quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Terra dos Homens


 As tempestades, a bruma, a neve, por vezes essas coisas o incomodarão. 
Pense então em todos os que conheceram isso antes de você e diga assim: 
o que eles fizeram eu também posso fazer.

O nome de Antoine Sant-Exupéry estará para sempre associado ao O Pequeno Príncipe, livro querido por muitos pela doçura e singeleza que o caracterizam. Se por um lado é uma boa lembrança que associamos ao escritor, por outro é enganoso supor que este seja o seu melhor trabalho. E, embora eu tenha lido somente dois de seus livros, posso afirmar, com entusiasmo,  que Terra dos Homens é muito melhor.

Publicado em 1939, seis anos antes que seu livro mais conhecido, Terra dos Homens descreve o período em que o escritor trabalhou como piloto do correio aéreo francês. Mas o livro é muito mais que isso. Com delicadeza, sensibilidade e lirismo, Saint-Éxupery revela seu aprendizado enquanto piloto civil, só que esse aprendizado supera os aspectos meramente técnicos de sua profissão.

O autor vai descrever seu amor pelos aviões — máquinas que em sua época eram muito mais inseguras e rudimentares. Inclusive, se você, como eu, tem medo de voar, ficará arrepiado com os episódios recorrentes de queda e com as maneiras surpreendentes como os pilotos lidavam com esses acidentes.

Saint-Exupéry tratará, ainda, da solidão, da beleza e dos mistérios dos céus e dos desertos, das amizades entre pilotos, de esperança, dos pequenos consolos em situações limites ou em localidades inóspitas. Versará sobre o valor humano, sobre a liberdade, sobre o amor. Creio que a beleza maior deste livro está no olhar do escritor. Na sua argúcia que não se permite converter em descrença ou cinismo. Cada descoberta de Saint-Exupéry se transmuta num esclarecimento sobre o homem que assombra e dá esperança. Seu olhar não é ingênuo, mas também não é fatalista. E, mesmo quando se depara com a face terrível do homem e da máquina, o escritor se maravilha com a dimensão das capacidades humanas.

Trabalhando só pelos bens materiais construímos nós mesmos nossa prisão. Encerramo-nos lá dentro, solitários, com nossa moeda de cinza que não pode ser trocada por coisa que valha a pena viver.

Se procuro entre minhas lembranças as que me deixam um gosto durável, se faço o balanço das horas que valeram a pena, certamente só encontro aquelas que nenhuma fortuna do mundo ter-me-ia presenteado. — pg. 25
 ♥♥♥
Sempre me pareceu que as pessoas que se horrorizam muito com nossos progressos técnicos confundem o fim com o meio. Na verdade, quem luta apenas na esperança de bens materiais não colhe nada que valha a pena viver. Mas a máquina não é um fim. O avião não é um fim: é um instrumento. Um instrumento como a charrua.

Se às vezes julgamos que a máquina domina o homem é talvez porque ainda não temos perspectiva bastante para julgar os efeitos de transformações tão rápidas como essas que sofremos. Que são os cem anos da história da máquina em face dos duzentos mil anos da história do homem? — p. 37

Os elementos de encanto de O Pequeno Príncipe, encontram-se já aqui: a troca entre amigos, o amor às viagens, a curiosidade face ao novo, a beleza das pequenas coisas. Só que em Terra dos Homens, temos um texto mais maduro, mais interessado nos conflitos e complexidades que nos rondam.

É interessante que, acidentalmente, esse livro veio complementar as leituras que venho fazendo sobre minimalismo, pois, é no isolamento, e com parcos recursos, que o escritor irá descobrir mais sobre si e sobre o mundo. E essa descoberta permite a aproximação a um entendimento apaziguador.

Terra dos Homens é um livro para se ler com calma. Seus pequenos fragmentos e capítulos merecem ser degustados como pequenas pílulas balsâmicas, como pequenos prêmios no fim de um dia cheio ou difícil. É um livro que, com uma narrativa delicada, suaviza e oferece um pouco de perspectiva.

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