sábado, 14 de junho de 2014

Not just once, not just twice

As pessoas acham engraçado quando digo que, não só releio livros com frequência, como, algumas vezes, o faço imediatamente após a primeiraa leitura. A gente quer ler tanta coisa nessa vida curta e acaba se permitindo pouco as releituras. Mas alguns livros são capazes de se gravar na alma de tal forma que, mesmo que tentemos, eles ficam ali, nos chamando em algum canto da mente, maturando... E confesso que não sou muito resistente a esses chamados. Como eu sei que ainda vou ler muita coisa que vai passar batida, ou que não terá tanto significado para mim, não lamento ter de reler algo que já me transformou para melhor e cuja releitura só tem a me acrescentar. Porque releituras costumam, com frequência, ser-me ainda mais reveladoras que as leituras iniciais. 

Borges costumava dizer que não lia muitos títulos diferentes, mas que havia lido muitas vezes os mesmos livros e que raramente os lia por inteiro. Tenho certeza de que estou a anos-luz de distância da bagagem literária de Borges, mas compartilho com ele o amor pela releitura. Quanto a largar os livros pelo meio, acontece, mas o faço com pena e sempre pensando em retomá-los mais à frente.

Eis alguns dos livros que não me deixaram partir:



Madame Bovary, Gustave Flaubert

Li três vezes. Duas por prazer e uma para o mestrado. Sou apaixonada pela história, pelos diálogos, pelo desenvolvimento da personagem e pela narrativa altamente pictórica. Acho incrível como Flaubert consegue retratar os sentimentos dos personagens na plasticidade das cenas descritas.



O velho e o mar, Ernest Hemingway

O livro me tragou. Li de uma sentada e fiquei tão comovida com o personagem e sua luta que fui incapaz de deixá-lo ir. Tive de recomeçar a leitura no minuto seguinte.





Só garotos, Patti Smith

Autobiografia que fez com que eu me apaixonasse pela Patti e por sua jornada em busca da vida de artista. Fiquei fascinada com a descrição de uma cena cultural tão rica e efervescente (os anos sessenta e setenta, meus favoritos musicalmente), com a força e obstinação da Patti, sua relação intensa e inusitada com Robert, tudo isso narrado com tanta sensibilidade por uma pessoa tão autêntica. Eu não podia abandonar o hotel Chelsea assim tão rápido e iniciei a releitura imediatamente.



Os Maias, Eça de Queiroz

Li a primeira vez para a faculdade. Não era leitura obrigatória, mas o professor, Sérgio Nazar, falava dele de forma tão apaixonada que fiquei morta de curiosidade. Como eu já gostava bastante d'O primo Basílio e d'O crime do Padre Amaro, decidi arriscar. O livro tem um início um tanto modorrento e quase achei que seria uma bomba. No entanto, me surpreendeu de um modo maravilhoso. Gosto demais da escrita do Eça, e ele sabe ser elegante, sarcástico e bem humorado como poucos. Esse livro tem não só um, mas dois dos personagens mais engraçados da literatura: Tomás de Alencar e João da Ega. Gosto tanto desse livro, que tenho bordões retirados dele e faço piadinhas internas com meu namorado a partir elementos do romance. A propósito, o primeiro apelido que dei para o meu namorado é o nome de um dos personagens. Só reli recentemente, mas o achei ainda mais genial que antes.



O Aleph, Jorge Luis Borges

 Li esse muito cedo e não entendi chongas. No entanto, em vez de me repelir, ele me atraiu. Não saía da minha cabeça. Sabe quando você começa a ler um texto e pensa "Acho que tem algo sensacional acontecendo aqui, mas não estou preparado para apreendê-lo"? Estou sempre voltando aos textos do Borges, mas O Aleph me marcou por ser o primeiro dele que li e por ser um dos mais absurdos. É um livro que vou reler ainda muitas vezes nessa vida.


E vocês, têm algum livro assim, que não os deixou ir embora, ou que ecoou em suas cabeças até vocês retornarem a ele?

***
O título do post é um verso dessa música incrível, uma das minhas favoritas da vida.

2 comentários:

  1. Oi Aline!
    Eu também sofro de procrastinação literária! Hahaha. Mas ó, Madame Bovary não deu não, a primeira já foi difícil!
    Minhas principais vítimas de releituras são As Aventuras do Sr.Pickwick, de Charles Dickens; Harry Potter e o Temor do Sábio, dentre outros.
    Acho super normal releituras, principalmente quando tô lendo um livro que não me agrada tanto quanto eu tinha imaginado.
    Beijos,

    Mari Pacheco
    http://livrosenerds.blogspot.com.br

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  2. Aline, eu também gosto de reler livros, mas geralmente espero alguns anos. Algumas releituras, por conta da maturidade, parecem até novas leituras. Ultimamente tenho relido bem menos porque minha fila de livros para ler está gigantesca...
    Confesso que encalhei na metade de Madame Bovary. A tradução que eu peguei também não estava ajudando... E O Velho e o Mar foi escrito para ser relido, né?
    Morro de vontade de ler Só Garotos porque conheço muita gente que adora.
    Beijo!

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