terça-feira, 23 de setembro de 2014

#ReadMoreShakespeare: A Comédia dos Erros


Ou vejo mal, ou vejo dois maridos.


Após a leitura truncada de Tróilo e Cressida, pude me deleitar com a terceira comédia do projeto — A Comédia dos Erros. Encenada pela primeira vez em 1594 e classificada como uma farsa, a peça é considerada, por muitos teóricos, como a primeira escrita por Shakespeare.

Essa peça está mais próxima do que nós, atualmente, entendemos como comédia: é deveras engraçada. A Comédia dos Erros trata de uma série de confusões envolvendo gêmeos. A peça começa com o duque de Éfeso, Solino, condenando o mercador Egeu de Siracusa por transpassar a fronteira de seu reino. Éfeso e Siracusa são inimigas e proíbem que seus habitantes visitem o território rival. Egeu explica que está ali em busca de sua esposa, filho e servo, de quem foi separado há 25 anos por ocasião de um naufrágio. Comovido com a história do mercador, Solino permite que Egeu tente, no período de 24 horas, arrecadar os mil marcos que serviriam de pena alternativa à morte. Ocorre que seu filho e seu servo — Antífolo e Drômio —,  que ficaram junto dele após o naufrágio, encontram-se também na cidade, e seu outro filho e servo, perdidos, residem agora nessa cidade. Como vocês podem imaginar, tanto os filhos de Egeu quanto seus dois servos são gêmeos. E para dificultar a situação, os rapazes que residem em Éfeso têm o mesmo nome que os de Siracusa.



O resto vocês podem imaginar: os Antífolos vão encontrar com os Drômios errados, a esposa de Antífolo de Éfeso vai interpelar o Antífolo de Siracusa, seu cunhado... Um imbróglio tremendo que renderá diálogos cômicos e muitas bordoadas em ambos os Drômios.

Em tese, o gênero farsesco é estritamente caricatural e não se detém sob o debate acerca dos valores da sociedade. No entanto, por trás da leveza predominante dessa peça, Shakespeare desfere alfinetadas em relação aos maus tratos aos servos e dá atenção especial à condição feminina.

ADRIANA: Dizei ao vosso retardado mestre
ao alcance da mão enfim se encontra.
DRÔMIO DE ÉFESO: Fui eu que fiquei ao alcance das mãos dele, como dão testemunho as minhas orelhas. — pg. 67

ADRIANA: Por que hão de ser mais livres do que nós?
LUCIANA: Porque fora de casa tem negócios.
ADRIANA: Se com ele desta arte eu procedesse, 
ficaria zangado.
LUCIANA: Não ignoras
que da tua vontade é freio o esposo.
ADRIANA: Frear se deixam tão-somente os asnos.
LUCIANA: A liberdade indócil é domada
pela própria desgraça. Não há nada
sob a vista do céu que não se mova
num limite restrito, assim na terra
como no ar e no mar. Todas as fêmeas
dos animais, dos pássaros, dos peixes
seguem ao macho e em tudo lhe obedecem.
O homem, ser mais divino, senhor deles,
dono do mundo todo, do mar vasto,
que a superioridade do intelecto
pôs acima de pássaros e peixes,
da esposa é dono e mestre. Assim alegre,
com ele em tudo concordar te cumpre.
ADRIANA: Tanta humildade condiz mais com freira.
LUCIANA: O medo é que me faz ficar solteira.
ADRIANA: Casada, talvez fosse uma harpia.
LUCIANA: A obedecer, de noiva aprenderia.
ADRIANA: Se teu esposo a outra mulher amasse?
LUCIANA: Em casa aguardaria o desenlace.pg.67


O dramaturgo discute, ainda, os malefícios dos ciúmes e a busca pela afirmação da identidade:

ABADESSA: De aí ter acabado ele maluco.
As queixas venenosas de uma esposa
ciumenta são de efeito mais nocivo
do que dentada de cachorro louco. — pg. 85

DRÔMIO DE SIRACUSA: Fui transtornado, mestre? Eu não sou eu?
ANTÍFOLO DE SIRACUSA: Foste, sim; eu também já não sou eu. — pg. 70


Embora a peça seja escrita quase inteiramente em versos, ela é de fácil compreensão e permite uma leitura bastante fluida. É uma das menores peças de Shakespeare e, talvez por ser a primeira, traz um desfecho luminoso e otimista. A pouca extensão, no entanto, não impediu o bardo de equilibrar entretenimento e reflexão. Encerro com uma citação de Barbara Heliodora, em Falando de Shakespeare:

A  preocupação com o natural e o antinatural, com a harmonia da vida individual e do grupo, o respeito pelo semelhante, a responsabilidade, a generosidade do amor, serão sempre parte da visão da "commonwealth", do bem-estar da comunidade, estarão sempre junto ao coração do poeta. — pg. 20
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Aqui o link para quem quiser ler online.

Um comentário:

  1. Eu tinha separado alguns livros para ler com você, mas quem disse que consegui?
    Vou dar uma olhada no calendário para ver se leio pelo menos as comédias.
    bjo

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