta dos personagens e a situação governamental de Roma pareceu meio perdida nesse trabalho.

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Leitura para o Projeto Read More Shakespeare

Um comentário:

  1. Jesus! É muito sangue!
    Eu já acho Hamlet uma desgraceira só, mas essa aí parece ser outro nível. Adorei o "tragédia-carniça"!...rs
    bjo

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