sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Little pieces of my week


E aí, pessoas? Tudo bem com vocês?

Sexta passada matei as saudades dos nachoooos do Zack's. Registrei minha gatinha musa tirando onda na poltrona de leitura. Também saboreei uma sopinha caprese no festival de sopas do Otto Café. E li o lindo Habibi, do Craig Thompson, para a categoria de graphic novel do Desafio Livrada 2014. Essa semana também iniciei meu canal no YouTube (já tem três videozinhos lá) e vendi vestidinhos que não usava mais no meu bazar. No fim se semana, deu para assistir a dois filmes, Atlantic City, do Louis Malle (adorando o trabalho desse diretor), e Kanal, do Andrzej Wajda, muito bom também. E estou fazendo o Picture Challenge Livros, no Instagram. Na quarta, assisti a uma ótima apresentação da Orquestra Barroca da Unirio com o boy e amigos e fiz uma foto presepeira no estúdio onde faço pilates. Ontem assisti a um filme muito louco, mas muito interessante do Herzog: Cobra Verde, que foi filmado no Brasil, na Colômbia e em Gana. E hoje vim trabalhar com um casacão pesado por causa do frio delícia que está fazendo aqui no Rio. Como comentei no Instagram, sinto-me meio Pequeno Príncipe quando o uso, rsrs.

Agora me dêem licença que vou comer um feijoada vegana no Govinda. Tenham um lindo fim de semana!

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A primeira vez que ouvi minha banda favorita #rotaroots

Vi esse post no blog na Renata, sobre mais um tema do Rotaroots. Devo dizer que sigo o grupo do Rotarrots no facebook e que só não estou oficialmente inscrita porque não entendi como funciona o lance do bannerzinho lá. A titia aqui é anciã e não manja os paranauê das interneids.

Well... Qual será minha banda favorita? BEATLES, né? :D Alguma dúvida? Inclusive, esse tema é o que mais traz visitas aqui pro blog.




Provavelmente, ouvi Beatles, de forma não-consciente um sem-número de vezes, sem saber do que se tratava. Só fui ter real noção de quem eram, para além do nome de uma banda da juventude dos meus pais, quando a Globo exibiu o documentário Beatles Anthology. Meus pais costumavam gravar vários documentários que passavam altas horas da noite para ver nos seus momentos de folga. Como eu era uma pré-adolescente desocupada e curiosa, assistia à tarde, depois do colégio. (Foi numa dessas, a propósito, que assisti um documentário maravilhoso sobre cinema. Será que alguém lembra?)

Beatles Anthology foi um divisor de águas na minha vida. Eu tinha 13 ou 14 anos e me tornei uma pessoa "beatlelada", como diz minha mãe, desde então.

 Nos primeiros episódios, estava achando tudo bacaninha e empolgante, mas não extraordinário. Até que vi o Paul cantando "Yesterday". 



Naquele momento, eu me apaixonei, com todo o exagero e inocência de uma pré-adolescente. Acho que nunca havia sentido algo parecido com aquilo: admiração, encantamento... Parecia que um novo mundo havia se aberto para mim, que uma realidade mais bonita havia se revelado. Depois de reprisar ensandecidamente os episódios dessa fase da beatlemania ("A Hard Day's Night", "Help"), comecei a assistir os episódios anteriores de novo e tudo o que veio depois só aumentou o meu fascínio. A série foi exibida em cinco episódios, se não me engano, e no seu término eu já era uma beatlemaníaca sem salvação.

Fui fuçar os discos e fitas do meu pai para ver se encontrava alguma coisa e me deparei com "Abbey Road".



Deus, o efeito era entorpecente e eu estava viciadíssima. Inclusive, curti depressão por não ter feito parte daquela época. Todos os meninos ficaram instantaneamente desinteressantes e passei tardes e mais tardes ouvindo as músicas da banda em looping, e assistindo à fita vhs com o documentário até que ela ficasse mega desgastada. Na locadora do meu bairro, tinha um outro documentário inglês sobre eles cuja locação eu renovava continuamente, causando estranhamento nos atendentes.

Meu pai achou bonitinho, mas minha mãe ficou notadamente preocupada porque eu parecia meio louca, mesmo. Acabei me desconectando, por um tempo, das coisas e pessoas da minha idade. Eu estava na oitava série e meus colegas de sala achavam aquilo esquisitíssimo. E o curioso é que eu pouco me lixava para a incompreensão alheia, eles não entendiam, não tinham visto o que eu vi. (hahahaha) Podiam falar o que quisessem, desde que eu tivesse minha dose diária de Beatles. Não disse que fiquei doida?



Obviamente, esse furor todo começou a fenecer e a adquirir feições mais saudáveis e menos assustadoras. Ainda assim, as músicas dos Beatles me ajudaram a superar muitos momentos ruins como solidão, rejeição, bullying e o divórcio dos meus pais. Por causa dos Beatles, comecei a estudar inglês, escrever poemas, estudar violão, praticar desenho (eu fazia retratos da banda ou só do Paul). Fora que os Beatles me abriram as portas para outras bandas da década de sessenta. Como eu procurava informações sobre eles, sempre acabava lendo uma coisa outra sobre a música e a cultura da época. Esse, certamente, foi o início do meu encantamento com a cultura retrô. Posso dizer que boa parte da pessoa que me tornei  (amante das artes em geral, basicamente) é resultado do meu contato com a banda. E sou gratíssima por esse encontro. ♥

***

E vocês? Qual a sua banda favorita e como aconteceu o seu encontro?

