quinta-feira, 18 de setembro de 2014

#ReadMoreShakespeare: Tróilo e Cressida


ATENÇÃO: Há muitos spoilers nessa resenha!

A leitura de Tróilo e Cressida estava programada para Agosto, mas acabou sendo adiada para Setembro por falta de tempo. Assim como Vida e Morte do Rei João, foi uma das peças que mais me desagradou até agora. Publicada em 1609, a peça narra o breve romance de Tróilo, filho de rei de Tróia, e de Cressida, filha do sacerdote Calcante, tendo a Guerra de Tróia como pano de fundo.

Tróilo está cortejando Créssida há bastante tempo e pede que o tio da moça, Pândaro, interceda em seu favor. Eles finalmente têm um encontro amoroso, mas terão de separar devido a uma negociação de troca de reféns. Calcante trai e abandona Tróia, associando-se aos gregos. Tendo visto que os soldados gregos capturaram o comandante troiano Antenor, Calcante solicita a seus aliados que ofereçam o refém aos inimigos em troca de sua filha. 

Minha dificuldade com essa peça se deu em virtude do caráter deveras enfadonho e ambíguo do texto. As falas são bastante enviesadas, como se Shakespeare buscasse mascarar seus reais significados. Diz-se que a Guerra de Tróia opera na peça como uma alegoria para a rebelião malograda do conde de Essex. É curioso que, a despeito do título, o casal que nomeia o texto tem uma participação pequena quando comparada com as contendas e entreveros entre príncipes, comandantes e generais.

Apesar de se dizerem apaixonados, não há entre Tróilo e Cressida nenhuma cogitação de casamento, mesmo a moça sendo livre para compromisso. Seu relacionamento é carnal e se dá no mesmo dia em que são apresentados. Ela é encorajada pelo tio alcoviteiro a tomar partido dessa relação com um nobre. Quando recebem a notícia de que terão de separar, lamentam, trocam juras, mas rapidamente aceitam a situação posta. Tróilo não pode se negar porque, além de ter defendido a guerra publicamente, sabe que dessa troca depende a continuação do relacionamento de seu irmão com Helena, a rainha raptada. E Cressida é mulher, ou seja, não apita nada.

Após ser levada pelos gregos, Cressida é largamente cortejada pelos comandantes, como se fosse um naco de carne jogado entre cães. É asqueroso! Ela acaba cedendo à investida de Diomedes de modo a se defender e preservar. Escondido, Tróilo surpreende o novo casal e, tomado de ciúmes, maldiz a adúltera falsa e jura vingar-se do rival.


Tanto Helena quanto Cressida são tratadas como prostitutas, como se elas tivessem grandes escolhas. Tróilo sequer foi capaz de lutar por sua amada ou protegê-la. Ele jura vingar-se, mas não abate o rival, tampouco morre. É uma diferença gritante de Romeu e Julieta, publicada doze anos antes, onde os personagens mantém-se moralmente íntegros e preferem morrer a se separar. Moralmente, Tróilo e Cressida são ineficazes, fracos, não conseguem se sobrepor a um governo corrupto e omisso nas suas obrigações com o povo.  

CRESSIDA: Ah, pobre sexo! Em nós há o detrimento 
de o erro da vista guiar o entendimento. 
Erra quem o erro guia, isto é certeza,
revela a alma transviada só torpeza.

É uma tragédia bem incomum, porque não tem aquele desperdício trágico típico, e sua linguagem não se mantém solene. Na verdade, o texto oscila entre os versos rebuscados e a prosa chã, repleta de xingamentos e piadas sexuais. Um site brasileiro dedicado ao dramaturgo descreve a peça como comédia. (?)

AJAZ: Cachorro sem raça!
(Bate-lhe)
TERSITES: Continua! Continua!
AJAZ: Tamborete de bruxa!
TERSITES: Sim, continua, continua, cabeça de pau! Tens tanto cérebro na cabeça, como eu tenho nos cotovelos; um asno poderia servir-te de tutor. Burro valente e desprezível! Só serves aqui, para triturar os troianos; entre as pessoas de algum espírito, és comprado e vendido como um escravo bárbaro. Se começares a bater em mim, vou grudar-me em teus calcanhares e dizer o que és, polegada por polegada, sujeito sem entranhas.
AJAZ: Cão!
(Bate-lhe)
TERSITES: Marte idiota! Bate mais, rudeza! Bate mais, camelo! Bate mais!

Há um grande destaque, no texto, para a questão das aparências. Tróilo e Menelau são frequentemente chamados de cornos, enquanto Cressida e Helena, como mencionei, são descritas como traidoras cortesãs. Pândaro é o alcoviteiro e Aquiles o vaidoso. Inclusive, há uma longa cena em que Ulisses engendra uma encenação com os demais comandantes para "baixar a bola" de Aquiles e convencê-lo a guerrear.

PÂNDARO: (...) Que todos os homens constantes sejam Tróilos; as mulheres falsas, Cressidas, e todos os alcoviteiros, Pândaros.

Li em duas fontes diferentes que essa é a peça mais moderna de Shakespeare, antecipando recursos explorados por Brecht e Becket. Não tenho conhecimento sobre teatro suficiente para perceber esse traço e achei a peça cansativa. Todos os personagens me pareceram ensaboados demais e  sem convicção, e não consegui estabelecer empatia com eles ou seus dramas. É como se a sociedade retratada fosse tão corrompida que qualquer sentimento bom é levado de roldão, fazendo com que todos se deixem corromper para sobreviver. Essa conclusão não depõe contra o Shakespeare, mas ao contrário, só revela a sua argúcia. No entanto, com exceção das trocas de insultos entre alguns personagens, achei as situações chatas, pouco comoventes. Talvez o tema não pertença ao meu horizonte de interesses. Talvez eu espere as coisas erradas do teatro. Sei lá.

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