quinta-feira, 14 de agosto de 2014

I'm doing it for the fun





Dia desses percebi que, nesse mês, ultrapassei o número de livros lidos no ano passado. Tá, legal... Se vocês me perguntarem qual foi a minha reação diante dessa constatação, não poderei dizer que foi nenhuma, mas também estaria mentindo se dissesse que exultei ou fiz dancinha escondida na baia do trabalho. É uma conquista, se assim posso chamar, considerável, mas o que ela significa, se é que significa alguma coisa?

Quem tem intimidade comigo, sabe que tenho múltiplos interesses. Sou formada numa área ligada à literatura e ler é, definitivamente, um dos meus hobbies, mas eu também gosto de ver filmes, ouvir música, acompanhar séries, passear de dia... Tudo mais ou menos com a mesma intensidade. E com calma. A despeito do meu jeito lerdo tranquilo, minha cabeça é um turbilhão. Organizo-me o máximo que posso para não fazer nada com pressa, para não abrir mão de coisas essenciais como dormir o suficiente, comer direito, ter meus momentos de relaxamento e lazer,  atropelando ou sacrificando o mínimo possível de coisas.

Gosto de ler blogs e acompanhar canais literários e, meio sem perceber, aderi a uma série de desafios de leitura e aumentei bastante a minha lista de autores que quero conhecer. Quando decidi participar desses desafios, meu objetivo não era só ler mais, mas ler coisas diferentes, sair um pouco da minha zona de conforto, conhecer tipos diferentes de livros. No que acho que fui muito bem sucedida. Sempre tive dificuldade de acompanhar lançamentos e autores contemporâneos, mas esse ano já dei uma ou outra incursão nessas esferas. Bacana!

O problema é que, tendo percebido que estava lendo mais e mais rápido, entrei numa piração que me deixou meio estressada. Foi a mesma coisa de quando eu fazia musculação. Sim, salto ornamental no assunto aqui, mas é que tem muito a ver. Quando eu malhava, emagreci tão rápido que virei a louca da maromba: ia pra academia diariamente, comia aquelas barrinhas asquerosas de proteína, fazia dieta pensando nos músculos, um horror! Tanto que distendi o trapézio e inflamei o joelho um par de vezes.

Essas coisas me levam a me perguntar se há uma Aline obsessiva lá no fundinho da minha pessoa lenta e distraída. No exame psicotécnico da autoescola, a examinadora me disse que eu era muito competitiva e recomendou que eu tomasse Maracugina diariamente, o que achei de uma tremenda falta de noção, visto que ela concluiu isso a partir de uma série de exercícios de múltipla escolha e rabisco. Mas, enfim, faço piada com o episódio até hoje.

A questão é: preciso mesmo ler cinco livros por semana? Que diferença isso fará, de fato, na minha vida? Ler é algo já completamente incorporado a minha rotina, porque sou curiosa mesmo, um livro puxa o outro, e acho isso uma delícia! Mas também quero aquele tempo de ruminar o livro, sabe? De pensar sobre ele com calma, de pegar aquele outro livro velho que tem tudo a ver com ele e reler, sim, reler. Reler os livros bons, os livros marcantes, ou aqueles para os quais ainda não estávamos preparados. E de passar uma semana sem ler nada, se me der na telha.

Não quero trepar um livro no outro, me dá angústia, e, do jeito que sou desmemoriada, essas leituras aceleradas e imediatamente justapostas acabarão se perdendo no meu esgotamento mental. É uma necessidade minha, o meu jeito. Preciso sorver as coisas com calma, no meu ritmo, sem afobação.

Gosto de aproveitar quando o fórum escolhe algum livro do meu interesse, por exemplo, para aproveitar os debates, e adoro recolher dicas de amigos com gosto parecido, mas não quero sofrer por todas as coisas incríveis de que todo mundo está falando que eu não conheço ainda. Não estou trabalhando com isso, não vai me dar mais dinheiro, não vou ganhar a estrelinha da leitora frenética. (acho que vou entoar esse mantra nos momentos críticos). Não quero que um dos meus divertimentos favoritos se torne causa de angústia e ansiedade. Já basta a vida com seu elenco de eventos fora do meu controle.

