quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Não é um romance russo. É a minha história de leitura.


Dia desses embarquei numa discussão animada com meu namorado por causa do final enigmático de O Homem que foi Quinta-feira, do Chesterton. Que significava o personagem Domingo? A natureza selvagem? Ou "Deus de costas", como sugeriu um teórico que analisou o livro? Nosso debate nos levou a comparações com o filme Árvore da Vida , com as proposições de Santo Agostinho e com o livro bíblico de Jó - referência clara tanto para o romance quanto para o filme.

Impregnada com as constatações do nosso debate, fui fazer faxina na área de serviço e me deixei levar pelos pensamentos randômicos que nos absorvem quando executamos alguma tarefa manual. Em algum momento, entre esfregar o chão com desinfetante e por areia limpa na liteira dos felinos, tive uma epifania. Dei-me conta da importância de determinado fato da minha adolescência na minha trajetória de leitora: ter ficado de recuperação em Literatura no terceiro ano do ensino médio.

Como fui da associação do romance do Chesterton com o filme do Malick e Jó, e da constatação de que a areia higiênica que comprei não parecia ser de boa qualidade até a minha história como leitora, vocês se perguntarão? Na semana anterior, assisti a um vídeo de uma booktuber americana, respondendo a uma TAG onde contava como se tornou leitora. O assunto provavelmente ficou na minha cabeça porque considerei responder a TAG no meu canal, e naquele domingo todas essas questões acabaram convergindo no meu insight.

Quando criança, eu tinha uma predisposição natural para leitura. Como meus pais não eram muito da literatura, restava-me reler meus livros paradidáticos, o que eu fazia com muita frequência. Na passagem da infância para a pré-adolescência, dei de ler os livros da coleção do Círculo do Livro, de que minha mãe era assinante. Nenhum deles se destinava a minha idade e eu provavelmente não os compreendi corretamente. Foi nessa época que li Fernão Capelo Gaivota, Sobreviventes, Eram os Deuses Astronautas e A Profecia, que minha mãe tomou da minha mão de cabelo em pé recomendando que eu fosse ler a Bíblia quando tivesse siricuticos literários.

Nos anos seguintes, descobri o rock, os Stones, os Beatles, e como meu pai era uma pessoa mais musical, acabei deixando os livros de lado e me envolvendo mais com música. Fiz aula de violão, inscrevi-me num coral e tive uma breve participação na apresentação de um programa vespertino de uma rádio católica pirata (eu era católica super praticante na época). Participei de bandas e grupos vocais no colégio, fui backing vocal de uma banda de raggae... Enfim, durante a maior parte da minha adolescência acreditei que dedicaria minha vida adulta à música. Uma série de acontecimentos, no entanto, afastou-me desse caminho.

Em primeiro lugar, eu não tinha o talento e a perseverança necessários para me tornar uma musicista competente. Além disso, minha mãe execrava a ideia e me desestimulava. Preocupada com meu futuro, ela preferia que eu fizesse vestibular, ingressasse numa boa faculdade, fizesse concurso, garantisse a minha subsistência. Cuidado compreensível de quem teve uma juventude pobre e difícil. 

Só que o que parece ter sido definidor mesmo para essa mudança de curso foi a grave crise pessoal que eu passei entre 1998 e 1999. Eu tinha sérios problemas de autoestima, sentia-me sozinha e deslocada. Meus pais tinham acabado de se separar e eu não tinha maturidade suficiente para lidar direito com essas coisas todas.

É importante ressaltar que de 1997 até meados de 1999 não li quase nada como passatempo: só os livros exigidos pelo colégio e revistas que meus pais assinavam. Nesse período, eu tinha problemas de concentração, meu rendimento em matemática, química e biologia era de regular a instisfatório, o que só piorava a minha autoestima. Ainda assim, esforçava-me para ficar bem. Já era melancólica desde então, mas sempre fui uma pessoa que reage. O que eu não sabia era que essa minha força interior estava para ser posta à prova.

No último ano do ensino médio, perdi duas pessoas próximas para o câncer: minha tia e uma amiga. Eu não só vivia o luto pela primeira vez, mas de forma dupla, num espaço de poucos meses Nem sei se já tinha encerrado um quando adentrei o outro. No leito de morte, minha amiga legou muitos de seus cds a mim e a meu irmão, e acho que essa lembrança me marcou mais do que eu podia (e posso) compreender. Passei os meses seguintes processando esses buracos, essas ausências com aparente placidez. Mas a questão é que fui ficando cada dia mais desconcentrada, mais perdida, mais desorientada. Eu deveria estar pensando no vestibular e nos rumos da minha vida profissional, só que a presença recente da morte conferia uma gravidade muito maior às decisões sobre a minha vida e reagi ficando completamente paralisada. 

Comecei a duvidar das minhas qualidades, perdi o horizonte. É estranho porque não me parecia depressão, mas uma apatia acachapante. A escola perdeu o sentido e decidi não me preocupar mais com isso. Minha vida poderia ter sido completamente diferente se minha mãe e a psicóloga do colégio não tivessem me apoiado, me empurrado e incetivado. Dentro de mim, já não encontrava força. Elas precisaram me mostrar. Foi nessa época que me juntei ao grupinho cdf da turma. Eles me ajudaram do modo mais espontâneo e desinteressado e acabaram se tornando meus amigos de verdade. 

