segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O Homem Que Foi Quinta-Feira (um pesadelo)



Publicado pela primeira vez em 1908, O Homem Que Foi Quinta-Feira (um pesadelo)  foi meu primeiro contato com a ficção do escritor inglês G.K. Chesterton. O autor atuava em várias frentes: era jornalista, poeta, ensaística, biógrafo, desenhista, conferencista, além de dissertar sobre assuntos teológicos e filosóficos. Esse ecletismo não contribuiu muito para que fosse levado a sério em todas essas esferas, uma vez que ele não se aprofundava em nenhuma delas. Ainda assim, ele é muito lembrado pelas histórias policiais protagonizadas pelo Padre Brown, por seus ensaios literários e pelos debates cordiais que mantinha com Bernard Shaw e H. D. Wells, amigos de quem discordava bastante ideologicamente.

O Homem Que Foi Quinta-Feira reflete muito desse ecletismo, pois o romance pode ser enquadrado tanto no gênero policial como no fantástico, além de ser alegórico e de ter uma série de discussões filosóficas secundárias. O livro narra a história de Gabriel Syme, poeta e agente secreto da polícia britânica, que consegue se infiltrar no conselho supremo de um grupo anarquista. Este grupo está orquestrando um atentado em Londres, e Syme, embora deseje impedi-lo, encontra-se impedido por conta de um juramento que fizera ao membro do conselho cujo lugar está ocupando. A história ganha fôlego quando Syme descobre não ser o único infiltrado no conselho.

O subtítulo "Um pesadelo" sugere a atmosfera da história, embora o texto não nos permita decidir se se trata de uma definição literal ou metafórica. Essa qualificação se refere ao absurdo tipicamente kafkiano, responsável pelo aspecto fantástico do texto. A investigação é instigante e decorre numa perseguição a um só tempo alucinada e peculiar, porque à semelhança das narrativas hitchcockianas, o mistério é secundário, não responde pela tensão criada. A partir da metade do texto, percebemos qual será o rumo dos personagens, quais serão as revelações, e isso é intencional. É o próprio absurdo extremo dos fatos que nos instiga a devorar o texto em busca de respostas.

Ao longo da perseguição, os personagens  desenvolvem uma série de reflexões de cunho filosófico, estético e religioso, que revelam o dilema espiritual do próprio Chesterton. Há especulações sobre a essência e a aparência, sobre a dualidade dos homens, alusões ao Mito da Caverna, além de uma série de referências bíblicas, em especial ao Livro de Jó. Em sua autobiografia, o autor conta que o romance retrata as reflexões que ele vinha fazendo no sentido de converter-se ao cristianismo. Foi em 1908, também, que o autor publicou Ortodoxia, uma espécie de elogio ao cristianismo, embora ele só fosse de converter, de fato, em 1922. Em O Homem Que Foi Quinta-Feira, essas reflexões comparecem na investigação acerca da divindade, da natureza selvagem, do desígnio.

No que diz respeito à forma, o romance é conciso, composto de pequenos capítulos. A prosa de Chesterton, no entanto, é requintada e melindrosa e não facilita a leitura ágil, principalmente na primeira metade. É interessante que, tal como um pesadelo, a narrativa vai se tornando mais fragmentada, célere e absurda à medida que se aproxima do fim. Então, se começamos o romance de forma lenta, ao final já estamos lendo com muito mais rapidez.

O livro termina de forma enigmática, deixando várias questões em aberto. É difícil terminar esse livro sem reler trechos dos últimos capítulos ou sem ficar pensando nesses pontos não resolvidos. Um aspecto, no entanto, desagradou-me: a mudança de tom da narrativa. Se o romance se mantém, em sua maior parte, como uma narrativa policial-fantástica com proposições filosófico-religiosas secundárias, no fim do livro esse aspecto é invertido. O romance se torna notadamente apologético, chegando a soar como uma parábola evangélica. Essa quebra do pacto de leitura firmado ao longo do texto é um tanto frustrante e acaba enfraquecendo a expectativa criada.

Apesar desse problema formal, o romance logra não só em proporcionar uma experiência estética inusitada como em incitar de forma sutil (ao menos na maior parte do texto) a reflexão sobre questões espinhosas. É um livro sofisticado, apesar da pouca extensão, que tira sua força da estranheza temática e narrativa.


2 comentários:

  1. Eu adoro Chesterton e este é um dos livros que mais gostei de ler.

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  2. Oi, Aline! Encontrei seu vlog sem querer enquanto pesquisava sobre G. K. Chesterton, e saiba que ele é interessante. O Chesterton escreveu um romance chamado "The Ball and the Cross" (A Esfera e a Cruz), em 1909, que traz suas indagações sobre a fé e a teologia nas disputas entre um religioso católico e um ateu socialista. Esse livro inspirou "O Processo", de Franz Kafka, o qual, dizem alguns especialistas, permaneceu inacabado porque Kafka, sendo apenas judeu, não conseguiu resolver o dilema teológico colocado em "A Esfera e a Cruz", que é eminentemente cristão... Esse livro de Chesterton de 1909 também inspirou Aldous Huxley a escrever "Admirável Mundo Novo" e George Orwell, "1984". Penso que esse livro é no mínimo instigante, uma vez que é responsável por grandes obras literárias do século XX. Ainda não o li, embora o tenha em inglês (minhas prioridades me impedem de pegá-lo imediatamente) e em português, nem sinal de tradução à vista... Espero que isso mude, já que leitores de Chesterton, como nós, estão aumentando, graças a Deus. Se procurar no Google, encontrará o primeiro capítulo de "A Esfera e a Cruz" em português, em um site da USP. Outra coisa: Como está para ler "A Inocência do Padre Brown", talvez seria interessante conhecer o filme estrelando o "detetive metafísico" criado por Chesterton, baseado em um dos contos do referido livro. Está aqui neste link: http://ow.ly/ZUWBn. No mais, prossiga com seu gosto pelos livros. In corde Iesu et Mariae!

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