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

TAG: Banco Literário

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

5 Programas de TV que marcaram a minha vida #rotaroots

Mais um post com tema surrupiado do Rotaroots, que vai ser bem difícil de responder porque fui uma criança/adolescente teleguiada e poderia citar muitos programas marcantes. Como o post não está estipulando a idade, vou enumerar alguns de quando eu já estava crescidinha.

Anos Incríveis



Descobri essa série numa temporada de férias na casa da minha avó. Depois, não conseguia mais acompanhar diariamente porque ela passava num horário em que eu ainda não havia voltado do colégio. Mas me lembro que fiquei completamente apaixonada pela série, amava as narrações em off do Kevin adulto, achava tão nostálgica. Mas era um prazer fugidio, de feriado, férias etc. Foi dessas coisas que descobri do nada e que do nada sumiu do mapa. Mas cuja lembrança sempre me causa uma sensação boa. Acho que vou procurar para baixar!


Minha Vida de Cão (My so-called life)


Essa série me surpreendeu muito na época e me causou identificação imediata. Acho que foi o primeiro programa que assisti que abordava o grupinhos de freaks e desajustados. Sentia-me demais como a Ângela, com a diferença de que não tinha um Jared Leto para me dar uns pegas na hora do recreio. 

O Mundo de Beakman

 

É antiga a minha identificação com a área de humanas. Sempre fui a guria que devorava os livros paradidáticos e que ganhava concursos de redação. Apesar de achar as ciências químicas, matemáticas e biológicas mais complicadinhas, sempre considerei-as fascinantes. Foi com um certo pesar que constatei que me eram praticamente impenetráveis. Um consolo, no entanto, era o programinha O Mundo de Beakman. Era divertido demais, mesmo nos episódios em que rolava nojeira. O mais fofo é que meu pai adorava o programa e assistia comigo e meu irmão. :)

Buffy, a Caça-Vampiros

Se hoje as adolescentes ficam histéricas com Bella e Vampiro Edward, na minha época ficávamos loucas com Buffy e Angel. Só que, em Buffy, o casal era rival — muito mais dramático —, e a Willow, melhor amiga ruivinha, era bruxa. A porta do inferno se localizava bem no colégio (how convenient!) e eles se reuniam no bacanudo bar chamado Bronze. Fora que o Angel era um homenzarrão sexy, e não um magricela que brilha. Eu amava os cabelos da Buffy e as roupinhas da Willow, e adorava mais ainda conversar sobre a série com o Thiago e a Cláudia, meus amigos do curso de inglês. Acho que todo adolescente precisa de uma história de vampiro para a formação apropriada de seu caráter.


Gilmore Girls




A favorita da vida. Amor eterno, amor verdadeiro. A série que aborda a vida e a amizade de uma mãe e sua filha, com muitas piadinhas e referências pop. Comecei a assistir no SBT, que traduziu o título para "Tal mãe, tal filha". Coleciono os boxes, sei frases de cor, fiz parte de site de fãs. Outro divertimento que compartilhava com o mano. O dia é sempre mais feliz se tem as doideiras da Lorelai. ♥

***

Contem-me sobre os programas favoritos de vocês!

TAG: Confissões de uma Bibliófila



Estou ensaiando fazer um canal literário, mas tenho até medo de anunciar isso porque as chances de essa ideia morrer por excesso de preguiça não são poucas. 

Comecei respondendo uma TAG e cometendo um monte de gafes, rsrs. Com o tempo, pego o jeito (assim espero). Pelo menos agora vocês terão acesso ao meu lado mais tosco, hahaha.

Beijinhos!

domingo, 24 de agosto de 2014

Desapego de vestidos

Mês que vem é meu aniversário e quero renovar as energias por aqui. Por isso, separei montes de coisas para doar e vender. Como quero que elas "andem" de fato, os preços estão bem convidativos. Abaixo, alguns dos vestidos à venda lá na minha lojinha.


Tem vestidinhos da Oh, Boy, da Antix, da Intuitif... Passem na lojinha e vejam mais detalhes!
;)

sábado, 23 de agosto de 2014

Little pieces of my week


O Little pieces essa semana está sendo publicado no sábado, enquanto eu, provavelmente, estou iniciando a faxina do apê. Será que vocês já acordaram? Será que estão se preparando para passear?

Comprei umas bandeirinhas de pano no Elo 7, mas agora não sei onde pendurá-las. A ideia era colocar nos apoios das prateleiras, mas enchi a área abaixo dela de quadros e, se for acrescentar mais alguma coisa lá, vai favelizar o ambiente. Pus uma fileira embaixo do pôster dos Beatles, por enquanto, e a outra na parede do meu quarto.