Não me tornei nenhum prodígio escolar, mas parecia que eu conseguiria encerrar minhas obrigações. Parecia. Crente de já ter me libertado do ensino médio, recebo o telefonema de uma colega me informando que eu havia ficado em recuperação em geografia e literatura. Eu andava tão desorientada que nem considerei a possibilidade de ter pendências justo em disciplinas de humanas e linguagens, que nunca me deram trabalho. Reparem que eu nem tinha ido à escola para pegar esses resultados.

Ficar de recuperação em literatura no último bimestre do último ano me pareceu tão absurdo que reagi rindo. Fui para o colégio verificar um possível engano com a professora e ela me respondeu com um sermão enorme que me deixou comovida. Ela estava realmente penalizada com o meu estado e o seu discurso serviu para me chacoalhar, porque eu a admirava, gostava muito das suas aulas e da sua matéria. Essa identificação que eu tinha com ela me ajudou a querer sair do buraco.

E lá fui eu estudar TODA a matéria trabalhada naquele ano. Quando vi a quantidade de leituras que tinha de fazer, pensei claramente: ESTOU ABSOLUTAMENTE FERRADA. Ao mesmo tempo em que tomava consciência da dificuldade da situação, achava inconcebível repetir o terceiro ano, ainda mais por causa de literatura. No fundo da minha fossa, restava ainda um pouco de orgulho. 

Foi aí que se mostrou o meu "Deus de costas". No texto do Chesterton, o personagem Domingo é uma alegoria divina, mas de uma divindade pagã, mais aparentada com a natureza irracional. Só que o Chesterton, que cogitava adotar o cristianismo na época, estava dividido entre esse conceito de divindade e o da divindade consciente, que tem poder de ajudar ou atender súplicas. O romance não resolve a questão, ele apenas retrata a crise espiritual do escritor. No texto, há menções ao livro de Jó, que sofre feito um diabo e não tem qualquer resposta satisfatória de Deus para aquilo. Deus apenas lhe diz: "nem tente entender". Era nesse sentido que Santo Agostinho dizia que o mal não existia, só o bem, e que as coisas ruins do mundo convergiam depois num bem maior. Essa é a tese que Ivan Karamazov combate e que Dostoiévski tentou resolver em todos os seus grandes romances, sem sucesso.

Toda essa digressão maluca é para concluir que uma das maiores dificuldades que passei, num dos piores anos da minha vida, pode ter ajudado a definir, de forma positiva, a pessoa que me tornei. Encerrei aquele ano difícil tendo de estudar todos os modernistas, os surrealistas, a geração de 45, ou seja, Drummond, Clarice, Graciliano, Jorge de Lima, Guimarães Rosa, Cecília Meireles. Lembro de intercalar o pânico de decorar montes de títulos e especificidades estéticas com a constatação de que aquelas coisas eram bem divertidas. Era a primeira vez que eu via a literatura como uma possibilidade de passatempo, ou até de algo mais sério. Os contos da Clarice tiveram papel essencial nessa descoberta. 

Na época, minha mãe me levava para fazer orientação vocacional com uma psicóloga e foi ficando nítida para mim essa possibilidade. Eu já tinha facilidade para ler, compreender e produzir textos, e tinha boas experiências de leitura, apesar de não ter dado muita bola para isso nos últimos anos. Acabei decidindo prestar o vestibular para Letras e não me arrependo um segundo sequer dessa decisão. Se eu voltasse no tempo dez vezes, escolheria Letras em todas elas. É curioso que só a partir dos últimos meses do ensino médio é que passei a me reconhecer como pessoa dos livros. Meu caso de amor com eles começou, de forma consciente, um tanto tarde, mas de forma definitiva. 

Se hoje dou minha carreira de magistério por encerrada e minha ocupação envolve burocracias alheias à literatura, isso não diminui em nada a relação intensa que continuo tendo com ela. Os livros seguem ocupando grande parte dos meus dias, como os objetos mais incríveis, curiosos, surpreendentes e transformadores. Durmo e acordo com eles ao meu lado, na cama. São eles que me acompanham nas viagens cotidianas, que preenchem meu tempo livre, que me ajudam a pensar, a crescer e aprender sempre mais. Os livros até me trazem amigos.

Demorei dezesseis anos para perceber a relação entre esses fatos narrados. Se antes eu pensava em 1999 com um ano duro, difícil, hoje já posso encará-lo com mais gratidão. Estou longe de descobrir se tudo isso foi desígnio divino, mas vejam só o que uma vida de leituras pode proporcionar. Por causa de um romance fantástico e da TAG de uma booktuber, alcancei um insight que deixou minha tarde, e mesmo a vida, um tantinho mais bonita e significativa .

:)


7 comentários:

  1. Nossa, muito emocionante sua história de vida, Aline!!!
    E é tão bom quando conseguimos olhar para o passado de um modo diferente, mais leve, mais feliz!
    Fico feliz por você XD
    Mil beijinhos!

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  2. Gostei muito do seu relato, acho incrível como as coisas se juntam e acabam em insights assim =) Beijos!

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  3. Lindo relato filha que bom que em tudo que você falou percebi que pude fazer parte dessa sua paixão pelos livros.

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  4. Texto tão bonito - e tão corajoso! Obrigada por compartilhar essa história :-)

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