terça-feira, 29 de julho de 2014

#ReadMoreShakespeare: A Megera Domada


A segunda comédia de Shakespeare que li em Junho foi A Megera Domada e o fiz com certa familiaridade, visto que essa peça já foi adaptada algumas vezes para o cinema, além de ter sido adaptada como novela por Walcyr Carrasco - uma novelinha digna, até. A adaptação teen para o cinema, 10 coisas que eu odeio em você, é um filme que adoro, muito bem adaptado, inclusive (trilha sonora ótima também).




Escrita entre 1593 e 1594, a peça trata da irascível Catarina, cuja irmã mais nova, Bianca, está proibida pelo pai de casar antes dela. Como ninguém suporta o humor de cão de Catarina, a bela e doce Bianca continua encalhada, apesar de muito cortejada. Mas eis que surge Petrucchio, um fidalgo grosseirão de Verona, que quer casar com uma moça rica para aumentar seu patrimônio, não importando quem seja ou como. Dois dos pretendentes de Bianca buscam se aliar a Petrucchio para desenrolar esse casamento e liberar Bianca. 

É compreensível a frequência com que essa peça é adaptada, porque ela é cheia de artimanhas e cenas cômicas. Como em A Tempestade, há uma peça sendo encenada dentro de outra peça, e aqui, em ambos os núcleos, há vários momentos de humor. Os diálogos entre Catarina e Petrucchio são deveras engraçados:

PETRUCCHIO — Ó vagarosa rolinha, um gavião irá apanhar-te? 
CATARINA — Bruto seria para uma rolinha. 
PETRUCCHIO — Vamos, vespa; ferina sois bastante. 
CATARINA — Sendo eu vespa, cuidado com o ferrão. 
PETRUCCHIO — Há remédio para isso: arranco-o logo. 
CATARINA — Sim, no caso de o tolo vir a achá-lo. 
PETRUCCHIO — Quem não sabe onde as vespas o têm sempre? No corpinho. 
CATARINA — Na língua. 
PETRUCCHIO — Como! língua? Língua de quem? 
CATARINA — Na vossa, se em corpinho vindes falar-me. Adeus. 
PETRUCCHIO — Como! Com minha língua em vosso corpinho? Não, Quetinha; voltai; sou um cavalheiro. 
CATARINA — Vou ver isso. (Bate-lhe.) 

Diferentemente das tragédias, o tom é menos solene, a linguagem é mais simples e mais fluida, de fácil leitura. No entanto, é possível perceber certas críticas e alfinetadas de Shakespeare. No primeiro núcleo, por exemplo, o bêbado que assiste à peça mal consegue se manter acordado. Estaria o dramaturgo denunciando a pouca erudição de seu público?

Outra questão, mais patente, é a da condição da mulher na sociedade elisabetana. Discute-se, na peça, não só a submissão das moças à vontade do pai, arranjando seus casamentos ou proibindo-as de casar de forma autoritária, mas também a noção de que as mulheres deveriam ser dóceis e obedientes, e que traços marcantes de personalidade em mulheres são socialmente indesejados (A grosseria de Petrucchio também é rechaçada, mas isso não tem efeito na realização de seus desejos). Esse viés é, inclusive, trabalhado em perspectiva feminista no filme 10 coisas que odeio em você, ainda que de uma forma leve e bem humorada, mais condizente com uma comédia adolescente.

CATARINA — Minha, apenas, é toda a afronta. Tive de, forçada, ceder a mão, contra a vontade própria, a um sujeito estouvado, tipo excêntrico, que ficou noivo à pressa e ora pretende casar-se com vagar. Bem que eu vos disse que era louco varrido e que escondia sob a capa de amargas brincadeiras a grosseria própria. Porque alegre sujeito parecesse, pediria de mil jovens a mão, marcara a data do casamento, convidara amigos, fazendo publicar logo os proclamas, sem pretender, porém, casar-se nunca. A pobre Catarina doravante vai apontada ser por toda a gente, que dirá: “Olha a esposa de Petrucchio, quando Petrucchio se casar com ela!” 

Essa comédia de costumes se concentrará na tensão entre masculino e feminino, nos protocolos matrimoniais da época, bem como nas disputas amorosas. E, embora Shakespeare tenha concedido ao público essa outra visão da realidade, a feminina, a peça se conclui do modo provavelmente mais de acordo à realidade da época: o machista. O discurso exagerado dos personagens, no entanto, leva-me a crer que o autor estivesse satirizando a situação. 

Apesar do desfecho desanimador, o texto diverte e foi o que me causou menos estranhamento até agora.

2 comentários:

  1. Aline, "A Megera Domada" foi o único livro de Shakespeare que li até agora e confesso que não gostei muito. Adoro "10 Coisas que eu Odeio em Você" e adorei "O Cravo e a Rosa", mas o tom extremamente machista do livro me incomodou durante toda a leitura. Talvez você tenha razão e o tom exagerado decorra do fato de o livro ser uma sátira da sociedade da época, mas ainda assim eu achei Petrucchio detestável. Fiquei com muita pena da Catarina porque não enxerguei nos comportamentos dele nenhum traço de amor verdadeiro e nem mesmo de carinho. As adaptações transformaram A Megera Domada em uma história de amor e no livro eu não consegui enxergar isso. Os diálogos são rápidos e inteligentes, mas as piadas são machistas demais para o meu estômago pós-moderno.
    Beijo!

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    1. Ah, na peça não tem nenhum amor, né? O Petrucchio dá à Catarina do próprio remédio e ela obedece por medo, mesmo. No entanto, consegui rir de algumas passagens, e acho mesmo que Willie estava satirizando isso tudo.

      Beijoca!

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