quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Rayuela: um romance jazzístico que não me embalou


Para qué sirve un escritor si no para destruir la literatura?


Vou começar essa resenha já sendo controversa: Rayuela — ou O jogo da Amarelinha, como na tradução brasileira — é dessas leituras mais interessantes na teoria do que na prática. Tendo lido e apreciado bastante outros quatro livros do Cortázar (resenhas aqui e aqui), eu tinha expectativas bem elevadas em relação à sua obra obra mais famosa e radical. No entanto, devo dizer que minha relação com ela não foi das mais fáceis.

Duas razões combinadas influíam na minha demora em iniciá-lo: a extensão e o fato de a minha edição ser em espanhol. As leituras compartilhadas dos Espanadores e do Fórum Entre Pontos e Vírgulas, no entanto, animaram-me a finalmente desbravá-lo.

Publicado em 1963, Rayuela trata da vida e das divagações de Horácio Oliveira, argentino que passa uma temporada em Paris, onde se relaciona com uma mulher identificada como Maga, e discute assuntos filosóficos, estéticos, musicais, existenciais etc. com um grupo de amigos. O livro é divido em três partes: Del Lado de Allá, Del Lado del Acá e De Otros Lados (Capítulos Prescindibles). A primeira parte trata da fase parisiense de Oliveira, a segunda aborda o retorno à Argentina, onde Horácio convive com o amigo Traveler, e a terceira reúne uma série de citações de outros escritores e recortes de jornal. Na introdução, o autor informa que os capítulos podem ser lidos tanto na ordem normal, como numa ordem proposta por ele, ou, ainda, na ordem que o leitor quiser, pois o romance, é, na verdade, vários romances. Escolhi ler na ordem proposta pelo autor.

Para quem já tem alguma leitura das obras do escritor, o romance não é de todo surpreendente. Há o nonsense, o humor, o narrador personagem não-confiável, a invenção exacerbada, as reflexões de matiz existencialista — elementos recorrentes em seus contos. No entanto, há um claro projeto estético de ordem revolucionária. Fica patente durante a leitura que o romance quer forçar ao limite as características clássicas do romance e da arte literária como um todo. A linguagem tradicional já não é capaz de dar conta desse novo romance e é reinventada quase à destruição: neologismos são formados, idiomas são misturados, a coesão é infringida. A lógica que liga fatos e personagens é uma lógica própria, única, desafiadora. Muitos fatos e ações dos personagens não fazem sentido e só é possível conhecer os indivíduos dessa história de forma precária e parcial. Tudo é apenas sugerido, deixando para o leitor uma atmosfera constante de tensão, hesitação e dúvida. É interessante que esse clima é, não só, orgânico do romance, como também instituído entre o texto e o leitor.

(...) lo más absurdo de estas vidas que pretendemos vivir es su falso contacto. Orbitas aisladas, de cuando en cuando dos manos que se estrechan, una charla de cinco minutos, un día en las carreras, una noche en la ópera, un velorio donde todos se sienten un poco más unidos (y es cierto, pero se acaba a la hora de la soldadura). Y al mismo tiempo une vive convencido de que los amigos están ahí, de que el contacto existe, de que los acuerdos o los desacuerdos son profundos y duraderos. Cómo nos odiamos todos, sin saber que el cariño es la forma presente de este odio, y cómo la razón del odio profundo es esta excentración, el espacio insalvable entre yo y vos, entre esto y aquello. Todo cariño es un zarpazo ontológico, che, una tentativa para apoderarse de lo inapoderable, y a mí me gustaría entrar en la intimidad de los Traveler so pretexto de conocerlos mejor, de llegar a ser verdaderamente el amigo, aunque en realidad lo que quiero es apoderarme del maná de Manú, del duende de Talita, de sus maneras de ver, de sus presentes y sus futuros diferentes de los míos.(cap. 78)

Algo que me incomodou bastante durante a leitura foi a consciência constante de que o romance era um projeto estético muito específico. A história não era suficiente para me prender e alguns capítulos eram tão banais (no que diz respeito ao enredo) que eu lia correndo para que acabassem logo. Isso ocorreu principalmente com os capítulos da segunda parte. Rayuela tem momentos tão aleatórios que soou para mim com um filme da Nouvelle Vague, o que não é exatamente um elogio, visto que não tenho muita paciência com a maioria dos filmes desse movimento. O tempo inteiro eu tinha em mente que estava diante de um romance escrito por um escritor-teórico para um público especializado o suficiente para compreender o que ele estava propondo. Há personagens secundários que servem de duplos do próprio autor e citações que corroboram o projeto de escrita do romance. A própria noção de vários romances em um só é algo que só faz sentido para quem percebe que a leitura intercalada de capítulos com vistas a fazer com que cada leitor estabeleça relações específicas entre os fragmentos é a indicação de que a definição de romance está sendo reformulada. O leitor não vai encontrar diferentes histórias fechadinhas e coerentes a cada nova ordem de leitura, porque estamos diante de uma obra aberta, onde nada é definitivo.