Vou ler muito, ainda, sim, porque é mágico (ok, call me hippie ) e porque aprendo coisas novas. Mas quero fazê-lo com espontaneidade e equilíbrio, o mesmo equilíbrio que busco nas demais esferas da minha vida. Vou manter minhas listinhas na lateral do blog porque lhes tenho apego (já comentei mil vezes aqui no blog que vivo de listas e anotações em virtude da memória ruim e da desorganização). Também vou manter meus desafios em andamento porque li muita coisa realmente boa graças a deles.

Só não quero saber de pressa e desespero. Cito o Borges:

"Paso con lentitud, como quien viene de tan lejos que no espera llegar."

E complemento: leio muito e lerei, mas o faço por diversão. E por filosofia, rs.

;)

7 comentários:

  1. Eita Line, que sintonia, penso muito nisso ultimamente. No meu caso eu sempre fui (sou) muito voraz em relação a tudo (sentimentos, comida, bebida, obsessões, assim como você falou com o exemplo da academia). Quando eu decido fazer algo eu vou tão fundo e com tamanha intensidade que sempre tenho que lidar com as consequências... seja um corpo que adoece ou a perda do contato com pessoas queridas, entre outras coisas. Essa é uma característica minha, não vou mudar radicalmente isso eu sei, mas ultimamente tento fazer tudo mais devagar para "evitar a fadiga" como diria o Jaiminho! E vou guardar seu texto para os momentos em que eu estiver me afogando em alguma coisa :D
    Beijos!

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  2. Gosto demais das coisas e do jeito que você escreve. Texto delicioso. Parabéns!

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  3. Me identifiquei com você Aline, também acho que há tempo para tudo e que não devemos nos atropelar por nada! Eu chamo as minhas leituras de "modo oriental", quer dizer eu leio um pouco e depois se algo me chamou atenção no texto eu fico divagando sobre aquilo, viajando mesmo, o que faz minha leitura ser mais lenta. Gosto até de fazer pesquisas na internet sobre imagens dos lugares onde se passa uma história, às vezes sobre um quadro ou uma música que foram citados, para melhor me ambientar e entrar na atmosfera do livro rs. Não sei se é maluquice minha, mas eu gosto desa prática! Às vezes me dá agonia a pilha de livros que tenho que ler, mas não tem jeito, comigo é devagar e sempre! ;) Beijos!

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  4. Ler é muito bom... Nunca fui muito de ler livros, mas ultimamente tenho lido mais, e minha meta é ler pelo menos uns 20 livros ao ano, acho que isso já tava bom pra mim. Imagina ler cinco por semana? Não daria conta. Eu gosto de terminar um livro e claro, se eu gostar dele, ficar lembrando da história ainda por alguns dias, viajar um pouco mais nele mesmo tendo terminado. Não conseguiria sobrepor assim. ;) Vai com calma! ^^

    Bjs.
    www.feufolandia.blogspot.com

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  5. Nossa, amei esse texto, Aline! Uma vez minha psicóloga me disse que todas as pessoas, por mais "normais" que seja, são neuróticas. Cada um tem a sua neurose, claro, mas acho que isso é uma técnica de sobrevivência a esse mundo hostil que a gente tem que aprender a controlar. Neurose em excesso vira obsessão, TOC, doidisse mesmo... Rsrsrsrs.
    Eu sempre li no meu ritmo, mas desde que criei o blog venho sentindo uma pressão externa maior para ler mais, mais rápido e ler o que os outros querem que eu leia. Com tanta exigência, me peguei deixando de lado meus guilty pleasures, me justificando pra os outros. E venho refletindo muito sobre isso. Quem tem o direito de dizer que sou fútil porque li um YA ou um livro erótico?
    É como o mestre Lenine canta:
    Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
    Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
    A vida não para

    Enquanto o tempo acelera e pede pressa
    Eu me recuso faço hora vou na valsa
    A vida é tão rara

    Beijo! =D

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  6. Desacelerar... Ato louvável nos dias de hj.

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