quinta-feira, 17 de julho de 2014

#ReadMoreShakespeare: "A Tempestade"


Junho foi o mês da comédia, e a primeira delas que li foi A Tempestade. Depois de muita enrolação, eis-me numa tentativa de falar um pouco da peça.

HISTÓRIA
[contém spoilers]

A história trata de um duque de Milão chamado Próspero, estudioso das artes mágicas. Por dedicar-se em demasia aos seus estudos, Próspero acaba sendo usurpado do ducado por seu irmão, Antônio, com a ajuda do rei de Nápoles, Alonso. Acompanhado apenas de sua pequena filha, Miranda, Próspero é lançado ao mar, onde encontra uma ilha tropical que lhe servirá de refúgio. Na ilha, o nobre se depara com uma variedade de monstros, que dominará graças aos seus conhecimentos encantatórios. A partir de então, Próspero será o senhor da ilha.

Anos depois, durante uma viagem à África para casar sua filha com um outro rei, Alonso retorna à Nápoles junto de seu filho, o príncipe Fernando, Antônio (o usurpador), Sebastião (irmão de Alonso), e outros nobres. Sabendo disso, Próspero invoca uma tempestade portentosa que desvie o caminho da nau até à ilha, para que ele possa empreender seu plano de vingança. O rei de Nápoles, seu irmão e Antônio chegam naufragados em uma parte da ilha, juntamente com alguns nobres, sem Fernando, até então, desaparecido. O usurpador Antônio, então, incita Sebastião a matar Alonso para tomar o reinado de Nápoles à moda de Milão, repetindo sua trajetória de poder até o ducado. Esse plano sombrio malogra graças a Ariel, leal espírito do ar, comandado por Próspero.

ALGUMAS CARACTERÍSTICAS

Cogita-se, sem certeza absoluta, que essa seja a última peça escrita por Shakespeare e, como trabalho de um autor mais maduro, desenvolve diferentes questões: a vingança de Próspero, o amor que nasce entre Fernando e Miranda e conspirações políticas. A peça tem, ainda, um caráter metafórico a respeito dos mecanismos de poder e das relações políticas.


Comédia?

De acordo com a Poética de Aristóteles, o gênero comédia é aquele em que a peça termina com o sucesso do herói (comumente acompanhado por um casamento entre personagens). Elementos de humor, na época, não eram uma necessidade da composição, embora aparecessem com frequência. Considerando que A Tempestade termina com Próspero se reconciliando com seus inimigos e com uma promessa de casamento entre Fernando e Miranda, conclui-se que a peça integra o gênero cômico. No entanto, em virtude de seu tom soturno e grandiloquente, mais típico das tragédias, há quem se refira à peça como uma "tragicomédia".

A Tempestade como símbolo

A tempestade como símbolo é recorrente na obra de Shakespeare. Em todas as grandes tragédias ocorre uma tempestade em algum momento.G. Wilson Knight, em seu livro The Shakespearian Tempest, afirma que, ao se analisar o momento preciso em que a tempestade ocorre nas tragédias, percebe-se que ela sempre se dá no momento em que a tensão atinge seu ápice. É no momento da tempestade que o enredo atinge seu clímax e, após ela,– quase como um presságio – toma seu rumo trágico. 

Acontece que nessa peça, o conflito trágico, a queda de Próspero, acontece fora do tempo da peça, no passado, e só tomamos conhecimento dele pelo relato do nobre mago. A tempestade, assim, marca o início da resolução desse conflito externo à própria peça.

Próspero = Shakespeare

Próspero está cansado, abdica de sua valiosa magia — de forma praticamente inexplicável — em nome de um cargo político que desprezou no passado. Harold Bloom diz, em Shakespeare: a invenção do humano, que Próspero, tal qual um diretor de teatro, tem controle de todos os indivíduos da ilha (peça), e que o ato simbólico de quebrar a varinha e jogar seu livro de magia no mar coincide com a aposentadoria voluntária de Shakespeare. O dramaturgo, no pleno domínio de sua arte, estaria se sentindo entediado, sem concorrência ou desafio, e acabara optando por se retirar.

CONCLUSÃO

Apesar de todas essas peculiaridades, A Tempestade não se apoia num plot claro (com quebra da situação inicial, conflito, clímax e desfecho), nem em personagens fortes. Por esse motivo, a obra não me cativou, não me prendeu. No entanto, como despedida simbólica do bardo no mundo do teatro, é um trabalho singelo, sereno e otimista, com recursos e referências interessantes.

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