sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Lolita




Lolita, luz de minha vida, labareda de minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo.Li. Ta. (p.11)

Mais de dez anos se passaram até que eu reencontrasse Humbert Humbert. Da primeira vez, não tive estômago: abandonei o livro deveras enojada. Esse tempo foi importante para que eu pudesse encarar Lolita — romance mais famoso do autor russo Vladimir Nabokov — como o que ele é: uma obra de ficção.

Publicado em 1955, Lolita narra o romance entre o já maduro professor de literatura Humbert e a jovem filha de sua senhoria, Dolores Haze. O texto goza de grande popularidade por si só, mas também em virtude das adaptações para o cinema feitas por Stanley Kubrick, em 1962, e por Adrian Lyne, em 1997. Eu fazia uma ideia bem diferente da história, porque o que acabou se popularizando com o termo "lolita" foi uma espécie de atitude espevitada associada a uma sensualidade juvenil. Acontece que o romance é bem mais que isso.

A narrativa tem o formato de um relato pessoal que Humbert teria deixado aos cuidados de seu advogado para publicação. Este teria entregue o manuscrito para um Dr. em Filosofia para que ele o revisasse. É deste intelectual o prefácio ficcional que apresenta Humbert e comenta brevemente os aspectos estéticos, clínicos e morais do texto.

Humbert começa falando de sua juventude, descrevendo o relacionamento que teve na adolescência que, segundo ele, teria dado origem a suas preferências sexuais heterodoxas. Seu relato demonstra que ele sabia que seu desejo por meninas era impróprio e o quanto ele lutou contra esse sentimento, escondendo-o com medo de ser rechaçado, tentando aliviar suas urgências com prostitutas e até mesmo se casando. A verdade é que Humbert era muito covarde, morria de medo de ser pego ou descoberto e limitava-se a contemplar o que ele chamava de "ninfas" — jovens meninas de sexualidade latente — nas praças e lugares que elas frequentavam. Até esse momento, por mais perturbadora que seja a descrição de seus desejos, é possível encará-lo como vítima de um mal que ele não consegue combater por mais que tente. Ele repete, inúmeras vezes, que não pretende violar nenhuma criança. É claro que, como narrador em primeira pessoa, ele não é nada confiável e pode, não só estar dourando a própria pílula, como também estar sendo traído pela memória. Mas a questão é que, durante a parte inicial do romance, é possível encará-lo com um olhar mais imparcial, vendo nele um homem doente e atormentado.




A questão é que os fatos se desenrolam de modo muito conveniente para ele. As circunstâncias que ele nunca imaginou possíveis praticamente pulam no seu colo, permitindo que ele aja com considerável segurança. É aí que a coisa encrespa, do ponto de vista do enredo. Sem entrar em grandes detalhes para não entregar a história  a quem não leu, o relacionamento de Humbert com Lolita é odioso. É revoltante e triste ver a que a adolescente será reduzida, além de todas as privações por que ela passará. Para piorar o turbilhão de sentimentos que o romance causa, Humbert vai se revelando mais e mais patético. E aqui tem destaque a competente narrativa construída por Nabokov.

Eu te amei. Era um monstruoso pentápode, mas como te amava. Era desprezível, brutal, torpe – tudo isso e muito mais, mais je t’aimais, je t’aimai! E houve momentos em que sabia como você se sentia, e era um inferno sabê-lo, minha menina querida. Minha pequena Lolita, minha corajosa Dolly Schiller! (pg. 288)


A Lolita a que temos acesso é a que o protagonista vê. Seu sobrenome, Haze, "bruma" em inglês, já denuncia que estamos transitando por um universo baço, impreciso, que essa menina teimosa e lasciva pode não ser exatamente como é descrita. Mais adiante no texto, esse sobrenome vai assumindo suas outras significações: "humilhar", "maltratar".

Humbert é um intelectual e narra com elegância, seu vocabulário é castiço, e mesmo suas piadas tem um quê de pedantismo de burguês do velho continente. Suas descrições de pessoas e lugares são eficazes, proporcionando uma viva ambientação, enquanto a descrição do aspecto carnal evita a vulgaridade, preferindo sugerir a pormenorizar. É o caráter psicológico do protagonista que reforça a sensação de repugnância. Ver aquele homem engomado, fresco e dependente usurpar a vida de uma jovem causou-me uma repulsa que raramente senti por personagens da literatura.

