sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Planolândia - um romance de muitas dimensões


Demorou, mas encontrei um romance digno do título de Clássico Esquecido, para o Desafio Livrada 2014. Trata-se de Planolândia - um romance de muitas dimensões, do classicista, teólogo e estudioso de Shakespeare, Edwin A. Abbott.

Publicado em 1884, Planolândia é o relato de Quadrado, um habitante de um mundo bidimensional, povoado por figuras geométricas planas. Nesse mundo, a classe social das pessoas é determinada pelo número de lados que elas têm. Triângulos isósceles são a classe mais baixa: soldados, operários. É onde se encontram os delinquentes e bandidos. Triângulos equiláteros estão um pouco acima e os quadrados exercem profissões mais respeitadas, como medicina e advocacia. Os polígonos constituem a nobreza e os círculos (ou pessoas com dezenas de lados) compõem o mais alto conselho que governa e comanda os demais. As mulheres são simples linhas, completamente rebaixadas social e intelectualmente.



O livro é divido em duas partes quase simétricas em tamanho: na primeira, Quadrado descreve Planolândia, seus habitantes, suas regras e seus acontecimentos históricos mais relevantes. Na segunda parte, ele conta como sua vida pacata se transformou (e transtornou) quando, na virada do segundo para o terceiro milênio, ele recebeu a visita de uma esfera, vinda de um mundo tridimensional — a Espaçolândia. Essa esfera é um misto de alienígena com messias e sua missão é escolher um habitante de Planolândia esclarecido e grassado em Matemática o suficiente para ser o portador na boa nova.

O subtítulo do livro — "Um romance de muitas dimensões" — é muitíssimo acertado porque assume várias significações: é um romance alegórico, que satiriza a hierarquia social da era vitoriana ao mesmo tempo que serve de ilustração de conceitos de Matemática, Física e Geometria; é um romance fantástico, pois apresenta universos e seres imaginários; e é ficção científica, pois antecipa a teoria das demais dimensões (hoje conhecida como teoria das cordas).

O romance é composto de capítulos curtos, narrados num estilo elegante e direto que proporciona uma leitura bem rápida e fluida. Pode-se dizer que sua estrutura e lógica são organizadas matematicamente, mas apesar dessa austeridade formal, o texto é bastante ferino e satírico, além de um tanto cômico. As críticas à hierarquia vitoriana, bem como ao sexismo e ao totalitarismo são evidentes no texto. Mulheres e deficientes físicos não tem voz ou vez, e há a crença numa superioridade de raças que determinaria o alcance do intelecto. Os paralelos que ele faz com nossos padrões de comportamento social são bem argutos e divertidos, e é curioso ver temas como a defesa das mulheres e a sátira das crenças religiosas sendo introduzidas por um clérigo do século XIX.

O romance envelheceu muito bem, mantendo-se bastante atual, embora esteja praticamente esquecido. Nunca tinha ouvido falar dele até bem pouco tempo e encontrei poucas resenhas sobre ele na internet. Planolândia é a uma só vez ambicioso e leve: debate questões tão variadas quanto relevantes, ao mesmo tempo em que diverte.



Vídeo-resenha:


2 comentários:

  1. Achei muitooooooooo interessante essa sinopse, sério lol e vi seu vídeo no youtube e amei =D

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    1. Helena, nunca consigo responder seus comentários no YouTube. A opção de resposta não aparece :(
      Leia o livro, se puder, é bem bacana! ;)

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