(...) el escritor tiene que incendiar el lenguaje, acabar con las formas coaguladas e ir todavía más allá, poner en duda la possibilidad de que este lenguaje esté todavía en contacto con lo que pretende mentar. (cap. 99) 

Uma outra característica marcante do romance é a relação com o jazz. O ritmo jazzístico é tomado como a via possível de transcender, na vida e na arte. Horácio fala o tempo todo de um estado superior, de uma busca pelo absoluto, o céu no final da amarelinha, que está ligado fortemente ao jazz, conforme ele mesmo declara:

(...) el jazz es como un pájaro que migra o emigra o inmigra o transmigra, saltabarreras, burlaaduanas, algo que corre y se difunde (...) es inevitable, es la lluvia y el pan y la sal, algo absolutamente indiferente a los ritos nacionales, a las tradiciones inviolables, al idioma y al folklore: una nube sin fronteras... (cap.17)
Para Oliveira, o jazz é o caminho para a evasão do mundo cotidiano, a passagem a um estado onde o homem pode superar sua mediocridade. Rayuela é um romance jazzístico em sua própria estrutura, improvisa, salta, cai, desrespeita formatos estanques, é errático e leva o gênero para um outro nível. Só que essa inconstância me incomodou porque ela não permite que a gente mergulhe no romance. E, convenhamos, esse não é um romance para "se perder". Ele tem, sim, passagens de suspirar de tanta beleza, mas sua narrativa tem artifícios que querem ser percebidos, é um livro com muita metalinguagem e com muitos recursos linguísticos que existem para serem notados, por isso não há fluidez.

Não posso dizer que detestei o romance porque eles tem passagens memoráveis que me agradaram de verdade, assim como momentos de humor e nonsense (características que eu já apreciava nos contos). O enredo, no entanto, é frágil, quase inteiramente composto por flashes cuja organização lógica vamos tecendo ao longo da leitura, escrevendo o romance junto com o autor — e essa participação nossa, claro, não é mero acidente.

Por outro lado, a condição de monumento estético do romance acabou me afastando porque não houve suficiente prazer na leitura. Em inúmeros momentos, o artifício se impunha e o texto soava deveras calculado. Noutros, os acontecimentos eram muito aleatórios e desimportantes. E isso me foi ainda mais penoso por se tratar de um autor cujo trabalho me agrada bastante. Penso que alguém teria de compor um romance como esse em algum momento, não é mesmo? Esse tipo de experiência artística nos leva a refletir sobre estatutos consagrados e a perceber novas concepções, significados e alcances do fazer artístico. O 4'33'' do Cage e o mictório do Duchamp tiveram sua importância na reflexão sobre a arte, ainda que poucos chegassem a gostar deles de verdade. A comparação talvez seja injusta, porque sei que muita gente gosta verdadeiramente de Rayuela, mas esse romance não deve entrar nem no meu top 50. É uma façanha intelectual e, por isso, tem seu valor. Mas não me arrebatou.

***

OBS1: Agora é tomar coragem para ler Ulysses, do Joyce,  e o Avalovara, do Osman Lins. Sobrevivi a Água Viva, da Clarice (que amo, a propósito), e a Mrs. Dalloway (que não achei a coca-cola toda que muitos falam), da Virginia Woolf, embora tenha abandonado As Ondas, dessa mesma autora. Ainda assim, tenho fé! rsrs Qual a experiência de vocês com livros revolucionários, descontrutores, inovadores e coisas do gênero?

OBS2: Vamos aproveitar e incluir o romance na categoria de livro com mais de 500 páginas do Desafio Livrada 2014!
;)

4 comentários:

  1. Olha, o livro pode não ter sido a leitura que todos esperavam, mas que está rendendo ótimas resenhas, isso está... Já li a sua e a da Lua e estão incríveis! Antes de conhecer você e a Dê, meu universo literário na Argentina estava meio que restrito ao Borges e a Alfonsina Storni, confesso! Depois de vocês me aproximei mais do Cortázar, li o Bestiário e alguns contos de coletâneas e assim como você, esse lado "non sense" também me atraiu bastante, o que me levou a pensar em um dia (olhe a quantidade e ses hahahaha) ler O jogo da Amarelinha! Mas agora acho que vou adiar mais um pouco. Essa pretensão que alguns autores tem me irrita também e já basta ter que encarar Ulisses por causa da psicanálise! Quem sabe um dia ler em espanhol, como você fez, deve ser uma experiência muito rica :)
    Mais uma vez: resenha incrível!!!
    Beijos!

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  2. Aline, incrível como tivemos visões parecidas! Sua resenha está realmente incrível! Acho que a chave da questão você delineou bem: o prazer da leitura foi prejudicado e não quero ser o tipo de leitora que abre mão disso pra parecer intelectualizada, apesar de que como você comentou, há pessoas que leram com prazer, claro. Beijão!

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  3. acho que tem muitas referências no livro, que funcionam como metáforas reificadoras de expressão, dessas que ninguém acessa completamente sem pesquisar um pouco - estou preparando a relação de cada uma delas - sem compreende-las, cansamo-nos e acredito que seja a razão para o desânimo de alguns leitors

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    1. Opa! Se puder, divulgue a sua pesquisa pra nós! ;)

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