Filminhos!!! Destaque para Macbeth, do Polanski, para A fonte da Donzela, do Bergman, e para Ratos e Homens, de Lewis Milestone, que são muito bons! Os do René Clark: Entr'Acte é muito louco e dormi no Paris Adormecida. :P

Comprei na Sephora essa caixinha de miniaturas da Benefit em forma de livro. Que coisa lin-da!

Essa semana terminei o magnífico Macbeth! Resenha em breve!

Também andei experimentando novos sabores: arroz de açafrão e filé de frango com queijo e aspargos, no Otto Café - delícia! O cheese cake de framboesa é do Atelier do Trigo.

Acima alguns looks: saia longa + camiseta = coringão da preguiça, até porque nenhuma dessas peças precisou ser passada. \o/
No terceiro look, estou estreando um vestidinho azul e no quarto, meu kimono boho.

Essa semana também terminei de ler o Rayuela e fiz resenha. As discussões no fórum já começaram.

;)

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Que se escreve quando se está feliz?



quando a vida fez-se ouvir
e os matizes verteram intensos
os dedos sossegaram
e a palavra se guardou

não há mistério nisso
ou recusa

há uma beleza quieta
de quem abriu os ouvidos à música
e cantou

as palavras não morreram,
apenas estão descansando
deram espaço às aves selvagens
que com vôo bailado
rabiscam traçado novo

as palavras sempre voltam,
mas precisam de algo pra refletir...


Eu queria tanto escrever mais aqui no blog. Noto que vocês curtem quando escrevo, embarcam comigo nas reflexões, e isso é bacana demais. Mas, normalmente, a minha vontade de escrever nasce de impasses, questões por resolver e pulgas atrás da orelha.

Escrever é, para mim, uma maneira de pensar nas coisas. É estranho, mas parece que penso com mais clareza escrevendo. Tanto que tenho inúmeros textos não publicados, por serem pessoais demais, mas que me ajudaram a desatar nós e exorcizar fantasmas.

Mas o que a gente escreve quando está feliz? Como escrever coisas felizes sem soar piegas, cafona ou conselheira de autoajuda? Fiz uma matéria no mestrado sobre escrita diarística e autobiográfica, e vi que vários autores afirmavam que o volume de escrita pessoal aumentava na mesma proporção em que as vivências (ou as experiências mais memoráveis) diminuíam. Resumindo: nos momentos felizes, a gente quer é viver as coisas com intensidade, e não nos recolher à reclusão intelectiva.

Só que às vezes eu queria tanto dividir com vocês as coisas boas, o calorzinho no coração, e não sei bem por onde começar. Queria dizer que a vida vai indo bem, sim, obrigada. Que amo minha casa, meu bairro, minha família, meu namorado. Que estou lendo coisas legais à beça. Que o pilates está me fazendo maravilhas, e há dois meses não sinto dores na coluna. E que sou grata por cada minuto que me mantenho longe das emergências e pronto-atendimentos. Que estou dormindo que é uma maravilha. E que tem dias em que eu como até três frutas, vejam só! E que estou curtindo minhas roupinhas sem me perder no consumo desenfreado.

Equilíbrio, meus caros. Que bem ele faz! Ultimamente até a faxina está me deixando de bom humor. Tenho me esforçado para manter o meu ponto de ebulição o mais alto possível e para dar ao mais reduzido número de pessoas o poder de me desestabilizar. Não quero desperdiçar energias com o que me faz mal.

E, nesse processo, a arte tem sempre papel importante. Os filmes, as músicas e as leituras criam uma fortaleza dentro de mim que me suaviza. Posso ser despojada de qualquer bem, mas não desse amálgama cultural que me colore o espírito. Ele me acompanha, me preenche, me dá substância, serenidade e perspectiva.

Aiai... Como terminar esse texto? Agradecendo a Deus, ao universo, às boas energias... Agradecendo a cada um de vocês por ser tão atencioso e educado comigo. E desejando-lhes que se encontrem e, a quem já se encontrou, que permaneçam nessa vibe iluminada. Hahahaha. Muito hippie esse texto, eu sei. Mas é limpinho.

:)


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Rayuela: um romance jazzístico que não me embalou


Para qué sirve un escritor si no para destruir la literatura?


Vou começar essa resenha já sendo controversa: Rayuela — ou O jogo da Amarelinha, como na tradução brasileira — é dessas leituras mais interessantes na teoria do que na prática. Tendo lido e apreciado bastante outros quatro livros do Cortázar (resenhas aqui e aqui), eu tinha expectativas bem elevadas em relação à sua obra obra mais famosa e radical. No entanto, devo dizer que minha relação com ela não foi das mais fáceis.

Duas razões combinadas influíam na minha demora em iniciá-lo: a extensão e o fato de a minha edição ser em espanhol. As leituras compartilhadas dos Espanadores e do Fórum Entre Pontos e Vírgulas, no entanto, animaram-me a finalmente desbravá-lo.