Quanto ao aspecto formal, há, ainda, momentos de suspense bem sustentados e uma revelação perto do fim da história que aumentam o magnetismo do texto. Creio que o trunfo desse romance é atrair ao mesmo tempo em que enoja, porque odiei Humbert durante o livro quase todo, torci muito para que Lolita fugisse, e não conseguia abandonar o livro. Eu precisava saber! Se não terminei o livro antes é porque precisava dar conta das minhas obrigações.

O romance é um tanto lento, o que não considero um problema, porque o volteio entorno de certas questões me pareceu pertinente com a personalidade de Humbert. É como se ele tentasse reviver os fatos lembrados.

É difícil ler esse romance sem parar para pensar nas questões sociais e psicológicas que envolvem a infância e a pedofilia. Contudo, é importante lembrar que estamos diante de uma obra de ficção, não de um texto apologético ou de uma espécie de manual, como li numa resenha.

Este foi um caso em que a releitura salvou o texto. Tivesse eu desistido do romance de vez, teria perdido uma grande leitura, ainda que sobre um tema difícil. Lolita é primorosamente escrito, mas também é perverso, um texto de "fruição", tal como define o teórico Roland Barthes: "aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta". É uma leitura intrigante que desafia e obriga à reflexão detida, por isso, enriquece.

***
Leitura feita para o debate no Fórum Entre Pontos e Vírgulas

8 comentários:

  1. já tentei duas vezes, nunca dei conta...

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  2. Vi você falando que não tinha conseguido terminar ele uma vez, eu até vi uma parte do filme, mas não terminei, sempre quis comprar o livro, acho que agora vai.

    bjs

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  3. Livraço, das melhores coisas que li na vida.

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  4. Adorei sua resenha, porque só vi os filmes (aliás, estou até escrevendo sobre isso, livro e filme, e vice versa). Fiquei com vontade de procurar críticas feministas ao filme, porque a Lolita que você descreve do romance é completamente diferente das dos filmes, que são construídas como vilãs perversas e sem coração que destroem a vida do pobre Humbert.
    Beijão

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    1. A Lolita do livro não é nem um pouco vilã. Apenas sem juízo. E Humbert não é nenhum coitadinho, sabe tomar proveito da situação e é cruel (apesar de patético). Deve ter resenha feminista a rodo falando desse livro, não?

      Beijinhos!

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  5. Line, terminei ontem e ainda estou confusa! Sua resenha está incrível, acho importante ressaltar alguns pontos como essa romantização que foi feita da Lolita. O livro é muito cruel.
    Eu estou em dúvida sobre o quanto gostei do livro na verdade, a segunda parte achei muito arrastada e queria que ele terminasse logo. Mas eu gostei do livro, quero reler algum dia, por causa da escrita maravilhosa do Nabokov.
    Com certeza Humbert é um dos personagens mais odiosos. Eu assisti recentemente um filme chamado O lenhador, que foi muito polêmico por retratar o pedófilo de uma forma mais humana. Eu confesso que tenho meus problemas com esse assunto, mas vou falar mais lá no fórum. Recomendo o filme!
    Ainda não consegui assistir o filme porque não aguento mais a história... Acho que é a primeira vez que eu gosto de um livro mas não suporto mais a história dele. O que por si só já é um mérito do Nabokov!
    Espero que muita gente tenha lido para ser uma boa discussão :)
    Beijos!

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    1. Estou vendo muita gente dizendo que o livro é arrastado, mas não senti isso. Não larguei o livro e tive a impressão que o ritmo da narrativa combinava demais com o jeito do Humbert.
      Acho que a discussão do fórum vai pegar fogo, rsrs.

      Beijinhos!

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  6. Aline, sua resenha ficou ótima! ^_^
    Eu concordo com tudo o que você falou (o que é um tanto quanto irônico, considerando que você gostou do livro e eu não... rsrsrsrs). A única diferença é que para mim a leitura foi arrastadíssima. Aquelas 3 ou 4 páginas em que ele descreveu cada cidade e cada hotel eu juro que quase pulei! Em geral gostei bem mais do ritmo da primeira parte. Depois só fiquei esperando o momento da fuga de Lolita, que demorou, viu?
    A leitura desse livro só me trouxe sentimentos ruins... Por isso não consigo dizer que gostei, apesar de a escrita de Nabokov ser sem dúvida genial. E agora, lendo as opiniões das pessoas, estou ficando com mais raiva ainda por muitas delas colocarem Lolita com um algoz. Se eu fosse um membro do júri, como o Humbert adora chamar o leitor, ele seria condenado sem remorso! Rsrsrsrs.
    Beijo!

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