quinta-feira, 11 de setembro de 2014

#ReadMoreShakespeare: Macbeth



A leitura de agosto para o projeto #ReadMoreShakespeare foi a excelente tragédia Macbeth. Ambientada na Escócia do século XI, a peça conta a história do general Macbeth, primo do rei Duncan. Macbeth está andando com seu amigo Banquo, logo após uma batalha, quando três bruxas o saúdam como Barão de Cawdor e Rei — títulos que ele não tem. Desconfiado a incrédulo, Banquo as desafia a tecer uma predição para ele, ao que elas respondem que, embora ele não venha a se tornar tão importante quanto Macbeth, ele dará origem a uma linhagem de reis. Ambos acham os vaticínios, e as bruxas, estranhíssimos, e ficam pensativos, até que um grupo de cavaleiros chega com a notícia de que o rei Duncan houvera premiado Macbeth com o condado de Cawdor em virtude de seu bom desempenho na batalha.

Percebendo que uma das previsões acabara de se concretizar, Macbeth será tomado por um sentimento de ambição que o perturba quase à loucura. Tem início o conflito interno do barão, que sofrerá a tentação de adiantar o próximo passo de seu destino em detrimento da conduta leal e honesta que o movera até então.

Deveras ambiciosa, Lady Macbeth agirá junto ao esposo como grande fomentadora da ação criminosa. Ambos padecerão do delírio da grandeza para, posteriormente, adentrarem as zonas da loucura e da total desagregação.

É muito difícil falar algo minimamente interessante sobre as peças de Shakespeare sem entregar a história toda. Espero que a introdução acima desperte seus interesses porque essa é uma peça excelente. O texto é muito claro no que propõe, não recorre a enigmas ou simbolismos. As imagens dessa tragédia são fortes, no entanto: bruxas disformes numa charneca escura, alucinações com adagas voadoras, mãos ensanguentadas que não se consegue limpar, fantasmas de pessoas assassinadas na mesa de jantar. Caso tenham interesse, assistam às adaptações para o cinema de Roman Polanski (1971) e de Orson Welles (1948), ambas muito boas e muito distintas. Se houver uma montagem da peça na sua cidade, vale muito a pena conferir.

 pintura de Théodore Chassériau

Além do claro alerta relativo à ambição, há no texto uma crítica à bruxaria que Shakespeare teria desenvolvido para agradar ao rei James I, que tinha fobia de bruxas.

PRIMEIRA BRUXA — Gato malhado já miou três vezes.
SEGUNDA BRUXA — Três e mais uma já guinchou o ouriço.
TERCEIRA BRUXA — A harpia já gritou: “É hora! É hora!”
PRIMEIRA BRUXA — Atirai no caldeirão entranhas em podridão. Os sapos das pedras frias que durante trinta e um dias suaram seu bom bocado, jogai no pote encantado.
TODAS — Mais dores para a barrela. mais fogo para a panela.
SEGUNDA BRUXA — Lombo de cobra novinha atirai no pote asinha, pé de sapo e lagartixa, de cão a língua que espicha, pêlos brandos de morcego, asa de bufo-sossego, de lagarto a perna fina, acúleo de colubrina jogai na sopa do mal nesta mistura infernal.
TODAS — Mais dores para a barrela, mais fogo para a panela.
TERCEIRA BRUXA — Três escamas de dragão, com bucho de tubarão que os mareantes intimida; cicuta à noite colhida, bofes de um judeu malvado, ramo de teixo tirado em noite de muito escuro; beiço de tártaro, o duro nariz de turco, o dedinho de uma criança sem linho que matado a mãe houvesse sem dizer nenhuma prece. Deixai bem forte a mistura; juntai do tigre a fressura, porque nosso caldeirão tenha caldo em profusão.
TODAS — Mais dores para a barrela, mais fogo para a panela.

O texto problematiza a oposição entre destino e livre-arbítrio. Se ser rei estava mesmo no destino de Macbeth, poderia ele ter aguardado tal mudança sem nada fazer? Incorrer no crime para adiantar seu elevado posto não é indício de sua responsabilidade? Se Macbeth pode, em algum momento, ser encarado como vítima, seu algoz seria antes a própria ambição que algum vaticínio de origem demoníaca.

Shakespeare também aponta a falta de sentido da vida, tema sempre revisitado em sua obra:

MACBETH: A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita por uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muita barulheira, que nada significa.

A peça detém, ainda, notável atualidade quando refletimos que grandes ditadores do século XX seguiram caminho semelhante ao do protagonista, marcado pela sede de poder e pela traição.  
Macbeth é uma tragédia cuja pequena extensão parece ampliar o impacto de seus temas e alertas: a ambição desmedida, a culpa enlouquecedora, o misticismo irracional, a responsabilidade pelos próprios atos — dilemas que são transmutados magistralmente em fortes imagens, capazes não só de entreter, mas também de revelar o peso e o alcance das ações humanas.

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