Publicado em 1963, Rayuela trata da vida e das divagações de Horácio Oliveira, argentino que passa uma temporada em Paris, onde se relaciona com uma mulher identificada como Maga, e discute assuntos filosóficos, estéticos, musicais, existenciais etc. com um grupo de amigos. O livro é divido em três partes: Del Lado de Allá, Del Lado del Acá e De Otros Lados (Capítulos Prescindibles). A primeira parte trata da fase parisiense de Oliveira, a segunda aborda o retorno à Argentina, onde Horácio convive com o amigo Traveler, e a terceira reúne uma série de citações de outros escritores e recortes de jornal. Na introdução, o autor informa que os capítulos podem ser lidos tanto na ordem normal, como numa ordem proposta por ele, ou, ainda, na ordem que o leitor quiser, pois o romance, é, na verdade, vários romances. Escolhi ler na ordem proposta pelo autor.

Para quem já tem alguma leitura das obras do escritor, o romance não é de todo surpreendente. Há o nonsense, o humor, o narrador personagem não-confiável, a invenção exacerbada, as reflexões de matiz existencialista — elementos recorrentes em seus contos. No entanto, há um claro projeto estético de ordem revolucionária. Fica patente durante a leitura que o romance quer forçar ao limite as características clássicas do romance e da arte literária como um todo. A linguagem tradicional já não é capaz de dar conta desse novo romance e é reinventada quase à destruição: neologismos são formados, idiomas são misturados, a coesão é infringida. A lógica que liga fatos e personagens é uma lógica própria, única, desafiadora. Muitos fatos e ações dos personagens não fazem sentido e só é possível conhecer os indivíduos dessa história de forma precária e parcial. Tudo é apenas sugerido, deixando para o leitor uma atmosfera constante de tensão, hesitação e dúvida. É interessante que esse clima é, não só, orgânico do romance, como também instituído entre o texto e o leitor.

(...) lo más absurdo de estas vidas que pretendemos vivir es su falso contacto. Orbitas aisladas, de cuando en cuando dos manos que se estrechan, una charla de cinco minutos, un día en las carreras, una noche en la ópera, un velorio donde todos se sienten un poco más unidos (y es cierto, pero se acaba a la hora de la soldadura). Y al mismo tiempo une vive convencido de que los amigos están ahí, de que el contacto existe, de que los acuerdos o los desacuerdos son profundos y duraderos. Cómo nos odiamos todos, sin saber que el cariño es la forma presente de este odio, y cómo la razón del odio profundo es esta excentración, el espacio insalvable entre yo y vos, entre esto y aquello. Todo cariño es un zarpazo ontológico, che, una tentativa para apoderarse de lo inapoderable, y a mí me gustaría entrar en la intimidad de los Traveler so pretexto de conocerlos mejor, de llegar a ser verdaderamente el amigo, aunque en realidad lo que quiero es apoderarme del maná de Manú, del duende de Talita, de sus maneras de ver, de sus presentes y sus futuros diferentes de los míos.(cap. 78)

Algo que me incomodou bastante durante a leitura foi a consciência constante de que o romance era um projeto estético muito específico. A história não era suficiente para me prender e alguns capítulos eram tão banais (no que diz respeito ao enredo) que eu lia correndo para que acabassem logo. Isso ocorreu principalmente com os capítulos da segunda parte. Rayuela tem momentos tão aleatórios que soou para mim com um filme da Nouvelle Vague, o que não é exatamente um elogio, visto que não tenho muita paciência com a maioria dos filmes desse movimento. O tempo inteiro eu tinha em mente que estava diante de um romance escrito por um escritor-teórico para um público especializado o suficiente para compreender o que ele estava propondo. Há personagens secundários que servem de duplos do próprio autor e citações que corroboram o projeto de escrita do romance. A própria noção de vários romances em um só é algo que só faz sentido para quem percebe que a leitura intercalada de capítulos com vistas a fazer com que cada leitor estabeleça relações específicas entre os fragmentos é a indicação de que a definição de romance está sendo reformulada. O leitor não vai encontrar diferentes histórias fechadinhas e coerentes a cada nova ordem de leitura, porque estamos diante de uma obra aberta, onde nada é definitivo.

(...) el escritor tiene que incendiar el lenguaje, acabar con las formas coaguladas e ir todavía más allá, poner en duda la possibilidad de que este lenguaje esté todavía en contacto con lo que pretende mentar. (cap. 99) 

Uma outra característica marcante do romance é a relação com o jazz. O ritmo jazzístico é tomado como a via possível de transcender, na vida e na arte. Horácio fala o tempo todo de um estado superior, de uma busca pelo absoluto, o céu no final da amarelinha, que está ligado fortemente ao jazz, conforme ele mesmo declara:

(...) el jazz es como un pájaro que migra o emigra o inmigra o transmigra, saltabarreras, burlaaduanas, algo que corre y se difunde (...) es inevitable, es la lluvia y el pan y la sal, algo absolutamente indiferente a los ritos nacionales, a las tradiciones inviolables, al idioma y al folklore: una nube sin fronteras... (cap.17)
Para Oliveira, o jazz é o caminho para a evasão do mundo cotidiano, a passagem a um estado onde o homem pode superar sua mediocridade. Rayuela é um romance jazzístico em sua própria estrutura, improvisa, salta, cai, desrespeita formatos estanques, é errático e leva o gênero para um outro nível. Só que essa inconstância me incomodou porque ela não permite que a gente mergulhe no romance. E, convenhamos, esse não é um romance para "se perder". Ele tem, sim, passagens de suspirar de tanta beleza, mas sua narrativa tem artifícios que querem ser percebidos, é um livro com muita metalinguagem e com muitos recursos linguísticos que existem para serem notados, por isso não há fluidez.

