quinta-feira, 16 de outubro de 2014

#ReadMoreShakespeare: A Tragédia do Rei Ricardo II



O que nos homens baixos tem nome de paciência, 
é covardia pálida nas pessoas de alto sangue.

A Tragédia do Rei Ricardo II é a primeira peça numa tetralogia centrada em Henrique IV. Escrita em 1595, inteiramente em versos, a peça narra a tomada do trono de Ricardo por seu primo Henrique. Esse drama histórico tem início com Henrique IV acusando Tomas Mowbray, duque de Norfolk, de participar do assassinato do duque de Gloster. Henrique e Tomas trocam acusações até que decidem resolver a contenda num duelo. A princípio, Ricardo tenta demovê-los da ideia, mas acaba assentindo. No dia do embate, no entanto, o rei volta atrás, impedindo o duelo e penalizando os oponentes com o degredo de dez anos para Henrique (depois diminuído para seis) e eterno para Mowbray. Tristes e insatisfeitos, os condenados seguem em sua pena.

Há, nesse momento, um longo discurso patriótico:

Seja assim; adeus, solo da Inglaterra;
querida terra, minha mãe, minha ama
que me nutres ainda, adeus! Eu parto
e, ufano, mostrar-me-ei ao mundo inteiro,
sempre inglês, muito embora no estrangeiro. — 78

Ricardo pretende seguir para a Irlanda a fim de guerrear quando fica sabendo que seu tio, João de Gaunt, duque de Lancastre e pai de Henrique, está à beira da morte. Ele vai visitá-lo, torcendo para que morra logo, o que acaba acontecendo. Morto o tio, Ricardo se apossa de suas riquezas, a herança de Henrique, para custear a guerra desnecessária que quer empreender. Além desse confisco, Ricardo já havia recolhido impostos junto aos súditos para financiar suas dívidas. 

Nota-se, já no início da peça, o retorno de Shakespeare ao tema do mau governo, sempre presente em seus trabalhos. Ricardo, além de perdulário, é vaidoso, deixa-se engambelar pela adulação de nobres interesseiros. E despreza não só os súditos, como os próprios parentes. Henrique, por outro lado, é gentil, justo, amado pelos súditos. 

Quando fica sabendo da perda de sua herança, o filho de Gaunt junta aliados e volta para a Inglaterra a fim de desafiar Ricardo. Ele quer restabelecer sua riqueza e regressar ao seu amado país. A insatisfação com as atitudes de Ricardo é grande e não só o povo, como muitos nobres, oferecem apoio a Henrique. Shakespeare contrasta aqui o direito divino ao trono com a competência para ocupá-lo. Desafiado, Ricardo amolece, fica confuso, amedrontado, sente-se surpreso com esse desafio a sua majestade ungida. Ele não tem pulso para governar, hesita, é irresponsável com os gastos e negligente com o povo. Mas se vale do direito divino que o empossou. Henrique não detém esse mesmo direito, mas goza de respeito e estima e acaba destronando Ricardo, que será preso. É interessante que, quando Ricardo usurpa a riqueza da casa de Lancaster, ele está violando a própria regra que lhe concede poder: o direito hierárquico. Essa é, certamente, a maior preocupação dos nobres. Contudo, assim que Henrique ocupa o trono, a coerência com que vinha agindo esmorece, ele já não é tão justo e opera de acordo com a conveniência. O dramaturgo parece sugerir que um monarca eficiente tem de ser firme, austero, ainda que um tanto hipócrita e arbitrário.

Ágil e escrita com clareza, a peça aborda a ambição, a rudeza, o direito ao trono, o patriotismo. Encenada durante a conspiração de Essex, a peça teve função pedagógica, no sentido de habituar o público à ideia de depor um monarca. Shakespeare que, no entanto, não queria se embaraçar com a rainha, concede um final redentor para Ricardo no último minuto. O ex monarca, isolado no cárcere a que o primo usurpador o submete,  amadurece enquanto pessoa, adquirindo uma perspectiva mais esclarecida do mundo.

***

Como se trata de uma tetralogia, devo mudar o cronograma para ler as peças na ordem. Então, em vez do Ricardo III, o próximo drama histórico lido será Henrique IV. Abaixo, os links para quem quiser acompanhar:


2 comentários:

  1. Oi Aline, tudo bem?
    Adorei a resenha! Ainda não terminei a leitura - estou um pouco empacada no meio, mas vou tentar dar uma reanimada esta semana. Já percebi que não sou muito fã dos dramas históricos rs. Em compensação, adorei a maioria das tragédias e das comédias já lidas!
    Mesmo assim,minha meta é ler todos (sem exceção). Vou enfrentar o resto do Ricardo II e partir para o próximo da lista :)
    Estou amando fazer o desafio!
    Beijos

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