segunda-feira, 30 de junho de 2014

As Virgens Suicidas



Tendo achado o Middlesex intrigante, resolvi ler também o primeiro romance de Jeffrey Eugenides, As Virgens Suicidas — romance que deu origem ao filme de Sofia Coppola. O livro narra a história das cinco irmãs Lisbon que, misteriosamente, decidem cometer suicídio. A narrativa parece se construir numa tentativa de entendimento desse ato.

Cecília Lisbon, a irmã mais nova, de apenas treze anos, é a primeira a dar cabo de si, o que desestabiliza não só sua família, mas também a comunidade. A história é contada por um narrador, já de meia-idade, que, quando adolescente, tinha, junto com seus colegas, um verdadeiro fascínio  pelas irmãs. Resguardadas por uma mãe severa e religiosa e um por um pai um tanto omisso, a vida das meninas tem toda uma atmosfera de mistério. Ninguém sabe exatamente do que elas gostam ou o que pensam. Sua beleza inebriante e suas atitudes inusitadas fazem delas verdadeiros enigmas para os moradores do bairro, em especial os adolescentes.

A perda de Cecília será a tal ponto traumática que se fará notar não somente no dilaceramento dos membros de sua família, mas no próprio ambiente. A casa vai morrendo, definhando, espelhando a deterioração espiritual dessas pessoas.

Esse narrador personagem, que não tem nome, é, de certa forma, onisciente. Ele conhece os fatos, pensamentos e sensações dos demais personagens e relata os fatos de forma um tanto melindrosa. A impressão que se tem é de que ele completa as lacunas com suas próprias suposições.  Se o discurso já não é confiável porque se apoia sobre reminiscências, ele fica ainda mais duvidoso quando percebemos que o narrador quer se convencer (e por consequência, nos convencer) da pertinência de suas hipóteses favoritas. É tentador atribuir a tragédia das meninas à repressão e à rigidez impostas pelos pais, mas a verdade é que o isolamento a que a família Lisbon se impõe não nos permite conclusões definitivas.

A narrativa preza pelo detalhe: o clima, os odores, a luz, a passagem do tempo, mesmo a morosidade, são quase palpáveis. Mas, embora anuncie de antemão os suicídios das meninas, o narrador se demora longamente para descrevê-los, como se montasse calmamente um quebra-cabeças, que adia a revelação da imagem final, e que reforça o clima de mistério e suspense da trama. Esse narrador amorfo, que parece amalgamar vários indivíduos diferentes, se agarra a cada memória que tem das meninas, cada diálogo, cada flagrante, cada parco momento dividido em companhia delas, para tentar compor um painel que permita algum esclarecimento.

Durante quanto tempo conseguiríamos nos manter fiéis às garotas? Durante quanto tempo poderíamos conservar a pura lembrança? Do jeito que as coisas estavam, já não as conhecíamos, e seus novos hábitos — abrir uma janela, por exemplo, ou jogar fora uma toalha de papel encharcada — nos levam a duvidar que as tivéssemos realmente conhecido, e a perguntar se nossa vigília não havia sido somente a impressão digital de fantasmas. Nossos talismãs não funcionavam mais. A saia escocesa de Lux, quando a tocávamos, só nos trazia uma vaga lembrança de como ela a usava no colégio — uma mão entediada brincando com o alfinete prateado, abrindo-o, deixando as pregas soltas sobre o joelho nu, prestes  a se abrir a qualquer momento, mas que nunca, nunca... (p.157)

As Virgens Suicidas antecipa recursos que Eugenides repetirá em Middlesex, o romance que lhe concedeu o Pulitzer: a vida de imigrantes gregos, o cotidiano dos subúrbios norteamericanos, o desajuste na adolescência e o já citado narrador-personagem-onisciente. Contudo, se em Middlesex a narrativa se constrói de forma tão heterogênea que prejudica a fluidez do texto,  em As Virgens Suicidas ela é precisa: prende, atrai, faz-nos reféns atentos nesse clima de tensão e mistério que não enfraquece. É um belo exemplo de condução e estilo, onde o elemento surpresa não é imprescindível para sustentar o enigma.

6 comentários:

  1. Aline, eu terminei de ler As Virgens Suicidas esse final de semana, mas acabei me decepcionando um pouco. O fato de eu ter gostado MUITO do filme da Sophia Coppola talvez não tenha ajudado...
    Enfim, vou escrever uma resenha sobre ele ainda essa semana e, se você quiser, pode dar uma lida.
    Beijo!

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    1. Vi o filme há muito tempo. Tô doida pra rever!

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    2. Foi o primeiro filme que a Sophia Coppola dirigiu. Eu adoro o estilo dela, então não foi difícil gostar do filme. Mas tem gente que odeia... Acha lento. Meu favorito dela é Encontros e Desencontros, mas também gosto muito de Um Lugar Qualquer e Maria Antonieta. Só não vi ainda The Bling Ring.
      Beijo! Depois me conte se reviu o filme mesmo! ; )
      P.S. Escrevi a resenha lá no meu blog. Não gostei tanto quanto você, então espero que não me xingue... Rs.

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    3. "Encontros e Desencontros" é lindo, um dos meus favoritos da vida! Vi o último dela, "Bling Ring" e achei apenas ok. A Denise elogiou horrores o "Virgens Suicidas". Tenho de rever djá!
      ;)
      Já li e comentei na sua resenha.

      Besones!!!

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  2. Que legal!

    Não conhecia esse livro.. porém fiquei morrendo de vontade de ler :D

    Seguindo seu Blog, que é lindoo *--*

    Bjs

    Aguardo sua visitinha :))

    http://francielebazan.blogspot.com.br/

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