Não posso dizer que detestei o romance porque eles tem passagens memoráveis que me agradaram de verdade, assim como momentos de humor e nonsense (características que eu já apreciava nos contos). O enredo, no entanto, é frágil, quase inteiramente composto por flashes cuja organização lógica vamos tecendo ao longo da leitura, escrevendo o romance junto com o autor — e essa participação nossa, claro, não é mero acidente.

Por outro lado, a condição de monumento estético do romance acabou me afastando porque não houve suficiente prazer na leitura. Em inúmeros momentos, o artifício se impunha e o texto soava deveras calculado. Noutros, os acontecimentos eram muito aleatórios e desimportantes. E isso me foi ainda mais penoso por se tratar de um autor cujo trabalho me agrada bastante. Penso que alguém teria de compor um romance como esse em algum momento, não é mesmo? Esse tipo de experiência artística nos leva a refletir sobre estatutos consagrados e a perceber novas concepções, significados e alcances do fazer artístico. O 4'33'' do Cage e o mictório do Duchamp tiveram sua importância na reflexão sobre a arte, ainda que poucos chegassem a gostar deles de verdade. A comparação talvez seja injusta, porque sei que muita gente gosta verdadeiramente de Rayuela, mas esse romance não deve entrar nem no meu top 50. É uma façanha intelectual e, por isso, tem seu valor. Mas não me arrebatou.

***

OBS1: Agora é tomar coragem para ler Ulysses, do Joyce,  e o Avalovara, do Osman Lins. Sobrevivi a Água Viva, da Clarice (que amo, a propósito), e a Mrs. Dalloway (que não achei a coca-cola toda que muitos falam), da Virginia Woolf, embora tenha abandonado As Ondas, dessa mesma autora. Ainda assim, tenho fé! rsrs Qual a experiência de vocês com livros revolucionários, descontrutores, inovadores e coisas do gênero?

OBS2: Vamos aproveitar e incluir o romance na categoria de livro com mais de 500 páginas do Desafio Livrada 2014!
;)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Little pieces of my week


Como a semana passou voando! Mal dei por isso! Também... Esses últimos dias foram bastante cheios, tanto que estou aqui, deveras sonada. Zzzzzz...

Terminei de ler Famílias terrivelmente felizes, do Marçal Aquino, que achei apenas ok: estilo bem seco e temática um tanto repetitiva. O livro matou a categoria de livros de contos do Desafio Livrada 2014.

Meu namorado me surpreendeu com lindos presentes! Um gaveteiro para cds que paquerávamos há tempos e dois livros incríveis: Anna Karenina, que quero ler logo, e Shakespeare: Teatro da Inveja, do René Girard. Como não amar??? ♥♥♥

Sábado fomos ao show da Roberta Sá, no Sesc, e foi bem animado. A programação musical do Sesc é muito bacana, com precinhos bem atrativos. Eles também têm coisas interessantes no teatro. Mês passado,  apresentaram Vestido de Noiva, do Nelson Rodrigues, e esse mês apresentarão O canto do cisne, de Tchékhov.

Estou às voltas com Rayuela e, como diria a Kátia: não está sendo fácil. Houve momentos em que realmente amei o livro, mas ele é bastante desigual e viajante. Vamos ver como termina. Ele também será aproveitado para o Livrada, na categoria do livro com mais de quinhentas páginas.

Essa semana também registrei a adorável vitrine da livraria da Travessa, repleta de barquinhos. Como disse a Patrícia, no Instagram, dá vontade de se afogar. ♥

Os motivos da "cheiúra" da minha semana foram pessoais, envolvendo família, e não constaram das minhas atualizações instagramianas. Hoje vou conferir um encontro de corais à noite, mas pretendo passar o resto do fim de semana recobrando energias, quietinha, lendo e vendo filminhos com o boy.

Ótimo fim de semana pra vocês!
;)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

I'm doing it for the fun





Dia desses percebi que, nesse mês, ultrapassei o número de livros lidos no ano passado. Tá, legal... Se vocês me perguntarem qual foi a minha reação diante dessa constatação, não poderei dizer que foi nenhuma, mas também estaria mentindo se dissesse que exultei ou fiz dancinha escondida na baia do trabalho. É uma conquista, se assim posso chamar, considerável, mas o que ela significa, se é que significa alguma coisa?

Quem tem intimidade comigo, sabe que tenho múltiplos interesses. Sou formada numa área ligada à literatura e ler é, definitivamente, um dos meus hobbies, mas eu também gosto de ver filmes, ouvir música, acompanhar séries, passear de dia... Tudo mais ou menos com a mesma intensidade. E com calma. A despeito do meu jeito lerdo tranquilo, minha cabeça é um turbilhão. Organizo-me o máximo que posso para não fazer nada com pressa, para não abrir mão de coisas essenciais como dormir o suficiente, comer direito, ter meus momentos de relaxamento e lazer,  atropelando ou sacrificando o mínimo possível de coisas.

Gosto de ler blogs e acompanhar canais literários e, meio sem perceber, aderi a uma série de desafios de leitura e aumentei bastante a minha lista de autores que quero conhecer. Quando decidi participar desses desafios, meu objetivo não era só ler mais, mas ler coisas diferentes, sair um pouco da minha zona de conforto, conhecer tipos diferentes de livros. No que acho que fui muito bem sucedida. Sempre tive dificuldade de acompanhar lançamentos e autores contemporâneos, mas esse ano já dei uma ou outra incursão nessas esferas. Bacana!

O problema é que, tendo percebido que estava lendo mais e mais rápido, entrei numa piração que me deixou meio estressada. Foi a mesma coisa de quando eu fazia musculação. Sim, salto ornamental no assunto aqui, mas é que tem muito a ver. Quando eu malhava, emagreci tão rápido que virei a louca da maromba: ia pra academia diariamente, comia aquelas barrinhas asquerosas de proteína, fazia dieta pensando nos músculos, um horror! Tanto que distendi o trapézio e inflamei o joelho um par de vezes.

Essas coisas me levam a me perguntar se há uma Aline obsessiva lá no fundinho da minha pessoa lenta e distraída. No exame psicotécnico da autoescola, a examinadora me disse que eu era muito competitiva e recomendou que eu tomasse Maracugina diariamente, o que achei de uma tremenda falta de noção, visto que ela concluiu isso a partir de uma série de exercícios de múltipla escolha e rabisco. Mas, enfim, faço piada com o episódio até hoje.

A questão é: preciso mesmo ler cinco livros por semana? Que diferença isso fará, de fato, na minha vida? Ler é algo já completamente incorporado a minha rotina, porque sou curiosa mesmo, um livro puxa o outro, e acho isso uma delícia! Mas também quero aquele tempo de ruminar o livro, sabe? De pensar sobre ele com calma, de pegar aquele outro livro velho que tem tudo a ver com ele e reler, sim, reler. Reler os livros bons, os livros marcantes, ou aqueles para os quais ainda não estávamos preparados. E de passar uma semana sem ler nada, se me der na telha.

Não quero trepar um livro no outro, me dá angústia, e, do jeito que sou desmemoriada, essas leituras aceleradas e imediatamente justapostas acabarão se perdendo no meu esgotamento mental. É uma necessidade minha, o meu jeito. Preciso sorver as coisas com calma, no meu ritmo, sem afobação.

Gosto de aproveitar quando o fórum escolhe algum livro do meu interesse, por exemplo, para aproveitar os debates, e adoro recolher dicas de amigos com gosto parecido, mas não quero sofrer por todas as coisas incríveis de que todo mundo está falando que eu não conheço ainda. Não estou trabalhando com isso, não vai me dar mais dinheiro, não vou ganhar a estrelinha da leitora frenética. (acho que vou entoar esse mantra nos momentos críticos). Não quero que um dos meus divertimentos favoritos se torne causa de angústia e ansiedade. Já basta a vida com seu elenco de eventos fora do meu controle.

Vou ler muito, ainda, sim, porque é mágico (ok, call me hippie ) e porque aprendo coisas novas. Mas quero fazê-lo com espontaneidade e equilíbrio, o mesmo equilíbrio que busco nas demais esferas da minha vida. Vou manter minhas listinhas na lateral do blog porque lhes tenho apego (já comentei mil vezes aqui no blog que vivo de listas e anotações em virtude da memória ruim e da desorganização). Também vou manter meus desafios em andamento porque li muita coisa realmente boa graças a deles.

Só não quero saber de pressa e desespero. Cito o Borges:

"Paso con lentitud, como quien viene de tan lejos que no espera llegar."

E complemento: leio muito e lerei, mas o faço por diversão. E por filosofia, rs.

;)

Poesia: um santo remédio







terça-feira, 12 de agosto de 2014

Playlist: que há de novo? [Agosto 2014]



Banda do Mar - Muitos Chocolates
The Furrs - Little Boy
Franz Ferdinand - Stand on the orizon
First Aid Kit - My silver lining
Temples - Shelter Song
Real State - Had to Hear
Foxygen - How can you really

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Little pieces of my week

Essa semana tivemos essa blusa linda da Poeme-se, com versos do Augusto dos Anjos. Essa loja é uma coisa! Dá vontade de comprar tudo! 

Também tivemos o Admirável Mundo Novo, com que comecei de forma bem torta, mas que agora, já no final, estou gostando mais. Apenas: dezenas de citações de Shakespeare! ♥ 

Aí estão as fotos da minha cabeleira ruiva. Estou apaixonada pela cor! 

E meus novos óculos de gatinho: um num rosa quase lilás e o outro vermelhinho. Mas não vou aposentar o meu nerdão azul escuro. Já pus lentes novas nele também. B-) 

Nessa semana também tive do que me orgulhar. Comi muito bem, de forma saudável, a semana toda! Levei minha lancheirinha improvisada com comida natureba, salada e duas frutas. Hoje à noite, no entanto, já posso iniciar jaqueira do fim de semana. :P

***

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Minhas referências na ruivice

Daí que fiquei ruiva, né? Não foi fácil, já pintei o cabelo umas seis vezes, testando, experimentando, até que agora estou bem feliz com a cor. Não tentei copiar a cor do cabelo de ninguém específico, mas há algumas ruivas que são minhas referências de beleza. Ei-las:

Melisandre - Game of Thrones



Surpreendentemente, quase não há boas fotos da cabeleira desse bruxa safada na internet. Ela é sombria e dá medo, mas sua cor de cabelo foi a maior referência para mim. A cor do meu está bem próximo do dela, só que com luzes.

Donna - That's 70's Show




That's 70's Show é uma das minhas séries favoritas da vida. E o estilo "molecona-que-não-sabe-que-é-sexy" dela sempre me encantou. A Laura Prepon já apareceu por aí loira e morena, mas é ruivinha que a acho mais bonita.

Lizzie Siddal - modelo, poeta, pintora, musa dos 
pré-rafaelitas e amante de Dante Gabriel Rosseti


Ela era grandona, tinha traços marcantes, e sofreu na companhia de Dante Gabriel. Mas ficou eternizada em belíssimas pinturas.


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

#ReadMoreShakespeare: "Vida e Morte do Rei João"


Serei sincera com vocês: essa foi peça que me agradou menos até agora. Vida e Morte do Rei João foi o primeiro drama histórico escrito por Shakespeare, e que li para o projeto #ReadMoreShakespeare, no mês passado. A peça trata de João, filho de Henrique II e Leonor da Aquitânia, que tem seu trono reclamado pelo sobrinho Arthur, auxiliado pelo rei de França, Felipe.

Em primeiro lugar, a peça é um tanto confusa. Linhagens enumeram-se seguidamente na tentativa de justificar o direito ao trono. E, como Shakespeare parte de uma obra de fonte anônima, chamada O perturbado reino do Rei João, admitindo suas incorreções, nem dá para recorrer à história com vistas a entender bem do que se trata.

É uma peça toda escrita em versos, que se concentra nos desmandos do reinado do chamado João sem Terra. Fazendo contraste com esse rei corrupto, há a figura imaginária de Felipe (outro Felipe, sem ser o rei da França), o Bastardo, que teria sido filho ilegítimo de Ricardo Coração de Leão, e que era leal, corajoso e honrado. São dele as melhores falas da peça.

O drama discute, basicamente, a volubilidade das decisões políticas: acordos e alianças são firmados e desfeitos com grande facilidade.

E, citando Barbara Heliodora:

Tendo optado por atribuir todas as virtudes do bom governante a um personagem não histórico, Shakespeare fica com um final fraco para a peça, cujos únicos aspectos positivos são o imediato juramento de fidelidade do Bastardo ao príncipe herdeiro e sua fala final, belo trecho de amor à pátria.

Senti falta de personagens mais marcantes ou de reviravoltas mais surpreendentes. De modo geral, achei a peça mediana.

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OBS1: Esse mês teremos Macbeth! \o/

OBS2: A montagem de Moacir Chaves para Rei Lear é bastante inusitada, mas muito, muito boa. Os recursos que ele propôs funcionam muito bem. Recomendo muitíssimo! Tentei descobrir se iam se apresentar novamente e onde, mas não consegui encontrar nada a respeito. Se vocês souberem que essa montagem — com as atrizes Paula de Renor, Sandra Possani e Bruna Castiel — vai chegar a sua cidade, tentem conferir. Vale a pena!


terça-feira, 5 de agosto de 2014

Playlist: Os brutos também amam



A playlist dessa semana (quem dera fossem semanais, mas nem...) reúne canções daqueles caras charmosérrimos, bêbados e "todos-errados", que destroem o nosso coração com sua doçura toda peculiar.

You and Me- Alice Cooper
Satellite of Love - Lou Reed
Into My Arms - Nick Cave
Cryin' - Aerosmith
All My Love - Led Zeppelin
Haunted - Deep Purple
Angie - Rolling Stones
Changes - Black Sabbath


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Julho de 2014 - o que teve

Assistindo...


 Shame, Steve McQueen ♥♥♥ O roteiro é bastante simples, mas que atuação do Fassbender!


 As Virgens Suicidas, Sofia Copolla ♥♥♥♥ Revi depois de ler o romance e devo dizer que a Sofia conseguiu uma adaptação muito boa aqui. Achei no youtube um making off bacana, com a participação do autor do romance, Jeffrey Eugenides. Parte 1 / Parte 2.


 Alta Fidelidade, Stephen Frears ♥♥♥ Outro que resolvi assistir depois de ler o romance. Achei apenas ok.

House of Usher, Roger Corman ♥♥♥ Filme de horror muito bem produzido, inspirado no conto de Poe, "A Queda da Casa de Usher". Tem Vincent Price e suas expressões impagáveis!


 Toda Forma de Amor,  Mike Mills ♥♥♥♥ Doce.


 A dupla vida de Veronique, Krzysztof Kieślowski ♥♥♥♥ Poético e transcendente.


 Nazarin, Luis Buñuel ♥♥♥ Um bom filme.



O Grande Hotel Budapeste, Wes Anderson ♥♥♥♥ Engenhoso.



Um método perigoso, David Cronenberg ♥♥♥ Filme austero, com boas atuações.




Trinta Anos Esta Noite, Louis Malle ♥♥♥♥♥ Triste, sensível, preciso e profundo. Linda trilha sonora de Erik Satie e fotografia impecável.


Lendo...

Depois dos Quinze, Bruna Vieira ♥♥♥ [Desafio Livrada 2014 - Categoria Livro escrito por alguém com menos de quarenta anos] O projeto gráfico é muito caprichado. As crônicas são sensíveis, têm boas sacadas, mas os temas se repetem bastante.

Beethoven, Bernard Falconnier ♥♥♥♥

Vida e Morte do Rei João, William Shakespeare ♥♥ Drama histórico mediano e sem personagens marcantes.

Paixões - amores e desamores que mudaram a história, Rosa Montero ♥♥ Achei muito documental. Esperava algo mais ensaístico, com mais reflexões.

A vida do livreiro A.J. Fikry, Gabrielle Zevin ♥♥♥♥ Um bom exemplo de como livros leves podem ser bons. História inspiradora, com surpresas e reviravoltas, sem excessos, e com uma precisão estilística admirável. [Desafio Livrada 2014 - Categoria "Livro publicado pela primeira vez essa ano"]

O Lugar Sem Limites, José Donoso ♥♥♥♥

Melhores Poemas, Dante Milano (seleção de Ivan Junqueira) ♥♥♥♥ Uma grata descoberta. [Desafio Livrada 2014 - Categoria "Livro de poemas"]

Ouvindo...

Estou gostando bastante do som do The Furrs! Eles só lançaram dois singles, mas se mostraram promissores.


Também ouvi muito o Beethoven, por causa da biografia. Aqui, uma de suas sonatas mais impressionantes, a Hammerklavier.

E as novas do Spoon, "Do you" e  "Inside Out".

sábado, 2 de agosto de 2014

Dante Milano



Sol Forte

De olhos abertos enfrentei o assombro.
Tudo o que existe vem de um vago outrora.
Se contemplo o universo, não me assombro.
E o tempo eterno é para mim esta hora.
Não posso erguer o mundo no meu ombro,
Deixo-o rolar. Ao contemplá-lo agora
A terra me parece um rude escombro.
Eu me recordo de que em certa aurora
Quis ver o céu — só vi a imensidade...
Nisto medito, embora pouco importe.
Donde provém tanta perplexidade?
Porque, sobre o mistério, um sol tão forte
Que revela a existência e esconde a morte:
Tanto sonho e tão pouca realidade!

Momento

Esqueço-me dos anos, e dos meses,
E dos dias, das datas. Mas às vezes
Lembro-me de momentos. Rememoro
Um que me fez chorar. E ainda choro.
Recordo-me de uma hora, céu cinzento,
A terra sacudida pelo vento,
Um terrível momento escuro e imundo
Em que me vi perdido e só no mundo,
Sob os trovões, e estremecendo às vezes
Entre relâmpagos e lividezes...
Lembranças, não antigas, mas presentes.
Lembranças, não saudades, as ausentes.
Sem novas esperanças que despontem
O dia de hoje me parece ontem.
Nenhuma data, em mim, nenhuma festa.
Meu amanhã é o pouco que me resta.
Eu sou o que não fui e o que quis ser.
Já fiz o que me resta por fazer,
E bem no fundo de meu ser obscuro
Lembro-me antigamente do futuro...


Dante Milano (1889-1991), poeta de São Cristóvão, RJ, foi amigo de Manuel Bandeira, João Cabral, Murilo Mendes, Villa-Lobos e Mário de Andrade. Tinha verdadeiro horror à fama, frequentou pouco os círculos literários e fez questão de não ser publicado, exceto em suplementos literários e revistas. Seu único livro publicado em vida, Poesias (1948), saiu à sua revelia, por intervenção de amigos, e ganhou o prêmio Filipe de Oliveira (de importância correspondente ao atual Jabuti). Milano escreveu, ainda, ensaios literários e traduziu poemas de Baudelaire, Mallarmé e Dante Alighieri.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Little pieces of my week

Semana deliciosa de inverno, com direito a muitas e boas leituras, filminhos, show, looks invernais e comidinhas saudáveis. Essa semana, curiosamente, consegui comer bem e pouco, coisa rara. Numa ida ao Beduíno, restaurante árabe aqui do Centro do Rio, fiquei só no falafel com tahine e saladinha. 

Queria ter me inscrito na Maratona Literária 3.0 de leitura, mas por causa de uma crise monstra de sinusite, não consegui. Ainda assim, cumpri a meta que teria estabelecido, que era ler três livros durante a semana.  Yay! Na verdade, li quatro, se incluirmos a peça Vida e Morte do Rei João, que li para o projeto #ReadMoreShakespeare. Parece pouco, mas eu trabalho, né gente? O Admirável Mundo Novo, comecei ontem e ainda estou no início.
 

Tão mais legal bolar looks no inverno! ♥